A decisão que afastava Wanderlei Barbosa do governo do Tocantins por seis meses mostra que o governador usava parentes e funcionários de seu gabinete para manter um esquema de desvio de verbas em compras de cestas básicas e de frango congelado. O afastamento, determinado em setembro pelo ministro Mauro Campbell, do Superior Tribunal de Justiça, foi suspenso pelo ministro Nunes Marques, do Supremo Tribunal Federal, na sexta-feira (5).
Os crimes, segundo a Polícia Federal e a Polícia Civil tocantinense, começaram na gestão Mauro Carlesse, antecessor do governador afastado, se intensificaram durante a pandemia da Covid-19 e só foram encerrados em julho de 2024, após o início das investigações. Ainda em 2018, Barbosa era vice-governador do Tocantins e comandava politicamente a Setas, secretaria estadual usada para fraudar as licitações. O secretário à época era José Messias Alves de Araújo, indicado por Wanderlei Barbosa.
Assim que assumiu o governo do Tocantins, em 2019, Barbosa deixou apenas com a Setas o enfrentamento à pandemia e os efeitos da Covid-19 na população tocantinense. A secretaria era o órgão responsável por organizar as licitações fraudadas sob a desculpa de comprar cestas básicas. A partir daí, segundo a Polícia Federal, o esquema passou a envolver a primeira-dama do Tocantins, Karynne Sotero, além do filho e do sobrinho do governador, Rérison Antônio Castro Leite e Thiago Marcos Barbosa de Carvalho, respectivamente.
Karynne é colocada pela PF no núcleo político do esquema criminoso, enquanto Rérison aparece como um dos operadores e Thiago é ligado à lavagem do dinheiro recebido ilegalmente. Há trechos do relatório da PF na decisão de Campbell em que Karynne é citada por operadores do esquema corrupto como uma integrante que toma decisões.
Em maio de 2024, Paulo César Lustosa, ex-marido de Karynne apontado pela PF como um dos operadores da organização criminosa, afirmou em mensagem enviada a Taciano Darcles Santana, chefe de gabinete de Wanderlei também investigado por participação nas fraudes, que teve uma boa conversa com Karyne em vez de Wanderlei porque o governador não estava disponível.
A PF diz que Karynne participou do esquema criminoso por meio do Instituto de Desenvolvimento e Gestão Social, Esportiva e Cultura, onde a primeira-dama do Tocantins figura entre os gestores desde a criação da entidade, a qual presidiu entre janeiro de 2013 e outubro de 2019. De acordo com a Polícia Federal, o instituto foi criado para receber emendas parlamentares federais e estaduais, além de dissimular a entrega de alimentos.
Num trecho do relatório da PF é mencionado que a deputada estadual Claudia Lelis, apesar de ter um instituto assistencial próprio, procurou a entidade de Karynne para destinar emendas que somavam 300 mil reais para se aproximar do governo Wanderlei. Essas informações foram obtidas pela Polícia Federal numa conversa entre Paulo Lustosa e seu irmão, Wilton.
No diálogo, o ex-marido da primeira-dama diz que todos os deputados estaduais têm institutos e ouve do irmão que muitas emendas têm sido repassadas a essas organizações. Wilton diz ainda que a dupla receberia 30 mil reais por intermediar a emenda de Lelis, ou seja, 10% do total pago com dinheiro público.
Karynne Sotero aparece atuando no esquema também por meio de fraudes em licitações para a Educação estadual. Novamente com seu ex-marido como operador, a primeira-dama discute a contratação da empresa Meta Sevice Comércio de Livros para fornecer material escolar e assessoramento a prefeituras do Tocantins. Num diálogo em 29 fevereiro de 2024, Lustosa afirma que o projeto relacionado às cidades de Dianópolis e Colinas “está com Karynne” e que a coronel Marcela, auxiliar direta da primeira-dama, irá “agilizar as coisas”.
A Meta Sevice Comércio de Livros, que tinha Lustosa como operador, segundo a PF, presta serviços ao governo do Tocantins desde 2022, pelo menos. Naquele ano, a empresa venceu licitação de pouco mais de 3 milhões de reais.
Outro indício que liga Karynne ao esquema criminoso é uma troca de mensagens entre Lustosa e a filha dele com a primeira-dama, Yasmin. Em 18 de março de 2024, ele afirma à filha que precisa arrumar sua vida financeira e que depende da ex-mulher e de Wanderlei: “Se tua mãe e Wanderlei ajeitar esse negócio da licitação pra mim e tudo, ajeito as coisas e não fico devendo mais pra ninguém [sic]”.
Pousada Pedra Canga

A Polícia Federal acusa Rérison Castro, filho de Wanderlei que já foi nomeado superintendente do Sebrae no Tocantins, de lavar o dinheiro das fraudes nos gastos da pousada Pedra Canga, empreendimento de luxo em construção na Serra de Taquaraçu (TO), região próxima a Palmas, capital do estado. Segundo a PF, o projeto pertence ao governador noTocantins, mas está registrado em nome de Rérison.
