A tarifa adicional de 25% imposta pelos Estados Unidos ampliou a pressão sobre setores brasileiros ligados à indústria e às exportações, enquanto empresas calculam os efeitos da medida sobre vendas, produção e investimentos.
Para Daniel da Cunda Correa da Silva, economista, mestre em Relações Internacionais e professor da Universidade do Vale do Itajaí (Univali), a escolha dos segmentos atingidos precisa ser compreendida dentro de uma estratégia que combina política comercial, pressão sobre parceiros e interesses políticos do governo de Donald Trump.
A nova rodada alcança áreas como calçados, etanol, máquinas industriais, equipamentos agrícolas e tabaco.
Parte desses setores mantém relações comerciais com o mercado norte-americano e passa a enfrentar uma barreira adicional para vender seus produtos aos Estados Unidos.
A medida também provocou reação no Brasil. Como mostrou O Brasilianista o governo federal anunciou, a terceira etapa do Plano Brasil Soberano, com até R$ 18,5 bilhões em crédito para empresas afetadas.
O pacote reúne R$ 13,5 bilhões do Tesouro Nacional e R$ 5 bilhões do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).
Seção 301 muda base jurídica das tarifas
A estratégia adotada em 2026 apresenta uma diferença em relação às medidas do ano anterior. Silva explica que o governo Trump passou a fundamentar a nova taxação na Seção 301 do Código Comercial norte-americano de 1974, mecanismo relacionado à resposta dos Estados Unidos a práticas comerciais consideradas desleais.
Para o economista, a escolha desse instrumento acrescenta uma sustentação jurídica que não estava presente da mesma maneira nas medidas adotadas em 2025.
“O governo de Donald Trump fundamentou a nova taxação na chamada Seção 301 de seu Código Comercial, redigido em 1974, que versa sobre práticas desleais de comércio. Por mais débil e inconsistente que elas sejam, as medidas atendem a um mecanismo jurídico que lhes dá guarida, o que não acontecia em 2025. Isto pode tornar mais difícil um bloqueio ao tarifaço pela Suprema Corte, como ocorreu no ano passado”, explica Silva.
O uso das tarifas não está limitado ao Brasil. Conforme detalha o professor, Canadá, Índia e China também receberam taxação de 25%.
Outro grupo, formado por pelo menos 40 países, enfrenta tarifas de 12,5%, incluindo integrantes da União Europeia, Japão, Coreia do Sul, Austrália, Nova Zelândia, Suíça, Singapura e Tailândia.
Pressão comercial ultrapassa exportações brasileiras
A abrangência das medidas ajuda a colocar a ofensiva contra produtos brasileiros dentro de uma política comercial mais ampla da Casa Branca.
Na avaliação de Silva, as tarifas passaram a funcionar como instrumento para pressionar parceiros e buscar condições consideradas mais favoráveis pelos Estados Unidos.
O professor considera possível que Washington adote novas tarifas, mas ressalta que não havia, até o momento da entrevista, medidas em andamento que apontassem para uma nova ampliação imediata.
“Poder impor novas tarifas, os EUA podem. Porém, não há mais nada em andamento, até este momento, que aponte nesta direção, e tudo indica que a estratégia de pressionar aliados para conseguir acordos mais favoráveis do ponto de vista comercial, acordos de facilitação de investimento e/ou dividendos políticos derivados destas manobras (sobretudo em países com eleição vindoura, como o Brasil) continua em andamento”, avalia.
A disputa ocorre enquanto o Brasil se aproxima do calendário eleitoral. Para Silva, esse componente precisa ser considerado na leitura das medidas adotadas neste momento, embora o comportamento do governo norte-americano dificulte projeções sobre os próximos movimentos.
Indústria concentra setores mais expostos
A composição da lista de produtos atingidos coloca segmentos industriais entre os principais afetados. Segundo Silva, calçados, etanol, máquinas industriais, equipamentos agrícolas, móveis, bens de capital, alumínio, algodão, eletrônicos, baterias de lítio e tabaco estão entre as áreas que enfrentam maior exposição.
“Atividades industriais acessórias a estes setores devem permanecer em alerta. O setor de serviços também pode sofrer eventualmente alguma pressão, porém, o foco principal tem sido o setor de bens, e não se tem expectativa de que o rol de ramos atingidos possa se ampliar muito”, detalha o economista.
O Brasilianista mostrou que empresas exportadoras já passaram a calcular prejuízos e alternativas para preservar investimentos e empregos.
Entre as respostas do governo brasileiro está a ampliação do crédito para projetos produtivos, aquisição de equipamentos, capital de giro e manutenção de operações voltadas às exportações.
Pressão pode avançar para além das tarifas
Embora as sobretaxas concentrem o impacto econômico imediato, Silva considera que os Estados Unidos dispõem de outros instrumentos de pressão.
Parte deles poderia atingir autoridades, cidadãos, empresas ou operações financeiras brasileiras sem necessariamente envolver uma nova elevação das tarifas.
Entre as possibilidades mencionadas pelo professor estão a ampliação do cancelamento de vistos de autoridades e dificuldades adicionais na concessão de vistos a brasileiros.
“Podem aparecer também o aumento do escopo de cancelamento de vistos de autoridades brasileiras e a imposição de mais dificuldades para que cidadãos brasileiros obtenham vistos, mesmo que de turismo, aos EUA. O impedimento de contratações de empresas brasileiras nos EUA, a imposição de licenciamentos não-automáticos de importações que, na prática, tornam o comércio proibitivo em função da morosidade gerada, ou ainda algo que seria muito grave, que seria o congelamento de ativos financeiros de pessoas e também do próprio Estado brasileiro, com vistas a pressionar o Brasil para que não utilize outra moeda em sua arquitetura financeira internacional que não sejam os dólares dos EUA”, contextualiza Silva.
Essas possibilidades não correspondem a medidas anunciadas ou em andamento, conforme a própria avaliação apresentada pelo economista.
Elas representam instrumentos que poderiam ser utilizados pelos Estados Unidos caso a pressão bilateral avançasse para outras áreas.
Eleições entram no cálculo sobre próximos movimentos
A proximidade da disputa eleitoral brasileira também aparece na avaliação sobre o momento escolhido para intensificar a pressão. Silva considera arriscado prever os movimentos de Trump, mas não espera uma sequência extensa de novas medidas nos próximos meses.
“Assumindo muito o risco de traçar avaliação de um governo totalmente imprevisível, eu não entendo que muitas medidas serão adotadas nos próximos meses, pois penso que as medidas estão sendo tomadas de maneira mais dura neste momento em que o calendário eleitoral se aproxima”, avalia Silva.
O economista também projeta que a relação com os Estados Unidos pode ser incorporada à campanha eleitoral.
“Acredito, inclusive, que a oposição do governo atual irá explorar o fato de que, se ganharem, terão mais articulação com a Casa Branca para derrubar as tarifas. De outro lado, a situação tentará explorar o fato de que o Brasil está buscando diversificação de mercados e defende a soberania do país. A ver qual saldo pode render mais durante a campanha”, pondera Silva.

