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Política

Por que segurança pública não ocupa o centro da discussão política?

País teve a menor taxa de homicídios em 11 anos, mas o crime organizado ganha espaço em cidades do Nordeste

Por que segurança pública não ocupa o centro da discussão política?

Apesar de o Brasil viver a menor taxa de homicídios em 11 anos, de acordo com dados que avaliam a segurança pública no país, as intensas ações do ministro da Justiça e Segurança Pública, Ricardo Lewandowski eoperações da Polícia Federal que provocaram prejuízo recorde ao crime organizado, permanece em segundo plano no debate político nacional e o crime organizado avança no Nordeste.

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O Atlas da Violência 2025, realizado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, mostra que o país registrou 45.747 homicídios em 2023, o menor número em 11 anos. A taxa nacional chegou a 21,2 mortes por 100 mil habitantes, representando uma queda de 2,3% em relação ao ano anterior.

Ainda no início do ano um levantamento apresentado por Lewandowski e pelo diretor-geral da Política Federal, Andrei Rodrigues, em Brasília, mostrou que as ações que incluíram 222 operações da Força Integrada de Combate ao Crime Organizado (Ficco) resultaram na prisão de mais de mil pessoas, apreensão recorde de drogas e armas, além de investimentos no programa Amazônia Mais Segura, voltado ao enfrentamento de crimes ambientais e à proteção da região amazônica.

O balanço, compartilhado pela pasta, mostrou que crime organizado perdeu R$ 5,6 bilhões em um ano. Aumento de 70% em prejuízo para esses grupos.

Os avanços do ministro Lewandowski e da PF, contudo, não parecem movimentar o centro e o governo federal. A agenda ganha pouco espaço nas discussão por conta da polarização ideológica do país.

A polarização ideológica da direita e da esquerda

A polarização do país, que se acentuou nos últimos anos, pode ser um dos fatores que explica a agenda deixada de lado. No âmbito da esquerda progressista, alguns enxergam as políticas de segurança pública mais duras com desconfiança, interpretando-as como possíveis sinais de autoritarismo e restrição de liberdades civis. 

Isso pode criar uma barreira política para a adoção de medidas mais enérgicas, especialmente quando são impulsionadas por uma lógica de controle social.

O Procurador da República no Rio de Janeiro, Julio Araujo, disse à BBC que tanto a esquerda quanto a direita têm visões reducionistas sobre segurança pública. 

Araujo avalia que, enquanto a esquerda foca em questões pontuais e em atuações isoladas de violência, a direita prioriza ações de repressão, sem considerar a complexidade do problema.

Em um levantamento chamado “Conservadorismo e políticas públicas: um estudo sobre a área de segurança pública entre Rousseff e Bolsonaro”, publicado na Revista Brasileira de Segurança Pública, realizado por Lillian Lages Lino, doutoranda em Ciência Política pela UFSCar e Mestre em Ciências Sociais pela Unifesp e Cristiano Parra Duarte, Doutorando e Mestre em Ciência Política pela UFSCar, os pesquisadores avaliaram essa temática.

Eles apontam que governos de esquerda têm tendência a apresentar propostas mais adaptativas e garantistas, enquanto no espectro conservador observa-se o surgimento de PECs com perfil mais reativo, o que reforça o conflito ideológico sobre o que seria uma política mais dessa natureza. 

O documento avaliou o primeiro ano do segundo mandato da ex-presidente Dilma Rousseff (2015) e o primeiro ano do ex-presidente Jair Bolsonaro (2019).

As consequências 

O problema é que essa polarização deixa estagnada a agenda de segurança pública e o crime organizado avança cada vez mais.

Informações do Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025, divulgado em julho, por exemplo, mostrou que as dez cidades com as maiores taxas de Mortes Violentas Intencionais estão localizadas na região Nordeste. 

Normalmente a violência nessas áreas está associada a disputas entre facções do crime organizado. Há também o fator de que, das 10 cidades mais violentas, 8 estão localizadas em estados governados pelo Partido dos Trabalhadores (PT).

É importante destacar que responsabilidade pela segurança pública é um dever do Estado, conforme estabelecido no Artigo 144 da Constituição Federal. O artigo define que a segurança pública, direito e responsabilidade de todos, é exercida para a preservação da ordem pública e da incolumidade das pessoas e do patrimônio.

Confira a lista das cidades mais violentas.

  • 1. Maranguape (CE)Governador: Elmano de Freitas (PT)
  • 2. Jequié (BA)Governador: Jerônimo Rodrigues (PT)
  • 3. Juazeiro (BA)
  • 4. Camaçari (BA)
  • 5. Cabo de Santo Agostinho (PE)Governadora: Raquel Lyra (PSD)
  • 6. São Lourenço da Mata (PE)Governadora: Raquel Lyra (PSD)
  • 7. Simões Filho (BA) – Jerônimo Rodrigues (PT)
  • 8. Caucaia (CE)Governador: Elmano de Freitas (PT)
  • 9. Maracanaú (CE)Governador: Elmano de Freitas (PT)
  • 10. Feira de Santana (BA) –Governador: Jerônimo Rodrigues (PT)

Murillo de Aragão, advogado e mestre em Ciência Política avalia que, como consequência dessa ambiguidade ideológica, “o Brasil acaba ficando pendurado entre essas duas visões antagônicas, o que dificulta a construção de consensos e a implementação de políticas de segurança equilibradas, eficazes e respeitadoras dos direitos humanos”, afirma.