Numa conversa, Rérison pede a Marcos Martins Camilo, chefe degabinete de Wanderlei, que todos os documentos da pousada fiquem em seu nome. A PF também apresentou como provas diversas fotos de Wanderlei no local e registros de transferências que comprovam o investimento do governador e de seus filhos — Rérison e Yhgor Leonardo Castro Leite, que é deputado estadual — no empreendimento. Os pagamentos começaram em 21 de junho de 2022, e somaram pouco mais de 2,4 milhões de reais até julho de 2024, segundo a Polícia Federal.
Noutra conversa com Camilo, Rérison reforça a participação do pai na Pousada Pedra Canga ao dizer que o capital social da pousada foi dividido entre ele e outros familiares a pedido de Wanderlei, para evitar associações diretas: “Até a última fez que falei com ele [Wanderlei], ele não queria que botasse nada no nome dele”, disse o filho do governador. Após a descobrir a existência da investigação, em fevereiro deste ano, o grupo baixou todos os arquivos contábeis da pousada.
Operador e espião
Enquanto Rérison cuidava da destinação do dinheiro, Thiago, seu primo, cuidava pessoalmente da distribuição do dinheiro vivo aos envolvidos no esquema. O trabalho era dividido com Taciano Darcles Santana, assessor especial de Wanderlei Barbosa. Os saques eram responsabilidade do filho de Taciano, Marcus Vinícius Ribeiro Santana.
Mas Thiago não se limitou à entrega do dinheiro. Ele, que é advogado e atuava como procurador de Justiça no Ministério Público do Tocantins, foi preso em março deste ano, acusado de vazar informações sobre investigações. A prisão se deu noutra investigação, a OperaçãoMáximus, que apura venda de decisões no Tribunal de Justiça tocantinense.
A investigação, conduzida pela PF e que está no Supremo TribunalFederal, sob relatoria do ministro Cristiano Zanin, encontrou mensagens enviadas por Thiago em 28 de junho de 2024 ao desembargador Helvécio de Brito Maia, avisando-o da existência de uma investigação contra o magistrado. O advogado explicou que obteve a informação “por ter alguns companheiros” em Brasília “que ficam 24 horas monitorando, e aí tendo acesso aí sempre às informações”.
O desembargador está afastado das funções desde agosto de 2024, por decisão do corregedor Nacional de Justiça, ministro Mauro Campbell, que também é relator docaso de Wanderlei no STJ. Os vazamentos de Thiago chegaram à PGR em setembro, com a prisão de Felipe Alexandre Wagner, assessor do subprocurador-geral da República Hindemburgo Chateaubriand.
A acusação partiu da própria PGR, após a menção a Felipe em mensagens trocadas entre o prefeito de Palmas, José Eduardo de Siqueira Campos, e Thiago, sobrinho de Wanderlei, em 26 de junho de 2024, sobre as operações Fames-19 e Maximus.
Por trabalhar com Chateaubriand, Felipe cuidava de processos, principalmente criminais, que tramitam no Superior Tribunal de Justiça — corte responsável por julgar governadores e desembargadores. Após a prisão do assessor, Chateaubriand afirmou não poder comentar sobre o caso devido ao sigilo judicial.
Todos os citados nas investigações negam, desde o início das apurações, ter qualquer envolvimento com os crimes citados pelas autoridades.
Esperança Suprema
Antes de retornar ao cargo, Barbosa teve um recurso negado no STF por Luís Roberto Barroso, atualmente aposentado do STF, em outubro. Naquele momento, o então ministro concordou com a Procuradoria-Geral da República, que via risco às investigações caso o político estivesse no comando do estado.
Mas a PGR mudou de opinião e, apesar do afastamento de Barbosa ter sido confirmado por unanimidade pela corte especial do STJ, Nunes Marques entendeu que a decisão pelo afastamento do governador não tinha “fundamentação robusta” e poderia provocar “grave instabilidade política e jurídica” nas eleições de 2026.
A decisão de Nunes Marques será analisada pela 2ª Turma do STF, integrada Gilmar Mendes, Dias Toffoli, Nunes Marques, André Mendonça e Luiz Fux. A defesa do governador afastado é feita por Marcos Pereira e pelos escritórios Mudrovitsch Advogados e Moreira & Schegerin Advogados.
Marcos Pereira foi vice-presidente da Câmara dos Deputados na gestão Arthur Lira e preside o Republicanos, partido de Barbosa. O Mudrovitsch Advogados pertence a Rodrigo Mudrovitsch, advogado de Gilmar Mendes, decano do STF que também tem boa relação com Pereira.
Já o escritório Moreira & Schegerin Advogados tem entre seus sócios Alberto dos Santos Moreira. O advogado recebeu 20 milhões de reais em honorários em dezembro de 2023, após intermediar um acordo com a gestão Barbosa. O combinado previu o encerramento de um processo judicial movido por um cliente de Moreira em troca do pagamento de quase 86 milhões de reais pelo governo do Tocantins.
O Brasilianista permanece aberto para receber manifestações, posicionamentos ou esclarecimentos de todas os citados nesta reportagem. Caso queiram se pronunciar sobre o tema, os canais da redação estão à disposição.

