Em setembro de 1986, Ronald Reagan e a então primeira-dama dos Estados Unidos, Nancy, falaram àquela nação sobre os problemas das drogas e como os jovens norte-americanos deveriam dizer não a essas substâncias. O pronunciamento de Reagan foi um exposição pública de uma guerra que ele havia começado quase quatro anos antes, em outubro de 1982.
A política de Ronald Reagan, somada às ditaduras em decadência na América Latina, mostraram como a região que quase não fala inglês havia se tornado o quintal dos EUA. O exemplo mais famoso da guerra às drogas dos estadunidenses foi a Colômbia dos Cartéis de Cali e Medelín.
A vitória dos EUA na Colômbia limitou-se a prender o triunvirato que comandava Cali e a matar Pablo Escolar em Medelín. Mas o tráfico de drogas não acabou. Pelo contrário, continuou funcionando e manteve os Estados Unidos da América como principal destino da maconha e da cocaína produzidas na América Latina.
Tanto é que Donald Trump, 40 anos após o anúncio de Reagan, retoma o combate ao tráfico de drogas como uma bandeira de um governo do Partido Republicano. A diferença entre as quatro décadas que separam os dois presidentes é o país usado como bandeira eleitoreira. Antes foi a Colômbia. Agora é a Venezuela.
No último sábado, Trump se autopromoveu nas redes sociais ao anunciar que as Forças Armadas dos EUA mataram Niño Guerrero. Batizado como Héctor Rusthenford Guerrero Flores, o traficante liderou o Tren de Aragua, um dos principais grupos criminosos da América Latina.
Criada na metade da década de 2010, o Tren de Aragua começou suas atividades no Centro Penitenciário de Aragua, conhecido como a Prisão de Tocorón, e foi classificado como organização terrorista em janeiro de 2025, primeiro mês do segundo mandato presidencial de Trump.
O Tren de Aragua não atua somente na Venezuela. Já há registros de que a facção criminosa opera no Brasil, em Roraima, estado que recebeu muitos venezuelanos que fugiram da ditadura de Nicolás Maduro, preso pelos EUA em abril deste ano, numa operação militar que praticamente não sofreu resistência.
Um dos motivos dessa falta de resistência, segundo fontes a par do assunto, foi a colaboração das elites políticas e econômicas da Venezuela, que começaram a sentir uma fração ínfima do sofrimento vivido pelo povo venezuelano há décadas. Após o sequestro de Maduro, Trump, inclusive, passou a considerar o governo local como colaborador, não mais o inimigo que inflamou muitos de seus discursos.
Essa atuação de grupos criminosos venezuelanos no Brasil — somada à fala de um funcionário do Pentágono, de que a morte de Niño Guerrero “envia uma mensagem clara à América Latina” — faz com que especialistas em segurança ou relações internacionais incluam em seus cálculos analíticos a possibilidade de uma operação similar no Brasil, pois o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) são considerados organizações terroristas pelos EUA desde o começo deste mês.
É aí que Trump aparece como farsa, pois uniu a Guerra às Drogas de Reagan com a Guerra ao Terror iniciada por George W. Bush após os ataques às Torres Gêmeas, em 11 de setembro de 2001. As motivações dos dois conflitos, apesar de calcadas na segurança dos EUA, foi populista, pois não trouxeram resultados reais — já que o mundo, muito menos os EUA, ficou mais seguro depois delas.
Ao unir esses dois conceitos, Trump mira as eleições de novembro deste ano, que renovarão o Congresso americano e poderão deixá-lo na mão da pressão dos Democratas. Ao contrário de Reagan, que teve uma política econômica considera bem-sucedida a ponto de ganhar termo próprio (Reaganomics), o atual presidente Republicano dos EUA patina quando o assunto é economia.
Reagan emplacou seu vice, George Bush (pai do ex-presidente que iniciou a Guerra ao Terror), como sucessor porque convenceu os norte-americanos que os EUA continuariam fortes como potência global. Ronald Reagan herdou uma recessão, com inflação que chegou a 13,5% e desemprego de quase 11%, mas passou o bastão com uma média anual inflacionária de 4,68% e taxa de desempregados de 5,5% da população devido aos 20 milhões de novos postos de trabalho criados durante os oito anos em que liderou os EUA.
Mas essa melhora econômica cobrou um preço. Reagan pegou os EUA com déficit de US$ 997 bilhões na dívida nacional e entregou o governo com uma conta de US$ 2,6 trilhões a ser paga pelas gerações futuras. Esse peso, mesmo após décadas, foi herdado por Trump, pois os Estados Unidos nunca resolveram o problema e vivem paralisações constantes do funcionalismo público a cada renegociação entre Republicanos e Democratas.
Mas não é só por isso que a política econômica de Trump deixa a desejar. As tarifas distribuídas globalmente pelo Republicano inflacionaram os preços dos EUA, que graças às próprias políticas passou a depender cada vez mais das exportações.
O Produto Interno Bruto dos EUA registrou alta de 1,6% no 1º trimestre deste ano, ficando 0,5% acima do valor do 4º trimestre de 2025, mas 2% abaixo da estimativa para o período. Já a inflação, de 4,2% em maio, foi o maior patamar registrado desde 2023, terceiro ano da gestão do Democrata Joe Biden.
Esse efeito inflacionário é influenciado em boa parte pela Guerra do Irã, que fechou o Estreito de Ormuz em represália aos ataques dos EUA e de Israel ao país e que mataram o aiatolá Ali Khamenei. O bloqueio pelo país asiático pressionou os preços do petróleo em todo o mundo. Nos EUA, um país que vive a base de diesel e gasolina, o efeito foi preocupante e levará algum tempo para amainar.
Coincidentemente, Ronald Reagan também sofreu com os preços do petróleo e com o Irã. Foi durante o governo de Reagan que eclodiu a Guerra Irã-Iraque (1980–1988), quando os EUA apoiaram o ditador iraquiano Saddam Hussein contra os iranianos. Mas nem mesmo essa rivalidade, motivada pela Revolução Islâmica de 1979, impediu o Republicano de comprar armas do país asiático em segredo para ajudar a ditadura que dominava a Nicarágua nos anos 1980 a combater os “Contras” comunistas.

