Empreender no Brasil ainda é um grande desafio, principalmente quando o problema é causado por altos custos e exigências estruturais do país. O Estado não é o mais caro da América Latina, mas possui diferenciais importantes, como a qualidade e diversidade da força de trabalho e um mercado consumidor ativo.
De acordo com Zora Viana, psicóloga, neuropsicóloga, especialista em empreendedorismo e CEO da Faculdade FEX Educação, o Brasil é caro para empreender, principalmente por fatores como carga tributária, burocracia e o custo operacional. Segundo a especialista, embora não seja impossível abrir um negócio no país, isso exige um planejamento mais rigoroso.
Ela destaca que o empreendedor precisa ser resiliente e estratégico desde o início, já que falhas podem gerar prejuízos elevados. Ainda assim, afirma que “é um mercado enorme e cheio de oportunidades”, comenta a CEO da Faculdade FEX Educação.
“Em comparação com países vizinhos, o Brasil costuma ser mais caro e burocrático”, principalmente quando comparado com o Chile. Já a Argentina pode apresentar custos menores em alguns aspectos, “mas a instabilidade econômica gera insegurança”, analisa Viana.
Os custos iniciais para abrir um negócio incluem abertura da empresa, taxas, contador, estrutura física, capital de giro, estoque inicial e investimento em marketing. Além disso, há despesas com licenças e adequações legais, que variam conforme o tipo de negócio.
Segundo a entrevistada, em grandes centros como São Paulo e Rio de Janeiro, o aluguel comercial é alto. Além disso, a mão de obra possui encargos trabalhistas altos, o que impacta diretamente a folha de pagamento.
Crescimento empresarial na ponta do lápis
Sobre o crescimento empresarial, não há um prazo exato para que um negócio alcance o médio porte. De acordo com Zora Viana, esse processo depende do setor, da gestão e da capacidade de expansão, além de exigir estabilidade ao longo do tempo diante das oscilações econômicas.
“Não existe uma regra fixa, mas, em média, leva de 5 a 10 anos para estruturar um negócio e alcançar médio porte com consistência. Isso depende muito do setor, da gestão e da capacidade de escalar. O grande desafio no Brasil não é só crescer, é se manter estável durante esse crescimento, principalmente por conta das oscilações econômicas”, diz a especialista.
O acesso a crédito também aparece como um obstáculo relevante para empreendedores. Segundo a especialista, conseguir financiamento no Brasil ainda é difícil, com exigências rigorosas por parte das instituições financeiras e investidores.
Entre as exigências mais comuns estão garantias, histórico financeiro sólido, fluxo de caixa consistente e baixo risco de inadimplência. Além disso, investidores também são seletivos e tendem a priorizar negócios escaláveis, com potencial de crescimento e modelos bem estruturados.
Empreendedorismo sob fogo
Atualmente o mundo vive alguns conflitos, sendo a mais atual a guerra no Oriente Médio, numa ofensiva causada por Israel e Estados Unidos contra o Irã. De acordo com Zora esses eventos influenciam áreas como energia, combustíveis e logística, estratégicas para negócios, e faz os custos operacionais ficarem ainda mais caros.
“Sim, conflitos internacionais impactam diretamente custos, principalmente energia, combustíveis e logística. Isso afeta o preço de insumos e o transporte, pressionando o custo final dos negócios, inclusive no Brasil. Para quem empreende fora, o impacto pode ser ainda mais direto dependendo da cadeia de suprimentos”, analisa Viana.
A especialista recomenda estratégias como diversificar fornecedores, reduzir a dependência externa e adotar um planejamento financeiro mais conservador. Segundo ela, empresas com gestão eficiente e margem de segurança tendem a enfrentar melhor períodos de instabilidade global.
Classe C domina o empreendedorismo
Como divulgado pelo O Brasilianista, quase metade dos empreendedores brasileiros pertence à classe C, uma grande mudança no perfil do empreendedorismo no país e sua expansão para diferentes classes sociais da população. O movimento mostra percepção de que abrir um negócio deixou de ser apenas uma alternativa de sobrevivência e passou a representar um projeto de vida e ascensão social, em meio à menor atratividade do emprego formal.
Um levantamento do Instituto Locomotiva em parceria com o Sebrae mostrou que a classe C concentra quase 50% dos empreendedores. Entre esse grupo, 46% veem o empreendedorismo como principal caminho de mobilidade social, enquanto outros apontam fé, família ou o próprio emprego formal como alternativas, em proporções menores.
A decisão de empreender é impulsionada principalmente pela busca por autonomia, melhores condições de renda e insatisfação com o mercado de trabalho tradicional, marcado por jornadas longas e baixa atratividade. Também pesa a percepção de que o negócio próprio pode gerar maior retorno financeiro.
O cenário também influencia, principalmente pelo descompasso entre escolaridade e renda, segundo o estudo. Embora o nível educacional tenha aumentado nas últimas décadas, a renda média não acompanhou esse crescimento, ou seja, busca por alternativas de geração de renda.

