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Justiça

Saiba quem é Lucas Kallas, ex-sócio de Vorcaro investigado pela PF

Fundador da Cedro Participações manteve investimentos em empresas que também tiveram participação de Daniel Vorcaro

Saiba quem é Lucas Kallas, ex-sócio de Vorcaro investigado pela PF

A Polícia Federal (PF) abriu uma nova frente de investigação sobre o empresário mineiro Lucas Kallas para apurar o possível uso de fundos administrados pela Reag na ocultação de patrimônio e lavagem de dinheiro no setor de mineração.

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A apuração ocorre após a análise de documentos que registravam cerca de R$ 204 milhões em bens atribuídos a Francine Kallas, irmã e sócia do empresário, conforme revelou o Amado Mundo.

Os investigadores analisam se houve estruturação patrimonial paralela, utilização de pessoas interpostas e ocultação do beneficiário final de ativos ligados ao setor mineral.

Kallas também foi indiciado em outra investigação da PF sobre exploração irregular de minério de ferro na Serra do Curral, em Belo Horizonte.

Kallas construiu relações empresariais e institucionais, integrou o Conselho de Desenvolvimento Econômico Social Sustentável da Presidência da República e participou de investimentos em companhias que também tiveram Daniel Vorcaro entre seus acionistas.

De imóveis à expansão no setor mineral

Nascido em Belo Horizonte, em 1979, Lucas Kallas começou sua trajetória empresarial no setor imobiliário. Neto do empresário libanês Farid Kallas, ele recebeu da família um terreno para iniciar um negócio de urbanização e comercialização de lotes antes de direcionar seus investimentos para a mineração.

Segundo O Globo, Kallas fundou a Cedro Mineração em 2018 após adquirir minas em Nova Lima e Mariana, em Minas Gerais.

A empresa produz cerca de 7 milhões de toneladas de minério de ferro por ano e estabeleceu a meta de elevar esse volume para 20 milhões de toneladas anuais até 2028.

A expansão dos negócios também chegou ao setor de infraestrutura. O grupo assumiu a concessão do terminal ITG-02, no Porto de Itaguaí, no Rio de Janeiro, e desenvolve o projeto da Ferrovia Serra Azul, destinada a conectar áreas produtoras de minério da Região Metropolitana de Belo Horizonte à malha ferroviária nacional.

Os investimentos da Cedro Participações ainda alcançaram o agronegócio, a biotecnologia, a saúde e o mercado financeiro. Foi em parte dessas operações que os caminhos empresariais de Kallas e do ex-banqueiro Daniel Vorcaro passaram a se cruzar.

Negócios aproximaram Kallas e Vorcaro

Kallas e Vorcaro tiveram participações acionárias na Biomm, empresa especializada na produção de insulina.

A Cedro detinha aproximadamente 8% do capital da companhia, enquanto Vorcaro controlava cerca de 25% por meio do fundo Cartago/WNT.

A assessoria de Kallas nega que os dois empresários tenham sido sócios e sustenta que a presença de ambos entre os acionistas de uma companhia de capital aberto não caracteriza uma sociedade direta.

Segundo a defesa, a Cedro deixou posteriormente a Biomm por não obter o retorno esperado e decidiu concentrar investimentos na mineração.

As relações entre os empresários também passaram a ser examinadas após a identificação de uma viagem à Venezuela no fim de 2023.

Dados obtidos durante investigações da PF registraram despesas de US$ 23 mil com duas suítes em um hotel de Caracas para Kallas e Vorcaro.

A assessoria do empresário afirmou que Kallas estava no país para analisar uma oportunidade no setor mineral a convite de um grupo empresarial do Catar e que Vorcaro não participou da agenda.

Após o retorno ao Brasil, registros do Gabinete de Segurança Institucional identificaram a entrada dos dois empresários no Palácio do Planalto no mesmo minuto, em 4 de dezembro de 2023.

PF apura possível ligação com fundos da Reag

A investigação mais recente começou após a Polícia Federal encontrar documentos relacionados ao cadastramento de Francine Kallas em um fundo administrado pela Reag.

O Banco Central liquidou a gestora em janeiro após identificar violações às normas do Sistema Financeiro Nacional.

