A presença nas redes sociais passou a influenciar a forma como políticos se comunicam e constroem relevância pública. Embora ainda seja possível manter espaço na política sem grande atuação digital, o cenário atual aponta para uma mudança de comportamento. Para o cientista político Rodrigo Augusto Prando, professor e pesquisador da Universidade Presbiteriana Mackenzie, os políticos tradicionais continuam relevantes, mas já não ignoram a necessidade de engajamento online.
Segundo ele, atualmente, um político não ativo nas redes sociais ainda consegue se manter relevante, especialmente quando possui articulação partidária e produção legislativa. Ainda assim, há perda de alcance junto ao público. Nesse contexto, as redes deixam de ser apenas um complemento e passam a integrar a estratégia de comunicação.
O avanço dessa dinâmica está diretamente ligado ao funcionamento das plataformas digitais. Prando aponta que a aproximação entre política e influenciadores ocorreu quando os algoritmos passaram a valorizar conteúdos com forte apelo emocional. “O algoritmo que as redes sociais comportam é um algoritmo que valoriza muito mais — nos tempos que correm — aqueles políticos capazes de engajar”, afirma.
Comunicação política e lógica de influenciadores
A diferença entre comunicação política e atuação como influenciador ainda existe, mas se tornou menos evidente. De acordo com o pesquisador, a política envolve um processo contínuo de construção de imagem e debate público, enquanto influenciadores, em geral, não têm como objetivo organizar a vida em sociedade.
Ele explica que há duas dimensões na comunicação política. Uma voltada à construção de imagem ao longo do tempo e outra focada no período eleitoral. Já os influenciadores atuam com foco em engajamento e monetização. Apesar disso, a lógica das redes aproxima esses universos, principalmente quando seguidores passam a se converter em votos.
O caso de Nikolas Ferreira, por exemplo, ilustra esse cenário. Para Rodrigo Prando, o parlamentar se destaca por dominar a linguagem digital e se beneficiar do funcionamento dos algoritmos. “O deputado é um fenômeno em termos de comunicação política com base na força dos algoritmos das redes sociais”, diz. O professor pontua que Nikolas consegue comunicar uma imagem de forma eficiente e se posicionar como um ator político que compreende a dinâmica das plataformas. Ele acrescenta que esse tipo de visibilidade pode ampliar projeções políticas no médio e longo prazo.
Por outro lado, o especialista alerta para o risco de priorização da forma em detrimento do conteúdo. “Muitas vezes o discurso desses influenciadores, desses políticos que têm muita força nas redes sociais, é um discurso que tem uma forma interessante em termos de comunicação, mas o conteúdo é quase nulo”, alerta. Sendo assim, temas ligados a políticas públicas acabam perdendo espaço ou aparecem com pouco aprofundamento.
Algoritmos, emoção e simplificação
O funcionamento das plataformas digitais favorece conteúdos que despertam emoções intensas. Prando esclarece que sentimentos como raiva, medo e frustração impulsionam a visibilidade. Esse modelo impacta diretamente o tipo de discurso político que ganha espaço.
“É claro que o que está dando mais impacto é trabalhar com conteúdo emocional e polarização”, declara. Ele acrescenta que “não raro, inclusive, lançar mão de pós-verdade, fake news, teorias da conspiração ou negacionismo é uma forma também de conseguir engajamento e de atrair atenção”. Com isso, conteúdos desse tipo tendem a ganhar mais visibilidade nas plataformas.
No caso de Renan Bolsonaro, o uso das redes levanta dúvidas sobre intencionalidade. Rodrigo observa que há dificuldade em identificar se a comunicação segue uma estratégia definida ou se é espontânea. Ele aponta que, em situações ao vivo, a fala do político nem sempre apresenta conexão clara de ideias, o que torna essa distinção menos evidente.
Impactos no debate público e nas eleições
O crescimento desse modelo também levanta questionamentos sobre a qualidade do debate político. A busca por engajamento pode reduzir o espaço para discussões mais profundas, ao mesmo tempo em que amplia a visibilidade de conteúdos mais simples e diretos.
Prando explica que há diferença geracional no consumo de informação. Jovens tendem a se informar majoritariamente pelas redes, enquanto públicos mais velhos ainda recorrem a meios tradicionais. Esse comportamento influencia a forma como mensagens políticas são construídas e recebidas.
Além disso, políticos que dominam a linguagem digital passam a ter vantagem competitiva. Isso pode gerar desigualdade entre candidatos, especialmente em um cenário em que visibilidade se torna um fator decisivo.
O pesquisador também aponta que o uso intensivo das redes favorece lideranças personalistas e se conecta ao crescimento do populismo digital. Ele explica esse movimento ao descrever como esse tipo de liderança se estrutura: “O populista costuma dividir uma nação em dois grupos, o povo, e sempre o povo é virtuoso, e do outro lado as elites corruptas”. Nesse modelo, a comunicação tende a dividir o debate em polos opostos, reduzindo espaço para diálogo.
No campo jurídico, há limites para o uso das plataformas, mas a regulamentação ainda enfrenta desafios diante da velocidade das mudanças tecnológicas. “Qualquer um que ultrapassar os limites pode ser condenado por abuso de poder político e econômico e perder o mandato”, embora a aplicação dessas regras dependa de interpretação jurídica e fiscalização eleitoral.

