A decisão de empreendedores brasileiros de criar empresas diretamente nos Estados Unidos tem provocado mudanças no mercado de inovação e colocado fundos de venture capital no Brasil diante de um cenário mais competitivo. O movimento envolve fundadores que optam por iniciar operações já conectadas ao ecossistema internacional, em especial na região do Vale do Silício, onde há maior oferta de capital e acesso a redes globais.
Esse cenário ficou evidente em discussões recentes sobre o futuro da inovação brasileira. Durante um evento na Califórnia, o apresentador Luciano Huck chamou a atenção para o tema ao se dirigir a jovens brasileiros no exterior com um pedido direto: “Come back” ou “Voltem para casa”. A fala foi recebida com aplausos por estudantes e empreendedores presentes.
Segundo a Bloomberg Línea, o episódio ocorreu durante o Brasil at Silicon Valley, encontro organizado por brasileiros ligados a universidades como Stanford e Berkeley. O evento reuniu parte da nova geração que hoje considera desenvolver projetos fora do país, indicando uma mudança no ponto de partida das startups.
Mudança no ponto de partida das startups
Durante anos, empreendedores brasileiros priorizaram criar soluções voltadas ao mercado interno, expandindo posteriormente para outros países. Esse padrão começa a mudar com o aumento de empresas que já nascem com estrutura internacional.
Investidores apontam que esse deslocamento ganhou intensidade recente, principalmente entre fundadores com experiência anterior. Renato Valente, cofundador da Iporanga Ventures, afirma que o fenômeno se acelerou. “Percebemos isso e não é de agora, mas esse movimento ganhou um novo ritmo nos uItimos seis meses, com muitos empreendedores falando que estão se mudando para o Vale e que irão construir o seu próximo negócio nos Estados Unidos”.
A tendência também atinge outros países da América Latina, mas tem impacto direto no Brasil, que nos últimos anos foi origem de empresas de alto valor como Nubank, QuintoAndar e C6 Bank.
Perda de influência dos investidores locais
A migração de startups altera a dinâmica de investimento e reduz o espaço de atuação dos fundos brasileiros. Ao competir com gestoras internacionais, esses investidores enfrentam estruturas com maior volume de recursos e maior influência global.
Ricardo Duarte, cofundador da Beacon Founders, define esse processo como uma “diluição do poder local”. Isso ocorre porque a relevância dos fundos brasileiros diminui quando as empresas estão inseridas no ecossistema do Vale do Silício, onde há uma hierarquia consolidada entre investidores.
Nesse ambiente, aportes feitos por fundos americanos considerados de primeira linha tendem a facilitar novas rodadas de captação. Já os investidores brasileiros precisam ampliar sua atuação para manter participação relevante nas startups.
“É uma mudança gigante no modelo de negócio dos fundos”, afirma Duarte. “Precisamos ver como o mercado irá se comportar neste novo cenário, que ainda não está estabelecido”.
Reação dos fundos brasileiros
Sendo assim, parte das gestoras começou a adaptar suas estratégias. Algumas buscam ampliar presença internacional para acompanhar de perto o movimento dos empreendedores.
Um dos exemplos é a Monashees, que abriu escritório em São Francisco com o objetivo de se aproximar do principal polo de inovação das Américas e acessar novas oportunidades, especialmente em áreas como inteligência artificial.
Outros fundos mantêm foco no mercado doméstico. Daniel Chalfon, sócio da Astella Investimentos, afirma que ainda há espaço para investimentos voltados a problemas locais.
“Hoje, uns 70% do que fazemos no momento são investimentos em soluções que vão resolver grandes problemas no Brasil, provavelmente com baixa chance de internacionalização”, afirma.
Ele também aponta uma segunda frente de investimentos em empresas com potencial de expansão internacional, como BotCity e Birdie.ai. “Talvez o Brasil possa ser um bom proxy para construir um produto, já que encontra uma diversidade grande e depois pode-se escalar”.
Desafios para competir no cenário global
O avanço de startups brasileiras no exterior levanta dúvidas sobre a capacidade de fundos nacionais competirem diretamente com grandes gestoras internacionais. A disputa envolve não apenas capital, mas também acesso a redes e reputação no mercado.
Um exemplo citado por investidores é o da brasileira Luana Lara, cofundadora da Kalshi, que desenvolveu uma empresa avaliada em bilhões de dólares sem recorrer a fundos do Brasil.
Chalfon afirma que sua gestora acompanha o movimento, mas não pretende estruturar operações permanentes nos Estados Unidos neste momento. “Do nosso lado, estamos atentos, observando e pesquisando, mas não iremos abrir uma Astella aqui nos Estados Unidos, não estamos procurando um sócio aqui, nada disso. Podemos fazer um investimento de tempo e orçamento para estar mais presentes e capturar conhecimento”, diz. “Essa é uma tese ainda não provada, mas acho que é o nosso papel tomar esse risco”.

