A Rede D’Or, um dos maiores grupos do setor de Saúde brasileiro, tem apoiado a candidatura de Jorge Messias, advogado-geral da União (AGU) do governo Lula, à vaga deixada por Luís Roberto Barroso no Supremo Tribunal Federal.
Fontes com profundo conhecimento da candidatura de Messias afirmaram a O Brasilianista que a Rede D’Or ajudou a campanha de Jorge Messias a mapear os votos favoráveis e contrários no Senado. O grupo também tentou convencer senadores indecisos e contrários à indicação do AGU de Lula para o STF.
Os movimentos, como agora se sabe, não obtiveram o resultado esperado. A indicação de Messias ao STF foi rejeitada pelo Senado em 29 de abril, por 42 votos contrários e 34 a favor. O resultado foi bastante influenciado por Davi Alcolumbre, presidente da Casa, que fez campanha aberta pela rejeição de Jorge Messias.
Alcolumbre preferiu o enfrentamento por ter se sentindo preterido pelo governo Lula, que divulgou a indicação de Messias antes de consultá-lo, e porque pediu, sem sucesso, ao petista blindagem contra as investigações da Polícia Federal no Caso Master.
O interesse da Rede D’Or

A presença da Rede D’Or em Brasília está calcificada, inclusive no Judiciário. Não são poucos os eventos e os convecostes reservados promovidos ou patrocinados pelo grupo do setor de saúde. Muitos desses encontros temáticos servem para discutir o impacto da litigância nas contas dos planos de saúde.
As empresas do setor creditam ao Judiciário parte dos problemas financeiros que alegam ter. Dizem que decisões judiciais obrigando o custeio de determinados remédios e tratamentos, principalmente os relacionados a transtornos do espectro autista, afetam o equílibrio financeiro.
Porém, os números da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) mostram um cenário diferente, com o lucro líquido registrado pelo setor em 2025 totalizando R$ 24,4 bilhões, o que representa aumento de 120% na comparação com 2024. Parte dessa variação vertiginosa é creditada aos reajustes praticados por essas companhias.
O interesse da Rede D’Or nesses eventos, assim como o de outras empresas do setor que fazem lobby em Brasília, é ter um momento adequado para conversar com ministros e desembargadores que analisam essas causas, para tentar mostrar a eles o tamanho do suposto problema.
O problema desse modelo de aproximação é que a empresa, com sua pujança econômica, consegue mais acesso às autoridades.
Lula vai indicar novamente?

O presidente Lula já afirmou a aliados que indicará novamente Messias ao STF, principalmente após o Caso Master emparedar Ciro Nogueira e assustar Davi Alcolumbre. Quando o Senado recusou a indicação do nome do AGU, sobraram comentários sobre a influência da investigação sobre o Banco Master na votação.
Um dos fatores que corrobora essa análise feita nos corredores do Congresso é o padrinho da candidatura de Messias no STF: André Mendonça, relator do Caso Master e da CPI do INSS, duas investigações com muito poder para encurralar o Congresso.
O apadrinhamento de Messias por Mendonça é justificado por duas razões. Uma delas é que o AGU e o ministro do STF são irmãos de fé, pois ambos são evangélicos. A segunda é a gratidão que André Mendonça tem junto a Ricardo Lewandowski, que o apadrinhou quando ele era o candidato ao Supremo.
Ricardo Lewandowski é uma das referências no Judiciário para a esquerda, pois, ao contrário de outros ministros indicados ao STF pelo PT, ele sempre garantiu o direito de defesa do partido e não condenou Lula previamente durante a Lava Jato.
Caso Lula indique novamente Jorge Messias, o petista premiará mais uma vez a lealdade com a escolha, assim como foi com Cristiano Zanin e de Flávio Dino. Messias é ligado ao PT há anos, tendo trabalhado em gabinetes de diversos petistas.
O cargo mais alto ocupado por Messias antes chegar à Advocacia-Geral da União foi assessorar juridicamente a então presidente Dilma Rousseff. Ele, inclusive, foi o incumbido de levar o termo de posse para Lula assumir a chefia da Casa Civil naquele governo.
A posse de Lula não foi concluída porque o então juiz federal e hoje senador Sergio Moro divulgou o áudio em que Dilma fala sobre o envio do documento por meio de “Bessias” e porque Gilmar Mendes, do STF, proferiu decisão impedindo o ato de ser concretizado.
Uma nova indicação de Messias enfrentaria resistências similares à primeira tentativa, e Lula sabe disso desde que decidiu, ainda em 2025, indicar seu AGU para o Supremo. Fontes próximas ao presidente afirmaram que ele sempre soube que a recusa de Messias pelo Senado era mais do que crível.
Mesmo assim, o petista manteve sua indicação até a recusa. Mas o motivo aqui não foi apenas a lealdade de Messias, pois envolveu a necessidade de Lula de se aproximar dos evangélicos, grupo mais ligado ao bolsonarismo. O petista não poderia perder o pouco apoio que ainda tem nessa parcela do eleitorado.
Atitude similar foi adotada por Lula com Dilma Rousseff no impeachment. O petista não podia abandonar sua protegida política ao mesmo tempo em que lhe faltava força política para reverter o processo arquitetado conjuntamente por Eduardo Cunha, então presidente da Câmara, e seu principal aliado, Michel Temer, vice-presidente que assumiu o posto de Dilma após o afastamento da então presidente.
A saída costurada por Lula, graças a Renan Calheiros, foi afastar Dilma e manter os direitos políticos da presidente afastada por pedaladas fiscais, prática comum a todas as gestões do Executivo Federal desde a redemocratização.
O Brasilianista questionou Jorge Messias e a Rede D’Or sobre as informações veiculadas. A assessoria de imprensa de Messias afirmou que ele está em período de silêncio. O grupo de saúde não se manifestou até a publicação.
O Brasilianista permanece aberto para receber manifestações, posicionamentos ou esclarecimentos de todas os citados nesta reportagem. Caso queiram se pronunciar sobre o tema, os canais da redação estão à disposição.

