Os estados brasileiros e o Distrito Federal elevaram seus investimentos para R$ 119,75 bilhões em 2025, com crescimento real de 7,9% em relação ao ano anterior, ao mesmo tempo em que registraram redução significativa no caixa disponível.
Os dados, compilados pela Aequus Consultoria Econômica e divulgados pelo Valor Econômico, mostram que o aumento dos aportes ocorreu junto a maior comprometimento das receitas com despesas correntes e queda do saldo em caixa, que passou de R$ 53,99 bilhões para R$ 29,41 bilhões.
Alta de investimentos em ano pré-eleitoral
O crescimento dos investimentos foi observado em 17 unidades da federação, com destaque para 12 estados onde a alta superou 10%, incluindo Goiás, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Pernambuco. Em seis desses entes, o avanço ultrapassou 30%.
O movimento ocorre em um contexto de véspera de eleições, período em que historicamente há ampliação de investimentos públicos, especialmente em obras e infraestrutura. Em valores absolutos, São Paulo liderou os aportes, seguido por Minas Gerais e Bahia.
Ainda conforme o levantamento, o total investido nos três primeiros anos do atual ciclo de governos estaduais chegou a R$ 333,39 bilhões, valor significativamente superior ao registrado no ciclo anterior equivalente.
Pressão crescente sobre as contas públicas
O aumento dos investimentos foi acompanhado por expansão das despesas correntes, que passaram a representar 94,2% da receita corrente em 2025, ante 92,8% no ano anterior.
Ao mesmo tempo, as receitas cresceram em ritmo menor, com alta real de 2,6%, enquanto as despesas correntes avançaram 4%. Esse descompasso contribuiu para a redução do caixa dos estados, que já vinha em queda desde 2023.
O levantamento também aponta que o nível de disponibilidade de recursos está distante do pico recente, registrado em 2022, quando os Estados somavam R$ 91,71 bilhões em caixa.
Uso de crédito e sustentabilidade dos gastos
Parte da expansão dos investimentos foi viabilizada por receitas extraordinárias e operações de crédito. Em 2025, os estados e o DF captaram R$ 31,69 bilhões por meio de empréstimos, com alta real de 43,3% em relação ao ano anterior.
Para o economista Alberto Borges, sócio da Aequus, o cenário indica necessidade de revisão nos mecanismos de controle fiscal. “Não há na nossa legislação nada que controle o conjunto das despesas correntes dos estados”, afirmou.
Ele também destacou que o crescimento das despesas não se concentra apenas em pessoal, mas em outras rubricas, que vêm aumentando de forma contínua nos últimos anos.
Riscos para 2026 e debate federativo
Analistas avaliam que o cenário exige atenção, especialmente diante da perspectiva de manutenção dos investimentos em níveis elevados em 2026.
O economista Gabriel Leal de Barros, da ARX Investimentos, afirmou que parte dos estados está consumindo reservas para sustentar os gastos.
“Sabemos que ainda que sejam importantes e tenham justificativa, os investimentos são seguidos por gastos correntes”, disse.
Ele também apontou preocupação com a origem dos recursos, destacando que receitas temporárias e operações de crédito podem gerar desafios futuros para o custeio dessas despesas.
Diferenças entre Estados e estratégias locais
O cenário fiscal não é homogêneo entre os estados. Em Sergipe, por exemplo, o aumento dos investimentos reflete a execução de projetos ao longo do mandato, com expectativa de novos recordes em 2026.
A secretária da Fazenda, Sarah Tarsila Andreozzi, afirmou que os aportes têm impacto direto na economia local. “Investimento tem um multiplicador na economia, que gera emprego e renda”, declarou.
Já no Paraná, o secretário Norberto Ortigara destacou que o ritmo de investimentos segue elevado, com previsão de novo recorde, enquanto medidas de contenção de gastos são adotadas para equilibrar o orçamento.
Limites fiscais e necessidade de ajustes
O atual quadro reacende discussões sobre a relação entre União e estados, além da necessidade de aprimorar regras fiscais.
O debate envolve também programas federais de renegociação de dívidas, como o Propag, que, segundo especialistas, podem ampliar pressões sobre despesas correntes.
O cenário também é influenciado por fatores externos, como a desaceleração econômica e impactos internacionais, que podem afetar receitas estaduais, especialmente aquelas ligadas a commodities e royalties.
A expectativa é que os estados mantenham níveis elevados de investimento em 2026, mas com maior atenção ao equilíbrio das contas públicas diante da redução do caixa disponível.

