O chairman e sócio sênior do BTG Pactual, André Esteves, afirmou que empresas que oferecem serviços financeiros com riscos semelhantes aos dos bancos precisam estar submetidas às mesmas exigências regulatórias. A avaliação foi apresentada durante um debate no Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça, onde o executivo analisou o avanço das fintechs no Brasil e seus impactos sobre o sistema financeiro.
Segundo ele, o país construiu uma base tecnológica robusta nos últimos anos, o que favoreceu o surgimento de novos modelos de negócio no setor. “No Brasil, a infraestrutura digital progrediu muito rapidamente”, disse Esteves. “É uma Disneylândia para fintechs”, completou, ao destacar a evolução dos meios de pagamento e o desenvolvimento do Pix, fatores que impulsionaram a criação de novos produtos e empresas, de acordo com o Estadão.
O executivo ressaltou que esse movimento trouxe ganhos claros para a sociedade, como a ampliação do acesso da população a serviços bancários. Ainda assim, alertou que o crescimento acelerado do ecossistema digital exige regras mais claras para proteger usuários contra fraudes e ataques cibernéticos.
Concorrência e transformação do setor bancário
Questionado sobre a disputa por mercado com os novos players digitais, Esteves explicou que o BTG nasceu focado no atacado e só posteriormente avançou no segmento digital. Ele afirmou, em tom descontraído, que hoje se vê mais próximo das fintechs, que começaram a se expandir no Brasil em período semelhante ao da digitalização do banco.
Na análise do executivo, a dinâmica competitiva mudou nos últimos anos. Antes, bancos de investimento eram avaliados de forma menos favorável do que instituições de varejo, por conta da importância das agências físicas. “Agora, é o oposto”, disse Esteves, ao apontar que as exigências regulatórias e de capital tornaram mais complexo criar tanto bancos de investimento quanto de varejo.
Com isso, a concorrência no varejo se intensificou, já que bancos tradicionais passaram a enfrentar empresas de tecnologia que lançaram plataformas financeiras próprias. Para os clientes, o efeito foi a redução de custos e a oferta de serviços mais acessíveis.
Regulação e novos desafios com a tecnologia
Apesar dos avanços, Esteves afirmou que a principal atenção deve recair sobre a regulação. Para ele, ainda há diferenças relevantes entre o que é regulado e o que não é dentro do sistema financeiro.
Ao ser questionado se esse equilíbrio já existe, o executivo respondeu que não, citando arbitragens crescentes entre bancos, fintechs, seguradoras e empresas do mercado de capitais. Ele avaliou esse cenário como um desafio natural em momentos de grandes transformações e lembrou que as regras criadas após a crise de 2008 tornaram o sistema mais estável, mas não podem permitir a existência de estruturas paralelas sem exigências semelhantes.
No encerramento do debate, Esteves também comentou o papel da inteligência artificial no setor bancário. Segundo ele, no curto prazo, a tecnologia deve gerar principalmente ganhos de produtividade. Em um horizonte mais longo, a expectativa é que a IA influencie diretamente o desenvolvimento de produtos e serviços.

