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Geopolítica

Por que a Europa perdeu competitividade econômica?

Relatório elaborado pela própria Comissão Europeia aponta atraso tecnológico e dificuldades para competir com Estados Unidos e China

Por que a Europa perdeu competitividade econômica?

Após décadas ocupando posição de destaque na economia mundial, a União Europeia enfrenta um período de crescimento reduzido, perda de competitividade industrial e desafios que colocam em dúvida sua capacidade de recuperar o protagonismo econômico nas próximas décadas.

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O cenário é resultado de uma combinação de fatores estruturais, como o envelhecimento da população, os elevados custos da energia, o atraso tecnológico em relação aos Estados Unidos e à China e dificuldades para promover reformas capazes de estimular inovação e produtividade.

Para explicar como o bloco chegou a esse momento e quais são as perspectivas para os próximos anos, Rafael Moredo, internacionalista e coordenador de políticas públicas do Livres, analisa que o problema vai muito além das crises recentes e representa uma transformação estrutural da economia europeia.

Diagnóstico interno aponta problemas estruturais

Um dos principais sinais da gravidade da situação veio da própria União Europeia. O relatório Draghi, elaborado a pedido da Comissão Europeia em 2024, classificou o momento vivido pelo bloco como um “desafio existencial” e defendeu mudanças profundas para recuperar competitividade e acelerar a inovação.

Para Moredo, o documento chama atenção justamente por representar uma autocrítica feita pelas próprias instituições europeias.

“O diagnóstico mais honesto foi feito pelo próprio establishment europeu. O relatório Draghi, encomendado pela Comissão Europeia em 2024, descreveu a situação como um ‘desafio existencial’, apontando crescimento lento, atraso tecnológico em relação a EUA e China e a necessidade de reformas radicais.”

Na avaliação do especialista, a União Europeia perdeu simultaneamente três pilares que sustentavam seu modelo econômico: a energia barata fornecida pela Rússia, a forte demanda do mercado chinês e a garantia de segurança oferecida pelos Estados Unidos.

Sem alternativas consolidadas, o bloco passou a enfrentar dificuldades para manter o ritmo de crescimento observado nas décadas anteriores.

Energia cara reduziu competitividade da indústria

Entre os fatores que mais pressionaram a economia europeia está o aumento expressivo do custo da energia após a guerra na Ucrânia.

A dependência do gás russo elevou significativamente os custos de produção, afetando principalmente setores industriais de maior consumo energético.

Moredo observa que a diferença em relação aos principais concorrentes internacionais tornou-se expressiva.

“Em 2024, o preço industrial médio de eletricidade na UE era cerca de €0,199/kWh, contra €0,082/kWh na China e €0,075/kWh nos Estados Unidos — uma desvantagem competitiva brutal para qualquer setor intensivo em energia.”

O impacto foi especialmente intenso na Alemanha, considerada durante décadas a principal potência industrial do continente. Empresas anunciaram fechamento de unidades e transferência de parte da produção para outros países em busca de custos menores.

Além do aumento da energia, o envelhecimento populacional passou a reduzir a oferta de trabalhadores e ampliar as despesas previdenciárias, pressionando ainda mais as contas públicas e limitando o potencial de crescimento econômico.

Estratégias econômicas ampliaram a perda de espaço

Na comparação com Estados Unidos e China, Moredo considera que a União Europeia também acumulou limitações em sua estratégia de desenvolvimento econômico.

Segundo ele, embora exista um mercado comum para circulação de mercadorias, áreas fundamentais, como serviços digitais, energia e mercado de capitais, continuam fragmentadas entre os países do bloco, dificultando o crescimento de empresas inovadoras.

O especialista também aponta que a Europa priorizou uma regulação mais rígida antes de consolidar empresas capazes de competir globalmente, enquanto americanos e chineses favoreceram primeiro a expansão de seus setores tecnológicos.

Essa diferença ajuda a explicar por que as maiores empresas de tecnologia e inteligência artificial surgiram principalmente nos Estados Unidos e na China, enquanto o continente europeu perdeu protagonismo em segmentos considerados estratégicos para a economia do século XXI.

Países conseguem crescer acima da média

Apesar das dificuldades enfrentadas por parte das maiores economias europeias, alguns países apresentam desempenho superior ao restante do bloco.

Entre eles está a Polônia, cujo Produto Interno Bruto (PIB) registrou crescimento de 3,6% em 2025, impulsionado pelo aumento do investimento, do consumo e pela atração de capital estrangeiro.

Na avaliação de Moredo, o desempenho polonês demonstra que políticas voltadas à competitividade podem produzir resultados mesmo dentro do ambiente regulatório europeu.

Os países bálticos, Estônia, Letônia e Lituânia, também aparecem como exemplos de economias que investiram em reformas de mercado, digitalização e ambiente favorável aos negócios.

Recuperação depende de reformas

Embora o cenário atual seja desafiador, Moredo avalia que a Europa ainda possui condições de recuperar parte de sua relevância econômica.

O especialista destaca que o continente mantém vantagens importantes, como elevado capital humano, segurança jurídica, mercado consumidor robusto e uma moeda com reconhecimento internacional.

Mesmo assim, ele ressalta que a recuperação dependerá da capacidade dos governos de implementar reformas estruturais que reduzam a burocracia, integrem mercados, ampliem investimentos em inovação e fortaleçam a competitividade industrial.

“O problema não é a ausência de recursos — é a arquitetura institucional que dificulta usá-los com eficiência.”

Na avaliação do internacionalista, o futuro da União Europeia dependerá menos da disponibilidade de recursos e mais da disposição política para promover mudanças que permitam ao bloco voltar a competir em igualdade de condições com Estados Unidos e China.

Se essas reformas continuarem sendo adiadas, o continente poderá enfrentar um processo gradual de perda de influência econômica e geopolítica nas próximas décadas.

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