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Economia

Expectativa do mercado indica ciclo de juros mais cauteloso

Mercado pode presenciar quedas, mas em ritmo mais moderado por pressões inflacionárias e incertezas sobre guerras

Expectativa do mercado indica ciclo de juros mais cauteloso

O Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central do Brasil, terá uma agenda intensa em 2026, com oito encontros programados para definir os rumos da Selic, taxa básica de juros da economia, e avaliar o cenário econômico. As próximas datas já estão definidas:

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  • Terceira reunião: 28 e 29 de abril
  • Quarta reunião: 16 e 17 junho
  • Quinta reunião: 4 e 5 de agosto
  • Sexta reunião: 15 e 16 de setembro
  • Sétima reunião: 3 e 4 de novembro
  • Oitava reunião: 8 e 9 de dezembro

As decisões do Copom influenciam diretamente variáveis centrais da economia, como emprego, crédito, orçamento das famílias, atividade empresarial e estratégias de investidores. Taxas mais altas podem favorecer investimentos em renda fixa, mas encarecem o crédito, freiam o consumo e reduzem a geração de empregos.

Em entrevista exclusiva ao O Brasilianista, Wagner Moraes, economista e CEO da A&S Partners, afirma que o ambiente atual da política monetária brasileira exige cautela.

“No cenário doméstico, o que eu vejo hoje é um ambiente mais complexo do que o movimento isolado da Selic pode sugerir. O Banco Central iniciou o ciclo de cortes, mas a trajetória à frente ficou menos previsível. Isso porque, ao mesmo tempo em que o juro começa a recuar, as expectativas de inflação voltaram a subir e o ambiente externo se deteriorou”, explica Moraes.

O economista cita que a recente revisão do Boletim Focus, com alta nas projeções de juros e inflação, já mostra ajustes do mercado. A situação não surge por acaso. Existe uma combinação de fatores pressionando o cenário: a volatilidade das commodities, a sensibilidade do câmbio e um pano de fundo global mais instável.

Embora o Brasil esteja em um ciclo de queda de juros, isso não significa um alívio. Na prática, o país entrou em um ciclo de redução da Selic, mas não em um ciclo de estímulo completo. O ponto central seria a política monetária passar a operar em um equilíbrio mais delicado, em que cortes de juros exigem muito mais convicção e, principalmente, cuidado.

A taxa Selic para o empreendedor

Moraes alerta que a combinação de juros menores com inflação ascendente altera o custo operacional das empresas.

“Quando a Selic começa a cair, o mercado naturalmente espera alívio nas condições financeiras. O problema é que, ao mesmo tempo, as expectativas de inflação estão subindo, e isso muda completamente a dinâmica. Na prática, o custo de capital pode até cair na margem, mas o custo operacional das empresas sobe principalmente em setores intensivos em energia, transporte e insumos básicos”, detalha.

Segundo ele, o impacto é sentido principalmente na base da cadeia de produção. Os itens que tendem a encarecer são justamente aqueles que compõem essa faixa: combustível, logística, alimentos e insumos industriais. Esse movimento pressiona margens e reduz a previsibilidade para as empresas.

Na prática, não se trata de um cenário clássico de estímulo. Apesar da queda da Selic, o custo da economia real continua pressionado e criando um ambiente mais complexo para negócios.

Na avaliação de Moraes, o mercado ainda demonstra otimismo excessivo quanto à trajetória de queda da Selic. “Existe uma expectativa de normalização mais rápida do que o cenário atual permite”, completa.

Ele acrescenta que, ao analisar fatores como inflação de serviços, impacto das commodities e maior instabilidade externa, fica evidente que o processo de desinflação não ocorre de forma linear. Parte do mercado continua tratando o choque de energia como temporário, o que, segundo ele, pode ser um equívoco.

“O risco hoje está mais para uma subestimação da inflação do que para um erro de diagnóstico sobre crescimento. E, historicamente, quando isso acontece, o ajuste vem via juros mais altos por mais tempo”, ressalta o especialista.

Próximas decisões do Banco Central

Moraes ressalta que as decisões do Copom devem ser guiadas mais pelos dados do que por sinalizações do Banco Central. O mercado hoje depende muito mais dos dados do que de qualquer sinalização do Banco Central. Ele ressalta que a comunicação da autoridade monetária se tornou mais cautelosa, e que isso foi uma decisão intencional.

O três pontos que vão definir as próximas decisões são a trajetória da inflação corrente, o comportamento das expectativas, principalmente no Focus, e o cenário externo.

“Se houver continuidade na pressão de commodities e alguma deterioração cambial, o Banco Central tende a reduzir o ritmo de cortes. Não vejo espaço, hoje, para movimentos mais agressivos”, explica.

O economista destaca que o cenário-base indica continuidade do ciclo de redução da Selic, porém em passos mais moderados e dependentes dos dados.

Crise no Oriente Médio

Moraes alerta que a guerra no Oriente Médio não é o cenário central, mas representa um risco concreto para a economia brasileira, destacando que o principal canal de transmissão é via petróleo e energia.

Se houver uma escalada do conflito que afete a oferta ou a logística, o impacto nos preços internacionais pode ser significativo, chegando diretamente à inflação brasileira. O economista acrescenta que o conflito também exerce efeitos sobre o câmbio.

“Em momentos de estresse geopolítico, o fluxo global busca proteção, o que tende a pressionar moedas emergentes. Se esse movimento se intensificar, o Banco Central pode ser forçado a rever o ritmo ou até interromper o ciclo de cortes. Ou seja, a guerra não é o cenário central, mas é um risco que o BC não pode ignorar”, diz.

Fatores globais pesam mais que os domésticos

Sobre a inflação, Moraes destaca que o impacto internacional tem predominado sobre os fatores internos. Segundo ele, o peso maior vem do cenário global. O Brasil ainda enfrenta desafios domésticos, especialmente na área fiscal e na dinâmica de serviços, mas o que tem feito diferença recentemente é o comportamento das commodities, principalmente a energia.

A alta do petróleo contamina a inflação de forma transversal, afetando combustíveis, transporte e alimentos, e que o ambiente externo exerce influência direta sobre o câmbio, um canal relevante de transmissão inflacionária.

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