A SpaceX realizou sua oferta pública inicial (IPO, em inglês) na semana passada, que representou o IPO mais valioso da história ao capitalizar US$ 75 bilhões para suas primeiras ações. Isso atribuiu à companhia uma avaliação de mercado de US$ 1,76 trilhão.
A empresa fundada por Elon Musk chega ao mercado acionário como uma das mais valiosas do mundo e se junta a outra companhia essencial do portfólio de Musk: a Tesla. Analistas de mercado estudam a possibilidade de uma fusão entre a empresa aeroespacial e a de tecnologia automotiva poderia agregar ainda mais valor ao primeiro trilionário do mundo.
Reportagem da Fortune desenha que uma possível terceira companhia resultante da fusão teria uma avaliação de US$ 3,4 trilhões, o que a a tornaria quase três vezes maior que a maior fusão já realizada.
Gabriel Pinheiro, especialista em investimentos e sócio da GT Capital, explica, no entanto, que a maioria das fusões destroem o valor da empresa.
“Tem estudo da McKinsey mostrando que algo entre 70 e 80% das fusões não entregam o que prometeram. Isso não é exceção, é a regra. Fusões gigantescas e pontuais quase sempre frustram os resultados finais. O problema não é a fusão em si. É a motivação. Porque entusiasmo de CEO em M&A quase sempre significa que ele está resolvendo um problema dele, não dos acionistas”, revela Pinheiro.
Para ele, o caso SpaceX com Tesla é o exemplo mais explícito. A avaliação trilionária de uma companhia conjunta é um número que intimida qualquer questionamento. E provavelmente é esse o ponto.
“Porque quando você olha por baixo do número, a Tesla teve lucro operacional real de US$ 2,3 bilhões no último período e isso já descontando crédito regulatório e ganho com Bitcoin que não se repetem. Uma empresa de US$ 1,65 trilhão de valuation com US$ 2,3 bilhões de resultado operacional limpo. A conta não fecha. E Musk sabe que não fecha. Por isso precisa da SpaceX para cobrir o ruído”, afirma.
Segundo o especialista, uma fusão vale a pena quando o resultado é maior que a soma das partes.
O que significa para os acionistas uma fusão entre SpaceX e Tesla?
“O acionista da SpaceX, que comprou uma empresa de crescimento puro, com narrativa de corrida espacial, Starlink escalando, receita recorrente começando a aparecer, acorda um dia e descobre que agora é sócio de uma montadora de carro elétrico que perdeu participação de mercado, que tem o CEO mais distraído do planeta e que precisa de crédito regulatório para fazer o resultado parecer razoável. Isso é diluição financeira e diluição de tese ao mesmo tempo”, comenta Pinheiro.
Em geral, fusões representam que os acionistas se tornam sócios de ambas as empresas, com eventual migração para um ativo único.
No caso das empresas de Musk, a SpaceX precisaria emitir novas ações equivalentes a quase 100% da base atual para bancar essa operação, ou seja, dobrar o número de papéis em circulação. Para o analista de investimentos, esse cenário é altamente arriscado.
Fusões importantes para o mercado brasileiro
Por aqui, o mercado já registrou casos importantes de fusões que mudaram a economia brasileira e posicionaram os acionistas estrategicamente. O especialista destaca dois positivos para o Brasil: Ambev e Itaú Unibanco.
Em 1999, Brahma e Antarctica se uniram para formar a Ambev. Para Pinheiro, funcionou porque havia lógica industrial concreta com distribuição, escala de compra, capilaridade. “Não foram burocratas de banco de investimento que fizeram funcionar, foi operação. Hoje é a maior cervejaria do mundo”, diz.
Já em 2008, Itaú e Unibanco anunciaram fusão “no pior timing possível”, mas conseguiram entregar a união das instituições financeiras em meio a uma falência. “Foram metódicos. Os acionistas dos dois lados saíram bem e o sistema bancário brasileiro ganhou um player com musculatura internacional de verdade”, avalia o sócio da GT Capital.
Ainda assim, outras fusões foram relevantes para evidenciar os pontos negativos de uma união de empresas, como o caso da Oi.
“O caso incomoda, não pelo tamanho do estrago, mas pela velocidade. Uma aquisição em cima da outra, dívida em cima de dívida, e nas reuniões o discurso era sempre de crescimento. A empresa estava afundando e terminou na maior recuperação judicial da história do país”, explica o especialista.

