As investigações da Polícia Federal (PF) sobre um suposto desvio das cotas parlamentares dos deputados federais Sóstenes Cavalcanti e Carlos Jordy, ambos do PL, agora tem um novo personagem: o advogado Thiago Ferreira de Paula. A relação entre ele e Sóstenes é ligada à apreensão de quase R$ 470 mil em espécie no guarda-roupa do parlamentar, em seu endereço no Complexo Brasil 21, em Brasília/DF, em dezembro de 2025.
Para justificar a origem da quantia em dinheiro vivo, o deputado e sua esposa, Isleia Gomes da Silva Cavalcante, apresentaram uma escritura pública de compra e venda de um imóvel em Ituiutaba (MG). O comprador, segundo Sóstenes e sua mulher, foi Thiago de Paula, que teria pago R$ 500 mil em espécie.
Porém, a investigação da PF apontou que o documento foi lavrado somente após a ação de busca e apreensão na casa de Sóstenes, no fim do ano passado, e que o advogado não registrou saques contemporâneos compatíveis com a transação.
O Relatório de Inteligência Financeira (RIF) produzido pelo Coaf revelou que Thiago movimentou quase 18 sua renda cadastrada nos registros fiscais, recebendo valores sem lastro de terceiros. Esse contexto convenceu o ministro Flávio Dino, relator do caso no Supremo Tribunal Federal, a autorizar a quebra dos sigilos bancário e fiscal dos citados, além de liberar pedido da PF para busca e apreensão na casa de Thiago de Paula.
O fluxo financeiro do advogado revelou conexões inconsistentes, segundo a PF, com empresas e pessoas. Ele recebeu uma transferência de R$ 509 mil de Rodrigo Gonçalves Freitas e depósitos que somaram R$ 300.000,00 de William André de Oliveira Filho. Ambos, disse a PF, vivem num padrão de vida muito abaixo dos valores movimentados.
Além disso, Priscila Araujo de Paula, parceira de Thiago, repassou R$ 90 mil a ele. O valor considerado também é considerado pela PF como fora dos padrões, principalmente porque Priscila tem histórico como beneficiária de programas sociais.
O RIF do Coaf também expôs vínculos de Thiago com o Frigorifico Confiança Eireli, que transferiu R$ 400 mil para suas contas, além de depósitos de R$ 162.450,00 realizados por Rodrigo Alves Rodrigues, funcionário da referida empresa.
Outra movimentação suspeita, segundo a PF, envolveu Cilas Miranda dos Santos e Fernando Fernandes Miranda, vinculados à Real Distribuidora de Carnes Ltda (Em Recuperação Judicial), que realizaram provisionamentos e saques sequenciais que totalizaram R$ 520 mil em contas atreladas ao advogado.
Como tudo começou?
As investigações da PF colocam Sóstenes Cavalcante e Carlos Jordy como líderes de um esquema para desviar recursos públicos por meio da Harue Locação de Veículos Ltda ME. A empresa de locação de automóveis, mantida formalmente em nome de Luiza Harue Sato Oliveira (apontada como sócia apenas formal), era administrada de fato por Itamar de Souza Santana, servidor comissionado e operador real do esquema.
Outro servidor, Adailton Oliveira dos Santos, também atuava no desvio de verbas e no gerenciamento dos veículos, chegando a intermediar o uso de um Corolla Cross blindado pertencente à Amazon Serviços e Construções Ltda para Jenifer Fani Cavalcante, filha do deputado Sóstenes, com custeio supostamente dissimulado por verba parlamentar.
Nesse primeiro momento da investigação, foram quebrados os sigilos de Daniel Alex Fortunato, Valmir de Azevedo Oliveira, Acivânio de Souza Santana, Florenice de Souza Santana, Andrea de Figueiredo Desiderati e Rosileide de Souza Santana Rocha.
A PF identificou ainda uma série de remetentes e destinatários recorrentes dessas contas, ordenando a ampliação das investigações sobre Lizoel Nilson Lopes Bezerra, Georgenor Cavalcante Pinto, Maria Aparecida Brito da Silva, Valdir Cesar Torres, Alex Diogo Santos da Silva, Desair Chaves Soares, João Batista da Silva Campelo, Carlos André do Carmo Rocha e Antônio Alves de Oliveira.
O rastreamento das notas apreendidas no guarda-roupa de Sóstenes trouxe novos elementos. Parte dos maços de dinheiro continha etiquetas bancárias do Sicredi e marcações do Banco do Brasil que indicavam saques recentes de contas de duas construtoras. A EJUS Empreendimentos Imobiliários Ltda sacou R$ 2,6 milhões em espécie e a Foco Engenharia e Incorporações Ltda retirou R$ 2,2 milhões também em dinheiro.
As duas empresas funcionam no mesmo endereço e pertencem à holding J. Umbelino Participações Ltda, controlada por Jonas Keslley Gonçalves Umbelino e gerida por seu irmão, Jecy Kenne Gonçalves Umbelino. O grupo, que movimentou saques milionários sem justificativa clara, também foi alvo de busca e apreensão desta quarta-feira (1) e da quebra de sigilo autorizadas por Flávio Dino.
Os parlamentares negam haver irregularidades nos negócios desde o início da investigação.
O Brasilianista permanece aberto para receber manifestações, posicionamentos ou esclarecimentos de todos os citados nesta reportagem. Caso queiram se pronunciar sobre o tema, os canais da redação estão à disposição.

