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Geopolítica

Brasil enfrenta pressão global e vê estratégia de neutralidade se tornar cada vez mais difícil

Mudanças no cenário internacional elevam peso das relações exteriores no debate político interno

Brasil enfrenta pressão global e vê estratégia de neutralidade se tornar cada vez mais difícil

O avanço das tensões internacionais e a reorganização das forças globais colocam o Brasil diante de um cenário mais complexo do que em anos anteriores. Em participação no podcast do Brazil Journal, Lucas de Aragão, mestre em Ciência Política e sócio da Arko Advice, analisou como o país, que historicamente adotou uma postura de equilíbrio entre potências, agora enfrenta dificuldades para sustentar essa estratégia em um mundo mais polarizado.

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Segundo ele, o Brasil sempre conseguiu manter diálogo com diferentes lados, sem a necessidade de se alinhar de forma definitiva. “O Brasil sempre conseguiu flutuar bem nesse mundo de antagonismo”, afirmou. Essa capacidade permitia ao país manter relações simultâneas com grandes centros de poder, como Estados Unidos e China, ampliando oportunidades econômicas e políticas. No entanto, esse cenário mudou. “Essa tática de não ter lado já é um lado hoje em dia”, disse, ao destacar que a neutralidade passou a ser interpretada como posicionamento.

Pressão internacional e avanço da China na região

Um dos fatores que contribuem para essa mudança é a crescente presença da China na América Latina. Aragão observa que o país asiático ampliou sua atuação econômica na região ao longo das últimas décadas, com investimentos em infraestrutura, empresas e setores estratégicos. “A China que entrou muito forte na economia da América do Sul nas últimas décadas”, afirmou, citando exemplos como Argentina, México, Panamá e Paraguai.

No caso brasileiro, ele aponta que a entrada ocorreu de forma mais gradual, mas já é perceptível. “A gente vê hoje, por exemplo, carros chineses, infraestrutura chinesa, investimentos em empresas chinesas”, disse. Esse avanço acendeu um alerta nos Estados Unidos, que veem a influência chinesa como uma ameaça direta em sua área de interesse. Segundo Aragão, esse é hoje um dos principais pontos de incômodo de Washington em relação à América Latina.

Diante disso, o Brasil passa a enfrentar um dilema: manter sua tradição diplomática ou se aproximar mais claramente de um dos polos. Para o analista, esse desafio deve se intensificar nos próximos anos, à medida que a disputa global se acirra.

Política externa ganha espaço no debate eleitoral

Além do impacto externo, a política internacional começa a ganhar relevância dentro do cenário doméstico. Aragão avalia que esse tema deve ter protagonismo nas próximas eleições, algo pouco comum na história recente do país. “Virou um assunto que vai ser utilizado na campanha”, afirmou.

Ele acredita que a oposição deve explorar imagens e associações internacionais do atual governo como estratégia política. “Não tenho dúvida, por exemplo, que a campanha da oposição […] vai utilizar, por exemplo, imagens do Lula com o ex-presidente venezuelano, ditador venezuelano Nicolás Maduro, com o líder supremo do Irã, Komanei”, disse.

Para Aragão, essa mudança indica que o eleitor brasileiro será cada vez mais exposto a discussões sobre posicionamento internacional, o que tende a influenciar decisões nas urnas.

Economia e recursos naturais mantêm relevância do Brasil

Mesmo com esse ambiente desafiador, o Brasil ainda mantém pontos de força no cenário global. Aragão destaca que o país é um grande fornecedor de produtos essenciais, o que garante demanda constante. “A gente exporta soja, trigo, comida, proteína, petróleo”, disse.

Ele explica essa ideia com uma frase bem-humorada: “Um amigo meu fala que o Brasil é exportador de três coisas, de commodity, de juro e de jogador de futebol”. Essa característica, segundo ele, mantém o país relevante mesmo em momentos de instabilidade internacional.

Na comparação com outros mercados emergentes, o Brasil ainda aparece em posição relativamente favorável. “É um concurso de feiura e a gente é o menos feio”, afirmou, ao explicar que, apesar dos problemas estruturais, o país oferece algum nível de segurança jurídica e institucionalidade, além de oportunidades de investimento em áreas como infraestrutura, energia e mercado imobiliário.

Nova economia global e decisões concentradas

Aragão também destacou mudanças estruturais na economia global, impulsionadas pelo avanço tecnológico. O aumento da demanda por energia, especialmente com datacenters e inteligência artificial, tende a favorecer países com capacidade de geração e recursos naturais. “Talvez o século XX foi o mundo mais da molécula e agora vai ser o mundo mais do elétron”, disse.

Nesse contexto, o Brasil ganha importância estratégica, inclusive no fornecimento de minerais raros. Segundo Aragão, os Estados Unidos já demonstraram interesse em aproximar o país nesse setor. “O presidente Donald Trump convidou o Brasil para participar do Conselho de Minerais Raros”, afirmou.

Por fim, ele chamou atenção para a forma como a política externa brasileira é conduzida. “A política externa do Brasil está muito mais concentrada no Palácio do Planalto do que no Itamaraty”, disse. Segundo ele, diferentemente de outras áreas do governo, as decisões nesse campo passam por menos etapas e são mais centralizadas. “A política externa é muito o Lula e o Celso Amorim conversando […] Eles tomam uma decisão, vamos fazer isso, vamos falar aquilo.”

Ainda, Aragão avalia que o pragmatismo tende a prevalecer, independentemente da orientação política do governo. “Quando o calo aperta, sai um pragmatismo”, concluiu.

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