A venda de R$ 85,5 milhões em honorários pelo escritório de advocacia ligado ao governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB), para fundos associados ao Banco Master e à Reag Investimentos ampliou o alcance do escândalo financeiro e trouxe novos elementos para investigação.
As operações, baseadas na antecipação de valores judiciais, conectam diretamente a banca a estruturas que hoje estão sob suspeita de irregularidades.
Como mostrou o Estadão, os negócios foram realizados entre 2019 e 2024, período em que Ibaneis já ocupava o cargo de governador.
A sequência das transações indica que a relação com esses fundos ocorreu antes da crise envolvendo o Master vir à tona, o que coloca as negociações em um contexto anterior às investigações formais.
Venda de honorários estruturou operações
Os valores negociados têm origem em ações judiciais movidas por servidores públicos contra a União. Esses processos geram precatórios, que são pagamentos futuros, e parte desses valores é destinada aos advogados como honorários.
Ao vender esses direitos para fundos, o escritório antecipou receitas que seriam recebidas ao longo do tempo.
Esse tipo de operação é comum no mercado, mas depende da avaliação do risco e da credibilidade das partes envolvidas.
Nesse caso, os créditos foram adquiridos por fundos ligados a instituições que passaram a ser investigadas posteriormente, o que amplia o interesse sobre a natureza dessas transações.
Conexões com estruturas investigadas
Uma parcela relevante das operações foi realizada com fundos administrados pela Reag Investimentos, empresa citada em investigações sobre fraude e lavagem de dinheiro. Entre eles estão o Laguz I e o Reag Legal Claims.
Somente em 2023, duas negociações somaram R$ 42,9 milhões. No ano seguinte, outra operação de R$ 38,1 milhões reforçou a relação entre o escritório e esses veículos financeiros.
A recorrência dessas transações com os mesmos agentes chama atenção porque sugere uma relação contínua, e não pontual, com estruturas que hoje estão no centro do caso Master.
Linha do tempo coincide com avanço do caso
Parte das negociações ocorreu pouco antes do início das tratativas entre o Banco de Brasília (BRB) e o Banco Master. Esse encadeamento temporal passou a ser observado dentro do contexto mais amplo das investigações.
Em maio de 2024, uma das maiores cessões de honorários foi realizada. No mês seguinte, começaram as negociações envolvendo a possível compra de ativos do Master pelo BRB, operação que acabou barrada pelo Banco Central.
Essa proximidade entre eventos levanta questionamentos sobre o ambiente financeiro em que essas transações estavam inseridas.
Ambiente financeiro já apresentava sinais
Como informou o g1, operações envolvendo o Banco Master já apresentavam indícios de inconsistências, incluindo estruturas com dificuldade de identificar os beneficiários finais e movimentações consideradas fora do padrão.
Relatórios enviados ao Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) indicam que parte dessas transações utilizava fundos com características atípicas, como concentração de recursos e estruturas interligadas.
Outras transações ampliam contexto
De acordo com a CNN Brasil, o caso Master também envolve operações que vão além do setor bancário, incluindo investimentos indiretos em ativos. Essas transações passaram por fundos administrados pela Reag e envolveram diferentes agentes.
Essas movimentações mostram que o uso de fundos como intermediários foi recorrente em diferentes frentes do caso. O modelo cria camadas adicionais nas operações e pode dificultar a rastreabilidade dos recursos.
A presença desses mesmos veículos em negociações com o escritório de Ibaneis reforça a conexão com um ecossistema financeiro mais amplo, hoje sob investigação.
Desdobramentos seguem em análise
Ainda conforme o Estadão, as operações com honorários foram registradas em comunicações ao Coaf, já que envolvem valores elevados.
Esses registros servem como base para o acompanhamento de movimentações financeiras consideradas relevantes.
A análise dessas transações deve considerar tanto a legalidade formal quanto o contexto em que foram realizadas, especialmente diante das conexões com estruturas investigadas.
Justiça liberou uso de imóveis para socorrer BRB
O Tribunal de Justiça do Distrito Federal reverteu nesta semana uma decisão anterior que suspendia o uso de bens públicos na operação, reacendendo o debate político e jurídico sobre o tema. Com isso, o governo local volta a ter autorização para transferir ou vender nove imóveis públicos com o objetivo de reforçar a estrutura financeira do BRB.
O governador Ibaneis Rocha defendeu a medida e afirmou que a ação busca preservar o banco e proteger empregos. Na decisão, o magistrado destacou a relevância da instituição para o funcionamento de políticas públicas e serviços bancários na capital, conforme mostra matéria do O Brasilianista.

