Após a saída de Ibaneis Rocha (MDB) do comando do Distrito Federal no final de março, para concorrer a uma vaga no Senado, a sucessão começa a se reorganizar sob o impacto da crise envolvendo o BRB e o Banco Master.
Quem assume o cargo é a vice-governadora da chapa de Ibaneis, Celina Leão (PP), que passou a adotar um tom mais crítico em relação à gestão antiga e ensaia um reposicionamento político com vistas a 2026.
No entanto, ela cria uma narrativa de distinção sem promover um rompimento formal, de maneira gradual. Seu objetivo é preservar seu capital político e evitar que o desgaste decorrente das investigações atinja integralmente sua eventual candidatura ao governo.
A estratégia passa por delimitar responsabilidades, enfatizar falhas pontuais da administração anterior e apresentar sua gestão como uma inflexão administrativa.
O caso do Banco de Brasília (BRB) tornou-se o principal vetor dessa mudança, visto que expôs questionamentos sobre a condução estratégica da instituição. Assim, integrantes do atual governo passaram a adotar um discurso mais crítico em relação às decisões tomadas
E esse movimento não se restringe à governadora: secretários e auxiliares têm, nos bastidores e em declarações públicas mais cautelosas, reforçado a ideia de necessidade de revisão de prioridades e de reorientação da gestão. A crítica recorrente é a de que determinadas iniciativas teriam se afastado do interesse público imediato, gerando exposição desnecessária para o governo.
Ao mesmo tempo, o avanço das investigações do BRB e Master ampliam a pressão política sobre o grupo que comandou o DF nos últimos anos. A leitura predominante entre atores locais é que a crise deixou de ser um problema restrito à esfera administrativa e passou a ter efeitos diretos sobre a disputa eleitoral.
Reposicionamento deve ser progressivo
Nesse contexto, o reposicionamento de Celina Leão segue uma lógica conhecida na política brasileira: a do sucessor que precisa, ao mesmo tempo, preservar a base de sustentação e se descolar de eventuais passivos do antecessor. Esse equilíbrio delicado tende a ser progressivo.
Não há sinais de ruptura abrupta, mas sim de um distanciamento calibrado, que deve se intensificar conforme evoluam os desdobramentos do caso BRB/Master e seu impacto na opinião pública.
Para as urnas, o efeito é praticamente imediato: a sucessão no Distrito Federal deixa de ser uma simples continuidade administrativa e passa a se configurar como uma disputa marcada por reavaliação de legado. Ou seja, a governadora busca não somente substituir Ibaneis, mas tentar reorganizar o governo a partir de uma nova agenda, lançando chapa eleitoral.
O êxito dessa estratégia, contudo, dependerá de dois fatores. De um lado, a capacidade de o governo conter o avanço do desgaste institucional. De outro, a habilidade política de sustentar a distinção sem romper com a base que ainda garante governabilidade.
Trata-se, em última instância, de administrar o custo político de uma transição que deixou de ser apenas administrativa e se tornou, claramente, eleitoral.

