A comunidade evangélica brasileira ganhou peso nas eleições, mostrando ser um segmento que possui pautas e interesses próprios no Congresso Nacional. O número de pessoas que professa essa fé triplicou nos últimos 30 anos, totalizando pouco mais de 47 milhões, segundo o Censo feito pelo IBGE em 2022.
Quem mais se aproximou politicamente desse grupo foi o Bolsonarismo devido às promessas de um país focado em Deus, Pátria e Família.
Nas últimas semanas, Flávio Bolsonaro e sua madrasta, Michelle, protagonizaram um dos maiores conflitos públicos da família faltando menos de 100 dias para o início da campanha presidencial. A ex-primeira-dama acusou o senador de tratá-la mal e de tentar excluí-la das discussões políticas do clã liderado por Jair Bolsonaro.
O que surpreendeu, no entanto, foi a reação de Silas Malafaia, um dos principais líderes evangélicos do Brasil devido à Assembleia de Deus Vitória em Cristo (ADVEC). Mesmo sem nunca ter escondido sua relação próxima com Jair Bolsonaro, Malafaia afirmou que pode abandonar o apoio a Flávio caso apareça algo que desabone moralmente o pré-candidato à Presidência.
“Eu espero que não haja nada que venha contra a moral de Flávio, porque, se tiver, eu caio fora. Ele tem meu apoio, orei por ele, obedecia à lei eleitoral na minha igreja. Já levei vários na minha igreja que pedem oração. Uma época, Lindbergh Farias (PT-RJ) era candidato ao Senado. Eu disse que ele poderia ir lá, que eu vou orar. É o meu papel. Estou falando de coisa provada”.
Em outro trecho, Silas voltou a afirmar que apoia Flávio, desde que não haja comprovação de corrupção. O pastor também disse que não é possível passar pano para corruptos, independentemente do espectro político.
Assista ao vídeo abaixo:
Caminho a seguir
O pastor Eguinaldo Ferreira, ex-dirigente da Igreja Batista Maanaim, no Rio de Janeiro, e atualmente membro de uma Assembleia de Deus, avalia que Silas está correto nessa posição.
“O cristão não pode relativizar a corrupção porque o político é do lado de que ele gosta. Se houver prova e responsabilidade, o mesmo padrão precisa valer para qualquer pessoa. Nosso compromisso é com a verdade e com a justiça, não com a idolatria política”, disse o pastor.
Sobre a possibilidade de apoiar o bolsonarismo sem necessariamente apoiar os filhos de Bolsonaro, Ferreira entende que isso é possível e que o movimento representa ideias defendidas por muitos cristãos.
“Uma coisa é concordar com ideias, pautas e princípios que um movimento representa. Outra é achar que toda pessoa ligada a esse movimento está acima de críticas. Nenhum político, nem filho de político, deve receber apoio automático”.
Na avaliação de Ariovaldo Ramos, da Frente Evangélicos pelo Estado de Direito, a fala de Malafaia deve ser colocada em contexto, pois o líder da ADVEC nunca foi unanimidade entre os evangélicos.
Diversidade de ideias
A visão defendida por um pastor de determinado segmento, como é o caso do neopentecostalismo representado por Silas Malafaia, não determina necessariamente o posicionamento político dos fiéis.
O meio evangélico é diverso e não há consenso. O que une diferentes segmentos são valores considerados inegociáveis. Essa também é a avaliação de Lucas Munford, líder de jovens e seminarista da Igreja Batista Maanaim.
“Hoje a igreja protestante brasileira é subdividida em muitas partes. Temos igrejas pentecostais, clássicas e reformadas. Cada uma representa um elo diferente. A igreja mais conhecida no meio pentecostal é a de Silas, mas existem outras convenções dentro da divisão protestante. Silas Malafaia fala para um determinado público, que já é bem estabelecido além da igreja dele, mas também dialoga com uma direita brasileira que, nos últimos anos, se uniu principalmente por meio de movimentos dentro das igrejas. Esse subgrupo é mais unido. Normalmente, essa aproximação não é vista em igrejas batistas. Silas tem essa visão mais aceita nesses segmentos pentecostais.”
O apoio a Jair Bolsonaro nas igrejas
Na avaliação de Lucas, o poder de influência de Jair Bolsonaro foi enfraquecido. As declarações contra a vacinação durante a pandemia e outras atitudes passaram a encontrar maior resistência em parte do segmento evangélico.
Ele também avalia que, com a prisão de Bolsonaro, esse apoio ficou ainda mais fragilizado e que a direita atravessa um momento de enfraquecimento.
“Hoje temos uma direita fragilizada que não consegue apoiar Flávio como apoiava Bolsonaro, porque ele está numa categoria de políticos que foram investigados por algum tipo de crime. Ainda existe esse debate sobre se deve apoiá-lo ou não. Embora sejamos maioria no Brasil, há muita resistência em relação à figura de Flávio, principalmente por conta das investigações que o envolvem. Ele também não tem a capacidade de fazer o que Bolsonaro fez”, disse.
Já Ariovaldo entende que o segmento evangélico que sustenta o bolsonarismo encontra-se dividido e à beira de uma crise.“Tudo vai depender de quanto Flávio conseguirá conter os escândalos que o cercam e, ao mesmo tempo, manter vivo o discurso antipetista e antilulista”, afirmou.
Rachadura entre a madrasta e o enteado
Como cristão, é dever perdoar o próximo. A Bíblia Sagrada, em Mateus 12:25, afirma que “todo reino dividido contra si mesmo será destruído”. Essa foi a principal mensagem utilizada para rebater os vídeos publicados por Michelle.
A esposa de Jair Bolsonaro ainda não ocupa cargo político, mas, mesmo sem mandato, mostrou que mantém diálogo com os eleitorados evangélico e feminino, e que transmite confiança a esse público, sobretudo porque o ex-presidente cumpre prisão domiciliar e não poderá disputar as eleições.
O pastor Ariovaldo avalia que o peso político de Michelle é menor do que ela própria parece acreditar.“Teria de haver uma campanha intensa e contar com a anuência do líder. Contudo, percebo um movimento, ainda tímido, no sentido de indicá-la como candidata e vender a campanha como uma batalha espiritual”, disse.
No entendimento de Eguinaldo Ferreira, Michelle conquistou respeito entre muitos evangélicos por sua história de fé e pela forma como se comunica. “Quando ela fala, naturalmente muita gente presta atenção. Mas a influência dela não substitui o discernimento da igreja”, afirmou.
Ainda é cedo para verificar o prejuízo que Michelle pode ter causado à campanha de Flávio Bolsonaro. No entanto, as publicações mostraram que ela é um instrumento importante a ser explorado nas próximas eleições, já que a figura de seu marido, mesmo cumprindo prisão domiciliar, ainda exerce influência entre o eleitorado evangélico.

