A redução da taxa Selic para 14,25% ao ano, decidida pelo Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central em junho, reforçou a percepção de que o ciclo de cortes dos juros básicos está próximo do fim.
Após três reduções consecutivas, a expectativa predominante entre economistas e agentes do mercado financeiro é de que haja pouco espaço para novas quedas até dezembro.
As próximas decisões do Banco Central dependerão principalmente do comportamento da inflação, das contas públicas, do câmbio e do cenário econômico internacional.
Segundo o economista, engenheiro e mestre em Finanças e Desenvolvimento de Negócios Felipe Fogaça, o mercado já trabalha com um cenário de estabilidade da taxa de juros ao longo dos próximos meses.
“O mercado já trabalha com o ciclo quase encerrado. A Selic está em 14,25% ao ano após o corte de 17 de junho. O Boletim Focus mais recente projeta a taxa em torno de 14% no fim de 2026, ou seja, na mediana, o mercado precifica, no máximo, mais um corte de 0,25 ponto, e uma parcela crescente de casas já vê o ciclo concluído”, destaca.
O que é Selic?
A Selic é a taxa básica de juros da economia brasileira e serve de referência para financiamentos, empréstimos e aplicações financeiras.
Quando os juros caem, o crédito tende a ficar mais barato, estimulando consumo e investimentos. Já quando permanecem elevados, o objetivo do Banco Central é conter a inflação, ainda que isso reduza o ritmo da atividade econômica.
Para Fogaça, quatro fatores serão determinantes para definir se haverá espaço para novos cortes até o fim do ano.
“Os indicadores determinantes são quatro: as expectativas de inflação, a trajetória fiscal, num ano eleitoral, o câmbio e o ambiente externo, sobretudo petróleo e alimentos após o choque no Oriente Médio”, afirma.
Na avaliação do economista, embora o ciclo de redução dos juros ainda não tenha sido oficialmente encerrado pelo Banco Central, o cenário-base continua sendo de estabilidade da Selic próxima ao nível atual, com possibilidade de apenas mais um corte de 0,25 ponto percentual caso os indicadores apresentem melhora consistente nos próximos meses.
Quais fatores podem mudar a trajetória dos juros?
Segundo Fogaça, a evolução da política fiscal continuará sendo um dos principais elementos observados pelo Banco Central. Isso porque mudanças nas expectativas sobre as contas públicas podem influenciar diretamente a inflação, o comportamento do câmbio e, consequentemente, a condução da política monetária.
Além disso, fatores externos também permanecem no radar, já que oscilações nos preços internacionais de energia e alimentos costumam afetar a inflação brasileira.
“O que poderia abrir espaço para cortar além do esperado é um cessar-fogo duradouro no Oriente Médio que derrube petróleo e alimentos, expectativas de inflação voltando a ancorar, câmbio mais apreciado e uma desaceleração da atividade mais forte que a prevista”, explica.
Por outro lado, Fogaça avalia que também existem fatores capazes de interromper completamente o ciclo de cortes ou até levar o Banco Central a rever sua estratégia.
“O que poderia interromper o ciclo, ou até revertê-lo, é uma deterioração fiscal em ano eleitoral, desvalorização do real, um novo choque externo e expectativas que sigam desancoradas”, enfatiza.
Como a Selic alta impacta a economia real?
Uma Selic elevada também produz efeitos sobre diversos setores da economia. Juros mais altos encarecem financiamentos imobiliários, empréstimos para empresas e operações de crédito ao consumo, afetando segmentos como construção civil, varejo, indústria e pequenas e médias empresas que dependem de capital de giro para investir e expandir suas atividades.
“Seja qual for o número de dezembro, terminaremos 2026 entre os dois maiores juros reais do planeta. Para mim, essa é a manchete. A política monetária cumpre seu papel do lado da demanda; o debate que falta é sobre o custo, em investimento, emprego e na própria dívida, de manter o dinheiro mais caro do mundo por tanto tempo”, finaliza.