Na documentação examinada pelos investigadores, Francine aparecia com patrimônio de aproximadamente R$ 204 milhões. Desse montante, cerca de R$ 200 milhões correspondiam à participação na Monte Líbano Participações, empresa ligada ao Grupo Cedro.

O pedido de cadastramento teria sido encaminhado por um executivo da Cedro Mineração que também aparecia ligado à companhia responsável por parte dos ativos declarados. Os documentos ainda registravam aplicações financeiras superiores a R$ 10 milhões e a possibilidade de novos aportes.

A Cedro afirmou que investimentos em fundos são operações comuns no sistema financeiro e que os recursos eram privados e declarados aos órgãos de controle. A Reag, por sua vez, declarou que Lucas Kallas nunca foi cliente da gestora.

Exploração mineral levou a outro indiciamento

Além da investigação relacionada aos fundos, Kallas foi indiciado pela Polícia Federal na Operação Parcours. A apuração investiga suspeitas de exploração irregular de minério de ferro na mina Curumi, localizada na Serra do Curral, em Belo Horizonte.

Como mostrou a Agência Pública, a PF apura se um Plano de Recuperação de Área Degradada foi utilizado para manter a extração de minério sem a autorização necessária.

Os investigadores estimaram prejuízo de R$ 832 milhões decorrente da exploração irregular e perda de aproximadamente R$ 11 milhões na arrecadação da Compensação Financeira pela Exploração Mineral.

Segundo a investigação, atividades realizadas entre 2014 e 2025 teriam provocado danos ambientais permanentes. A PF também apura a possível participação de ex-dirigentes da Agência Nacional de Mineração em um esquema de favorecimento à atividade investigada.

Kallas foi indiciado por suspeitas de usurpação de matéria-prima da União, mineração ilegal, crimes ambientais, associação criminosa e lavagem de dinheiro, além de indícios de corrupção ativa ou tráfico de influência perante órgãos ambientais.

A defesa declarou confiar na comprovação da inocência do empresário e sustentou que o indiciamento se baseia em fatos antigos. Segundo a manifestação, Kallas não mantém relação com a empresa investigada desde 2017 e atuava anteriormente apenas como investidor.

Empresário recebeu elogios de Lula

A trajetória de Kallas também incluiu relações com integrantes do governo federal. O empresário participou, em 2023 e 2024, do Conselho de Desenvolvimento Econômico Social Sustentável, órgão de assessoramento da Presidência da República conhecido como Conselhão.

Kallas também esteve à frente da assinatura do contrato de concessão do terminal ITG-02, no Porto de Itaguaí. O projeto prevê investimentos de aproximadamente R$ 3,6 bilhões na construção de uma estrutura destinada à armazenagem e movimentação de produtos minerais.

De acordo com O Globo, durante a cerimônia de assinatura do contrato, em 2025, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) elogiou publicamente Kallas e afirmou que o empresário tinha visão nacional e acreditava no crescimento do Brasil. O presidente também havia indicado o empresário para integrar o Conselhão.

Investigações anteriores começaram em 2008

A Operação Parcours e a apuração sobre os fundos administrados pela Reag não são os primeiros casos investigados pela Polícia Federal que alcançam Lucas Kallas. Em 2008, ele e o pai foram presos durante a Operação João de Barro.

A investigação apurava suspeitas de desvios de aproximadamente R$ 700 milhões de recursos do Programa de Aceleração do Crescimento destinados à construção de moradias populares e obras de saneamento. Kallas respondeu a sete ações decorrentes do caso.

Segundo as informações apresentadas pelo empresário, duas ações terminaram em absolvição, uma teve a pena prescrita e outras não haviam sido julgadas. A defesa sustenta que os fatos foram esclarecidos judicialmente e que permanece apenas uma ação em andamento.

Em meio às novas apurações, Kallas continua trabalhando na internacionalização dos negócios da Cedro Participações. Questionada sobre informações de que o empresário não estaria morando no Brasil, a assessoria afirmou que as viagens fazem parte da estratégia de expansão internacional da holding.

Kallas estava havia 55 dias fora do país. A assessoria do empresário declarou que, somente em 2025, ele visitou mais de 17 países para participar de agendas comerciais e institucionais.

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