A Operação Heritage, deflagrada nesta quinta-feira (06) pela Polícia Federal, fez o ex-governador de Mato Grosso e candidato ao Senado Mauro Mendes (União Brasil) voltar a figurar entre os investigados em um caso de grande repercussão nacional.
A apuração investiga um suposto esquema de desvio de R$ 308 milhões envolvendo um acordo firmado entre o governo estadual e a operadora Oi, além do uso de fundos de investimento para ocultar a movimentação dos recursos.
As medidas foram autorizadas pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Flávio Dino, e incluem 25 mandados de busca e apreensão, quebra de sigilos bancário e fiscal, bloqueio de bens de até R$ 316 milhões, recolhimento de passaportes e restrições de contato entre os investigados.
Segundo a Polícia Federal, há indícios de que a restituição tributária devida à Oi foi transformada em direitos creditórios e transferida para fundos administrados pelo Banco Master.
A investigação aponta que, posteriormente, esses recursos teriam sido pulverizados por meio de uma estrutura de fundos em cascata e empresas interpostas até chegarem a pessoas ligadas ao entorno político e familiar de Mauro Mendes.
Entre os investigados também estão o desembargador Ricardo Gomes de Almeida, escolhido por Mendes para o Tribunal de Justiça de Mato Grosso em 2025, e o deputado federal Fábio Garcia (União Brasil).
Os investigadores apuram, em tese, crimes como organização criminosa, peculato, lavagem de dinheiro, crimes contra o Sistema Financeiro Nacional e uso indevido de informação privilegiada.
Banco Master e Credcesta também entraram na mira do STJ
A Operação Heritage não é a única investigação que envolve Mauro Mendes e o Banco Master. Em junho deste ano, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) abriu um inquérito, a pedido da Procuradoria-Geral da República (PGR), para apurar suspeitas de irregularidades no credenciamento do programa de crédito consignado Credcesta em Mato Grosso.
A investigação tramita sob sigilo e analisa se houve favorecimento ao banco durante o processo de habilitação da instituição para operar a modalidade destinada aos servidores públicos estaduais.
As suspeitas têm como foco a rapidez do procedimento administrativo. Em maio de 2023, Mauro Mendes assinou um decreto criando uma margem consignável exclusiva de 10% para cartões de benefícios.
Três dias depois, o Banco Master protocolou o pedido de credenciamento. Em menos de uma semana o processo recebeu parecer favorável e, em junho daquele ano, o credenciamento foi oficializado com validade até 2028.
A investigação também analisa o contexto da implantação do Credcesta em outros estados, como Rio de Janeiro e Bahia, onde o modelo também passou a ser alvo de apurações.
Mauro Mendes nega qualquer irregularidade e afirma que o procedimento respeitou a legislação, destacando que outras instituições financeiras também foram credenciadas durante sua gestão.
Justiça manteve ação penal por suposta falsidade ideológica
Antes das investigações mais recentes, Mauro Mendes já havia sido alvo de uma ação penal que chegou ao Superior Tribunal de Justiça (STJ).
O caso teve origem em uma denúncia do Ministério Público Federal sobre a arrematação de um apartamento em Cuiabá, realizada em 2009.
Segundo a acusação, o então empresário e uma magistrada teriam articulado a inserção de declarações falsas em documentos para viabilizar a aquisição do imóvel durante um leilão judicial. Dois anos depois, o apartamento teria sido transferido para a juíza apontada na investigação.
A defesa pediu o trancamento da ação penal, sustentando, entre outros argumentos, que o crime estaria prescrito e que uma ação de improbidade relacionada ao caso havia sido rejeitada.
Em março de 2022, porém, o STJ negou o pedido. Na decisão, o desembargador convocado Olindo Menezes afirmou que havia indícios mínimos de autoria e materialidade suficientes para o prosseguimento da ação e destacou que a inexistência de improbidade administrativa não impede a continuidade da esfera penal, já que ambas possuem natureza jurídica distinta.
O mérito das acusações ainda depende de julgamento definitivo.
Contratos públicos e obras também foram alvo de apurações
Além das investigações criminais, a gestão de Mauro Mendes também enfrentou questionamentos relacionados a contratos de infraestrutura.
Em julho deste ano, o Tribunal de Contas do Estado de Mato Grosso (TCE-MT) admitiu uma Representação de Natureza Externa para apurar possíveis irregularidades na execução das obras de duplicação da BR-163, conduzidas pela concessionária Rota do Oeste.
A representação, apresentada pela Agrimat Engenharia, aponta que falhas no projeto básico teriam provocado um desequilíbrio contratual e um custo adicional estimado em mais de R$ 68 milhões durante a execução da obra.
