A evolução rápida de fabricantes da China no cenário automotivo do Brasil já produz impactos no segmento de aluguel de carros e influencia diretamente o estabelecimento de tarifas e o desgaste contábil dos ativos. Nesse crescimento, as versões de baixo custo costumam forçar o setor de automóveis zero-quilômetro e atingir companhias como Localiza (RENT3) e Movida (MOVI3), indicam estudos do Goldman Sachs e do Bradesco BBI reportados pelo InfoMoney.
Esse dado foi percebido depois que estatísticas publicadas pelo Autodata mostraram que o BYD Dolphin Mini está entre os dez automóveis mais comercializados do país em março de 2026. São 7 mil registros, garantindo à empresa o nono lugar no balanço mensal. O resultado não só é devido à quantidade, mas também à agilidade com que o produto se difundiu no mercado.
Na visão do Goldman Sachs, levando em conta a variação sazonal comum a março, cerca de 10% superior ao mês precedente, a fatia de mercado do Dolphin Mini teria atingido cerca de 5% contra os, aproximadamente, 3% verificados em fevereiro.
A instituição financeira ressaltou que esse avanço foi um resultado durante uma oferta específica da fabricante chinesa, que ofereceu vantagens comerciais por um intervalo de 48 horas.
Como já apontado anteriormente, os carros chineses mais acessíveis vão entrar e ganhar espaço no Brasil. Essa tendência pode acabar pressionando os preços, repetindo um movimento parecido com o que aconteceu no segmento de SUVs em 2023.
Preços e lucros ainda sofrem pressão
O Goldman Sachs chama atenção para o impacto dessa disputa mais acirrada no mercado de carros novos, que também acende um alerta para o setor de locação. A lógica é simples: veículos mais baratos na origem podem, ao longo do tempo, derrubar o valor das frotas ou reduzir o preço de revenda das locadoras, o que compromete a rentabilidade futura do setor.
O banco revisou para baixo, no fim da semana passada, a sua recomendação para as ações RENT3, da Localiza, fixando o preço-alvo em R$ 50. Segundo o Goldman, cada variação de 1% nos preços dos carros novos no Brasil pode mexer em cerca de R$ 570 milhões no valor contábil do estoque.
Considerando um ciclo médio de uso de 18 meses, isso pode gerar um impacto de aproximadamente R$ 300 milhões no lucro anual, próximo a 6% do resultado esperado para 2027. Em 2024, a empresa já havia registrado um ajuste de R$ 1,4 bilhão, equivalente a cerca de 2,5% do valor da frota.
Avanço e estruturação chinesa
O Bradesco BBI já destacou o avanço consistente das montadoras chinesas no Brasil. De acordo com projeções de Rogélio Golfarb, ex-executivo da Anfavea, essas empresas podem chegar a cerca de 35% do mercado automotivo brasileiro até 2035. Para comparação, elas tinham algo próximo de 10% em 2024 e devem atingir cerca de 20% em 2030.
Segundo ele, mesmo com uma migração gradual para produção local, as marcas chinesas devem manter alta competitividade. Isso se deve não só a incentivos governamentais, mas também à escala de produção, à integração da cadeia industrial e ao uso de insumos importados mais baratos, principalmente em tecnologias como veículos híbridos e elétricos.
Na visão do Bradesco BBI, esse crescimento pode afetar diretamente o setor de locação, aumentando a pressão sobre a depreciação das frotas de empresas como Localiza e Movida. Ainda assim, o banco avalia que há fatores que podem amenizar esse impacto. Entre eles estão:
- Valor médio mais alto dos veículos;
- Maior concentração das locadoras em SUVs;
- Aumento de impostos de importação (que limita descontos muito agressivos);
- Condições comerciais mais favoráveis negociadas pelas locadoras.

