A advertência feita pela presidente da Moldávia, Maia Sandu, sobre a ofensiva de desinformação russa em seu país expõe mais do que uma crise regional. Ela revela a permanência de uma mentalidade imperial e expansionista que atravessa séculos da história russa e continua a orientar a ação do Kremlin. “A Moldávia é um dos poucos países que sofreram o amplo espectro dos métodos híbridos da Rússia. Mas o alvo não é a Moldávia. Somos apenas o campo de teste. O alvo é a Europa”, afirmou.
A declaração encontra eco em uma longa tradição estratégica marcada pela recusa russa em aceitar fronteiras fixas e pela constante ampliação de sua zona de influência.
O expansionismo czarista: guerras como política de Estado
No período do Império Russo, a guerra foi instrumento regular de política externa e mecanismo de construção imperial. A expansão territorial ocorreu em múltiplas direções, sempre orientada pela busca de profundidade estratégica, acesso a mares quentes e controle de rotas comerciais.
Um dos eixos centrais foi o confronto recorrente com o Império Otomano. As sucessivas Guerras Russo-Turcas, entre os séculos XVIII e XIX, permitiram à Rússia avançar sobre o Mar Negro, os Bálcãs e o Cáucaso, enfraquecendo a presença otomana e ampliando sua projeção sobre populações eslavas e cristãs ortodoxas — frequentemente usadas como justificativa política para a intervenção.
No norte da Europa, a Grande Guerra do Norte (1700–1721), travada contra a Suécia, foi decisiva para o surgimento da Rússia como potência europeia. A derrota sueca garantiu a Moscou acesso ao Mar Báltico e consolidou São Petersburgo como capital imperial e símbolo do novo status geopolítico russo.
O expansionismo também se voltou para o leste. Ao longo do século XIX, o Império Russo avançou pela Sibéria, Ásia Central e Extremo Oriente, entrando em choque com potências regionais e globais. Esse movimento culminou na Guerra Russo-Japonesa (1904–1905), quando a Rússia tentou expandir sua influência sobre a Manchúria e a Coreia. A derrota para o Japão teve impacto profundo: expôs os limites do império, acelerou tensões internas e contribuiu para a Revolução de 1905.
Esses conflitos não foram episódicos. Eles expressam uma concepção estrutural: segurança e grandeza nacional estariam condicionadas à expansão contínua do espaço imperial.
Da herança czarista ao projeto contemporâneo
A União Soviética herdou esse impulso, substituindo o discurso dinástico pelo ideológico, mas mantendo o mesmo núcleo geopolítico. A repressão violenta a qualquer tentativa de autonomia no Leste Europeu demonstrou que o império apenas mudara de linguagem.
Na Federação Russa, essa tradição reaparece sob a forma de revisionismo histórico e geopolítico. A dissolução da URSS é tratada como uma ruptura artificial, e os Estados surgidos em seu entorno são frequentemente descritos como espaços de influência legítima de Moscou.
A anexação da Crimeia, o apoio a territórios separatistas e a invasão da Ucrânia não representam desvios, mas a atualização contemporânea de uma lógica imperial antiga, agora combinada com instrumentos modernos de coerção.
Um imperialismo adaptado ao século XXI
A diferença central reside nos métodos. Ao lado da força militar clássica, a Rússia recorre hoje à guerra híbrida: desinformação, interferência eleitoral, pressão econômica e captura institucional. Trata-se de uma expansão sem anexação formal, voltada à subordinação política e estratégica de Estados vizinhos.
É nesse quadro que a Moldávia surge como laboratório. Como alertou Maia Sandu, o país não é o destino final, mas um campo de testes. A história do Império Czarista sugere que, quando a Rússia testa seus limites, raramente o faz sem ambições maiores.
O expansionismo russo, ontem territorial e hoje também informacional e institucional, permanece como eixo estruturante de sua política externa — um dado histórico que a Europa ignora por sua conta e risco.

