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Geopolítica

Por que o PIX incomoda tanto os EUA?

Criado em 2020, o sistema já é utilizado por mais de 170 milhões de brasileiros

Por que o PIX incomoda tanto os EUA?

O governo dos Estados Unidos incluiu o Pix entre as justificativas apresentadas para impor uma tarifa de 25% sobre produtos brasileiros.

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Em documento divulgado pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR), Washington afirma que políticas adotadas pelo Banco Central favorecem o sistema brasileiro de pagamentos instantâneos e prejudicam empresas americanas que atuam no mercado de pagamentos eletrônicos, como Visa, Mastercard e WhatsApp Pay.

A alegação transformou uma ferramenta financeira criada para modernizar os pagamentos no Brasil em um dos pontos da atual disputa comercial entre os dois países.

Por que os Estados Unidos criticam o Pix?

Segundo o documento divulgado pelo USTR, o governo norte-americano considera que o Banco Central exerce simultaneamente as funções de regulador e operador do Pix, o que, na avaliação do órgão, cria vantagens para o sistema brasileiro em relação a concorrentes privados.

Entre as críticas estão a obrigatoriedade de participação de grandes instituições financeiras, a exigência de que o Pix tenha destaque nos aplicativos bancários e a oferta gratuita do serviço para pessoas físicas, medidas que, na visão dos Estados Unidos, dificultariam a competição de empresas americanas de pagamentos.

Na avaliação do governo de Donald Trump, essas regras obrigariam instituições financeiras a promover um sistema desenvolvido pelo Estado brasileiro, enquanto empresas estrangeiras precisariam competir em condições consideradas desiguais.

O documento sustenta ainda que esse tratamento preferencial representa um obstáculo ao comércio de serviços dos Estados Unidos e gera custos adicionais para fornecedores norte-americanos que atuam no setor.

Outro argumento apresentado por Washington envolve a expansão do Pix para além das fronteiras brasileiras.

O governo americano observa que países latino-americanos demonstraram interesse em adotar um modelo semelhante ao brasileiro, o que poderia reduzir o espaço de empresas privadas tradicionais em um mercado considerado estratégico para as companhias de pagamentos sediadas nos Estados Unidos.

Como o Pix foi criado

Embora o sistema tenha sido lançado para a população em novembro de 2020, sua criação começou muitos anos antes. Como mostrou O Brasilianista, documentos oficiais do Banco Central indicam que o projeto nasceu de uma política de Estado voltada à modernização do Sistema de Pagamentos Brasileiro e não de uma iniciativa vinculada a um único governo.

A base jurídica do Pix surgiu em 2013, quando a Lei nº 12.865 ampliou as competências do Banco Central para incentivar a concorrência, a inclusão financeira e a inovação nos meios de pagamento.

Nos anos seguintes, a instituição promoveu estudos, realizou consultas ao mercado, criou grupos de trabalho e definiu a arquitetura tecnológica que sustentaria o sistema.

O analista de investimentos do Grupo Mide, Gabriel Castro, explica que toda a concepção técnica ficou sob responsabilidade do Banco Central.

Segundo ele, os estudos iniciais ocorreram durante o governo Michel Temer, enquanto o desenvolvimento tecnológico e a implementação foram realizados durante a gestão de Jair Bolsonaro, reforçando que o projeto foi conduzido institucionalmente pela autoridade monetária.

O que tornou o Pix tão popular

Desde o lançamento, o Pix modificou a forma como pessoas e empresas realizam pagamentos no Brasil. De acordo com dados apresentados pelo O Brasilianista, mais de 170 milhões de brasileiros utilizam atualmente a ferramenta, que movimentou mais de R$ 35 trilhões apenas em 2025, consolidando-se como o principal meio de pagamento do país.

O crescimento ocorreu porque o sistema permite transferências em tempo real, durante 24 horas por dia e todos os dias da semana, substituindo gradualmente operações como TED, DOC e, em muitos casos, até boletos bancários.

Além disso, novas funcionalidades foram incorporadas ao longo dos últimos anos, entre elas Pix Cobrança, Pix Saque, Pix Troco, Pix Automático, Pix por Aproximação, Pix Parcelado e integração com o Open Finance.

O uso massivo também alterou hábitos financeiros. Muitos brasileiros deixaram de depender do dinheiro em espécie para realizar pagamentos cotidianos, enquanto comerciantes passaram a utilizar o sistema como alternativa aos cartões, principalmente em operações com liquidação imediata e menor custo operacional.

Expansão internacional amplia a disputa

Além da popularidade no mercado interno, o Pix passou a despertar atenção internacional. O Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) reconheceu o Pix como marca de alto renome, garantindo proteção ampliada em todos os ramos de atividade econômica, independentemente da categoria para a qual foi originalmente registrada.

O reconhecimento ocorreu poucos dias após o governo norte-americano intensificar as críticas ao sistema brasileiro. Ao mesmo tempo, países da América Latina passaram a demonstrar interesse na tecnologia desenvolvida pelo Banco Central, incluindo a Colômbia, que manifestou interesse em ampliar o uso do modelo brasileiro.

Na avaliação apresentada pelo governo dos Estados Unidos, uma eventual adoção do sistema por outros países latino-americanos pode reduzir a presença de empresas americanas de pagamentos na região.

Essa possibilidade passou a integrar os argumentos utilizados por Washington ao justificar a investigação comercial envolvendo o Brasil.

Os Estados Unidos também desenvolvem um sistema semelhante

Enquanto questionam o modelo brasileiro, os próprios Estados Unidos trabalham na implementação de um sistema nacional de pagamentos instantâneos.

Conforme destacou O Brasilianista, o Federal Reserve desenvolve o FedNow, plataforma pública criada para permitir transferências em tempo real entre instituições financeiras.

Apesar das semelhanças tecnológicas, existem diferenças importantes entre os dois modelos. No Brasil, a participação das grandes instituições financeiras foi determinada pelo Banco Central, favorecendo uma rápida disseminação do Pix.

Nos Estados Unidos, a adesão ao FedNow é voluntária, o que representa um desafio para sua expansão diante da concorrência de soluções privadas já consolidadas no mercado.

O Federal Reserve prevê ampliar a utilização do FedNow nos próximos anos.

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