A sequência de recordes da bolsa brasileira nas últimas semanas de 2025 impulsionou o desempenho dos fundos de ações. Em diversos casos, essas carteiras superaram tanto os juros quanto o próprio Índice Bovespa, que acumula valorização próxima de 30% no ano.
Entre os fundos com patrimônio acima de R$ 500 milhões, os maiores retornos ultrapassaram 80% até 10 de dezembro. Ao todo, 19 produtos renderam mais de 40% no período, segundo levantamento do InfoMoney com dados da Economática.
Fundos livres lideram ganhos
Os melhores resultados se concentraram nos fundos da categoria Livre, que permite maior liberdade ao gestor e estratégias mais concentradas por setor ou empresa. Um exemplo é o Infrad, da Radar Investimentos, voltado ao segmento de infraestrutura.
Além desses, aparecem entre os destaques um fundo de dividendos da Bradesco Asset e um fundo de Ibovespa ativo da Itaú Asset, que busca superar o desempenho do índice de referência.
Resgates batem recorde
Apesar da forte valorização, os fundos de ações registraram saída líquida de R$ 52,8 bilhões em 2025. Trata-se do maior volume de resgates desde o início da série histórica da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), em 2006.
“Isso prova a importância da diversificação, quem imaginaria no começo do ano que a renda variável seria a mais rentável?”, afirmou Rachel de Sá, estrategista de Investimentos no Research da XP Investimentos, durante o evento Onde Investir 2026.
Segundo ela, uma alocação equilibrada consegue atravessar períodos de incerteza e ainda entregar bons retornos.
Juros e impacto nas ações
A dinâmica dos juros segue como fator central para o mercado acionário. Antonio Sanches, analista do Research da Rico Investimentos, explica que taxas elevadas afetam tanto a atividade econômica quanto os resultados de empresas mais endividadas.
Com a perspectiva de queda da Selic e dos juros reais, impulsionada pela desaceleração da inflação, o cenário tende a se tornar mais favorável às ações. “Você tem também o efeito positivo dos juros menores na captação dos fundos com renda variável após o investidor notar o retorno menor dos fundos de renda fixa e o ganho deste ano das carteiras de ações”, diz.
Para ele, o desempenho recente influencia decisões de alocação. “Não é que seja o correto, mas a gente sabe que há uma influência do resultado dos últimos 12 meses na decisão sobre em qual fundo ele vai aplicar.”
Volatilidade no radar
A expectativa de cortes de juros no Brasil e nos Estados Unidos, somada às eleições e à troca no comando do Federal Reserve, deve manter a volatilidade elevada em 2026. A avaliação é de Raphael “Rafi” Figueiredo, estrategista de ações no Research da XP Invest.
“A volatilidade explode em períodos pré-eleitorais, o que não é ruim, mas é um ponto para se ter atenção e operar com proteção”, afirmou durante o Onde Investir 2026. Segundo ele, a discussão fiscal do próximo governo terá impacto direto nos juros reais de longo prazo e, consequentemente, no Ibovespa.
Com base no comportamento dos juros reais, Rafi traçou três projeções para o Ibovespa em 2026. No cenário considerado mais provável, com ajuste fiscal moderado e juro real em 7,1%, o índice poderia chegar a 185.453 pontos.
No cenário pessimista, de deterioração das contas públicas e juro real de 8,5%, a estimativa recua para 144.499 pontos. Já no mais otimista, com ajuste fiscal mais rigoroso e juro real em 5,5%, o Ibovespa poderia alcançar 223.908 pontos.
“Diante da incerteza com o cenário eleitoral”, o estrategista reforça a necessidade de diversificação. “O que aprendemos em 2025 é que não é que a renda variável é o patinho bonito da história e vai seguir seu estado mais supremo e ganhar notoriedade, mas que a diversificação e a alocação dos recursos se fazem necessárias na vida do nosso cliente.”
Perspectiva para 2026
Rodrigo Santoro, head de Ações da Bradesco Asset, avalia que os dados econômicos ainda sustentam uma visão construtiva para o mercado acionário. “Acreditamos que há espaço para a bolsa andar mais e o primeiro trimestre do ano que vem será importante”, afirma.
Ele ressalta, no entanto, que o segundo semestre tende a ser mais incerto por causa do calendário eleitoral. “Vemos uma eleição apertada, bastante disputada e é muito difícil ter uma posição.”
Para Santoro, fundos com gestão ativa e foco em valor ganham relevância em ambientes mais voláteis. “É uma estratégia que oferece bom risco retorno levando em conta um segundo semestre mais volátil.”