Ao admitir a representação, o conselheiro Guilherme Antonio Maluf destacou que o objetivo do processo não é definir eventual direito patrimonial da empresa contratada, mas verificar se houve irregularidades na condução administrativa do contrato e na aplicação de recursos públicos.
O TCE determinou o prosseguimento da instrução processual para análise técnica do caso. Até o momento, a Corte não concluiu pela existência de irregularidades nem atribuiu responsabilidade a Mauro Mendes ou a outros agentes públicos, tratando-se de uma investigação administrativa ainda em andamento.
Hospital Central gerou debate sobre contratos envolvendo empresa da família
Outro episódio que gerou questionamentos durante a gestão de Mauro Mendes envolveu as obras do Hospital Central de Cuiabá.
Documentos revelaram que a Bipar Indústria Metalúrgica, empresa pertencente ao ex-governador e à primeira-dama Virgínia Mendes, participou da elaboração do projeto da estrutura metálica da unidade de saúde por meio de uma subcontratação realizada pelo Consórcio LC, responsável pela execução da obra pública.
A contratação levantou dúvidas sobre um possível conflito entre interesses privados e contratos vinculados ao governo estadual.
O caso chegou a ser investigado pelo Ministério Público de Mato Grosso (MPMT), que arquivou o procedimento em 2023 após concluir que não encontrou indícios de ilegalidade, sobrepreço ou prejuízo aos cofres públicos.
Apesar do arquivamento, o episódio permaneceu no debate político por envolver uma empresa da família do então governador em uma obra pública de grande porte.
Críticos da gestão sustentam que a situação levanta questionamentos éticos sobre a relação entre negócios privados e contratos públicos, enquanto Mauro Mendes sempre negou qualquer irregularidade e ressaltou que a participação da empresa ocorreu dentro das normas legais.
Processo contra jornalista
Mauro Mendes e seu filho também protagonizam uma disputa judicial envolvendo a atividade jornalística. Ambos moveram uma ação de indenização de R$ 660 mil contra o jornalista investigativo Pablo Rodrigo e o jornal A Gazeta após a publicação de uma reportagem, em julho de 2023, que revelou que o filho do então governador era investigado pela Polícia Federal em um inquérito relacionado à suposta compra ilegal de mercúrio destinado ao garimpo.
Meses depois da publicação, uma operação da própria PF confirmou a existência da investigação mencionada na reportagem.
Durante o julgamento no Tribunal de Justiça de Mato Grosso (TJMT), entidades ligadas à defesa da liberdade de imprensa acompanharam o caso com atenção.
A defesa do jornalista sustentou que a condenação poderia criar um precedente para restringir o trabalho da imprensa investigativa, argumentando que a reportagem foi produzida com base em informações de interesse público.
Segurança pública e críticas à gestão ampliaram o desgaste político
Além das investigações e processos judiciais, Mauro Mendes também enfrentou críticas recorrentes relacionadas à condução da segurança pública durante seus dois mandatos à frente do Governo de Mato Grosso.
Embora a gestão tenha adotado o discurso de endurecimento no combate ao crime organizado, especialistas e opositores afirmam que o avanço das facções criminosas em diferentes regiões do estado colocou em xeque a efetividade dessa estratégia.
O cenário também foi acompanhado por críticas à política de enfrentamento adotada pelo governo. Analistas apontam que, apesar do aumento das operações policiais e da defesa da chamada política de “tolerância zero”, Mato Grosso continuou registrando indicadores preocupantes relacionados à violência, à expansão das facções e aos crimes ligados ao garimpo ilegal, ao tráfico de drogas e à lavagem de dinheiro.
Os indicadores da Secretaria de Estado de Segurança Pública (Sesp-MT) mostram que, embora crimes patrimoniais como roubos e furtos tenham recuado de forma consistente na última década, os homicídios voltaram a crescer em importantes polos do interior, como Sinop e Nova Mutum.
As críticas ganharam força durante o período pré-eleitoral e passaram a integrar o conjunto de questionamentos feitos à gestão de Mauro Mendes, somando-se às investigações judiciais e administrativas que marcaram os últimos anos de seu governo.
O que Mauro Mendes diz sobre as investigações
Ao longo dos diferentes episódios que marcaram sua trajetória política e administrativa, Mauro Mendes tem negado irregularidades e sustentado que todas as decisões de sua gestão seguiram a legislação.
No caso da Operação Heritage, a Procuradoria-Geral do Estado de Mato Grosso informou que irá colaborar com a Polícia Federal e afirmou confiar no esclarecimento dos fatos durante o andamento da investigação.
O Brasilianista procurou a defesa de Mauro Mendes, mas não obteve resposta até a publicação desta reportagem. O espaço permanece aberto para manifestação.

