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Entrevistas

Especialista explica o peso do Brasil na geopolítica mundial

Dimensão econômica, produção de alimentos, energia e Amazônia ampliam espaço internacional

Especialista explica o peso do Brasil na geopolítica mundial

O Brasil ocupa uma posição intermediária na geopolítica mundial, tem força suficiente para influenciar determinadas discussões internacionais, mas não reúne o mesmo poder econômico, tecnológico ou militar das grandes potências.

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Essa combinação coloca o país entre as chamadas potências médias, com liderança regional e capacidade de ganhar protagonismo em áreas nas quais possui recursos estratégicos.

Para Victor Jaumouillé, mestre em Negócios Internacionais, a influência brasileira se concentra em temas que ganharam importância diante das disputas econômicas, ambientais e comerciais entre os países.

“Hoje, o Brasil aparece como uma potência média, com capacidade de influência em algumas agendas internacionais, mas com limitações em outras. O país tem peso relevante em temas como clima, meio ambiente, segurança alimentar, agricultura e energia, além de ocupar uma posição de destaque na América Latina e de atuar de forma significativa na representação do Sul Global e na defesa do multilateralismo”, explica Jaumouillé.

Essa presença ganhou visibilidade com eventos internacionais realizados no país. Entre 2024 e 2025, o Brasil assumiu a presidência do G20, recebeu a cúpula do BRICS e sediou a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30), em Belém, enquanto buscava ampliar relações com diferentes mercados e blocos.

Liderança regional não garante influência em todas as agendas

O tamanho da economia e da população brasileira sustenta uma posição diferente da ocupada pela maioria dos países latino-americanos.

O relatório anual de 2025 da Conferência de Segurança de Munique (MSC) classificou o Brasil como uma potência regional e uma potência média que busca funcionar como ponte entre o Sul Global e o Norte Global.

O documento calculou que o país concentra aproximadamente um terço do Produto Interno Bruto (PIB), da população, dos gastos militares e das exportações da América Latina e do Caribe.

A dimensão regional, porém, não significa que Brasília consiga conduzir os demais países latino-americanos em todas as iniciativas diplomáticas.

As dificuldades aparecem, por exemplo, nas tentativas de aprofundar a integração regional. Divergências políticas e econômicas entre governos sul-americanos limitam a construção de posições comuns, inclusive dentro do Mercosul, onde os integrantes mantêm interesses diferentes sobre comércio exterior e relacionamento com grandes economias.

“No âmbito internacional, o Brasil é favorecido por fatores como sua dimensão territorial e econômica, a produção agrícola, a disponibilidade de recursos naturais, o potencial energético e a importância da Amazônia. Esses elementos dão ao país relevância em debates globais sobre clima, segurança alimentar, transição energética e desenvolvimento sustentável”, contextualiza o especialista.

Alimentos, minerais e Amazônia aumentam peso brasileiro

A segurança alimentar é uma das áreas em que a capacidade de influência brasileira ultrapassa a América Latina. O relatório da MSC coloca o Brasil como o segundo maior exportador mundial de produtos agrícolas e registra sua liderança internacional em produtos como soja, carne e açúcar.

A participação brasileira ganha importância porque grandes mercados dependem dessa produção. Conforme os dados reunidos no documento, 67,9% da soja importada pela China vinha do Brasil.

Ao mesmo tempo, 36% das exportações agrícolas brasileiras tiveram o mercado chinês como destino em 2023, criando uma relação de dependência comercial relevante para os dois países.

O país também possui recursos considerados estratégicos para a transição energética. O levantamento atribui ao Brasil 94% das reservas mundiais de nióbio, 22% das de grafite, 16% das de níquel e 17% das de elementos de terras raras, matérias-primas utilizadas em tecnologias relacionadas à eletrificação e à produção de equipamentos avançados.

A Amazônia acrescenta outra dimensão à atuação externa. Cerca de 60% da bacia amazônica está em território brasileiro, o que coloca decisões tomadas pelo país no centro de negociações sobre desmatamento, emissões de gases de efeito estufa e políticas ambientais.

Para Jaumouillé, entretanto, os recursos disponíveis não bastam para transformar o país em uma potência de alcance amplo. “Ao mesmo tempo, desafios relacionados à infraestrutura, à inovação e à inserção em setores tecnológicos mais avançados, além dos custos associados ao chamado Custo Brasil, podem limitar essa projeção internacional.”

Disputa entre Estados Unidos e China desafia estratégia brasileira

A competição entre Estados Unidos e China cria uma das principais dificuldades para a política externa brasileira. Os dois países ocupam posições importantes nas relações econômicas do Brasil, enquanto Brasília historicamente procura preservar espaço para negociar com diferentes governos sem estabelecer alinhamento automático com uma potência.

Essa estratégia tem uma razão econômica. O relatório da Conferência de Segurança de Munique registrou que a China se tornou o maior parceiro comercial e o segundo maior investidor do Brasil, enquanto os Estados Unidos permaneciam como maior investidor direto e segundo maior parceiro comercial.

A relação com os dois polos leva a política externa brasileira a tentar evitar escolhas que restrinjam mercados, investimentos ou possibilidades de negociação.

O país também mantém relações com União Europeia, integrantes do BRICS, países árabes e economias asiáticas, compondo uma rede de parceiros que reduz a dependência política de uma única direção.

“Há décadas, a diplomacia brasileira busca manter autonomia nas relações internacionais do país, utilizando essas relações como instrumento de desenvolvimento econômico e social. No contexto atual, marcado pela competição entre Estados Unidos e China, o Brasil procura manter canais de diálogo e negociação com as duas potências, sem se vincular exclusivamente a um dos lados”, avalia Jaumouillé.

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