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Geopolítica

EUA ameça “agir sozinho” nos países da América Latina. O que se espera do Brasil nesse contexto?

Declaração de Washington sobre combate a cartéis reacende debate sobre soberania e coloca Brasília diante de dilema entre cooperação e autonomia estratégica

EUA ameça “agir sozinho” nos países da América Latina. O que se espera do Brasil nesse contexto?

Em meio à crescente escalada de tensões internacionais provocada pelos ataques contra o Irã, o governo dos Estados Unidos também elevou o tom em relação à América Latina ao afirmar que, caso considere “necessário”, realizaria ações unilaterais no território da região para combater os cartéis de drogas.

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O discurso, que viola a soberania das nações latino-americanas sobre o próprio território, veio após um encontro de segurança hemisférica na Flórida, e foi interpretado como um sinal de endurecimento e excesso de influência na política externa de Washington. As informações são da Agência Brasil.

A influência geopolítica dos EUA

O posicionamento ocorreu durante a Conferência das Américas de Combate aos Cartéis, realizada em Doral, na Flórida, e liderada pelo secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth.

O evento reuniu representantes de 16 países latino-americanos e resultou na formação de uma coalizão regional voltada ao enfrentamento e combate severo ao narcotráfico.

Durante o encontro, Hegseth afirmou que os Estados Unidos estão prontos para agir mesmo sem o apoio de governos locais caso considerem necessário enfrentar organizações criminosas transnacionais.

“Os Estados Unidos estão preparados para enfrentar essas ameaças e partir para o ataque sozinhos, se necessário. No entanto, nossa preferência — e o objetivo desta conferência — é que, no interesse deste hemisfério, façamos isso juntos; com vocês, com nossos vizinhos e com nossos aliados”, disse Hegseth.

A fala ganhou ainda mais peso político porque o secretário vinculou a iniciativa ao chamado “Corolário Trump à Doutrina Monroe”, conceito incorporado à nova Estratégia de Segurança Nacional.

A referência resgata a doutrina formulada em 1823, que sustenta a ideia de predominância dos Estados Unidos no hemisfério ocidental e historicamente foi usada para justificar intervenções políticas, conflitos e ações militares na América Latina. Reacedendo, assim, o debate sobre excesso de influência do país.

Como o Brasil pode ser impactado?

Para o Brasil, a nova postura de Washington traz implicações diplomáticas e estratégicas.

O país historicamente separa as ações policiais contra o crime organizado de operações de defesa militar, evitando a participação direta de forças estrangeiras dentro do seu território.

Ao mesmo tempo, a pressão americana ocorre em um momento de crescimento do poder de facções criminosas transnacionais, que atuam em rotas de tráfico pela Amazônia e pela fronteira andinas.

Especialistas ouvidos pela Agência Brasil avaliam que essa realidade pode ser usada por Washington como argumento para ampliar sua presença na região. “O Brasil precisa urgentemente, como uma prioridade nacional, enfrentar com todas as energias, a começar das forças de segurança, as organizações criminosas brasileiras, até para não oferecer pretexto a Washington de utilizá-las com fins de ameaça à soberania brasileira”, afirmou o professor de geopolítica da Escola Superior de Guerra Ronaldo Carmona.

Estratégia dos EUA na região

A política apresentada pelo governo americano foi descrita como parte de um “corolário Trump à Doutrina Monroe”, que historicamente sustenta a ideia de predominância dos Estados.

Na prática, isso inclui maior coordenação militar no hemisfério ocidental, além de acordos de segurança e restrições à presença de potências extrarregionais, ferindo a soberania de outras nações.

“Pois sob Trump, as ameaças costumam se materializar (vide Venezuela e agora Irã). Ao evocar a Doutrina Monroe, o faz propondo expurgar a presença de potências extrarregionais das Américas, em uma ameaça explícita à liberdade de ação das nações da América Latina”, comentou Ronaldo.

Resposta brasileira

O governo brasileiro tem defendido que a cooperação em segurança deve ocorrer entre iguais e com respeito à soberania nacional. O combate ao narcotráfico, segundo a posição de Brasília, precisa priorizar ações de inteligência, policiamento e integração regional, sem militarização externa.

Analistas apontam que, diante desse cenário, o Brasil tende a reforçar sua estratégia de liderança diplomática na América do Sul, buscando soluções multilaterais para o crime organizado e evitando que o tema seja usado como justificativa para intervenções externas no continente.

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