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Política

Carnaval, poder e responsabilidade institucional

Em meio à polarização, gestos simbólicos envolvendo autoridades exigem cautela e senso de equilíbrio democrático

Carnaval, poder e responsabilidade institucional

A homenagem ao presidente Lula durante o Carnaval carioca extrapolou os limites da festa cultural, adentrando o campo sensível do simbolismo político. Não questionamos a liberdade criativa das escolas de samba ou a importância histórica de figuras públicas. A questão fundamental é outra: o compromisso institucional necessário ao se glorificar um líder de Estado durante seu mandato, principalmente em um contexto de forte divisão política e com eleições se aproximando.

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Sistemas centrados na figura do líder, de várias correntes ideológicas, logo perceberam a importância da construção simbólica da autoridade. A espetacularização do poder foi fundamental em regimes como os de Mussolini, Hitler, Stalin, Mao, Hoxha e Ceaușescu. Em diferentes circunstâncias, todos utilizaram grandes eventos públicos, paradas e celebrações organizadas para fortalecer uma narrativa heroica, frequentemente desconectada dos aspectos negativos de seus governos.

O Brasil experimentou, em sua própria dimensão, fenômeno parecido durante a era Vargas, quando a máquina de propaganda criou a imagem de um líder protetor e criador de uma nova realidade social. A experiência histórica demonstra que a idolatria personalista não surge apenas da imposição direta; frequentemente emerge da união entre aparato simbólico, fervor militante e tolerância institucional.

Não estamos sugerindo que o Brasil viva sob autoritarismo. A analogia refere-se ao método, não à equivalência histórica. A questão republicana é mais básica: é apropriado que um presidente em exercício seja alvo de uma celebração grandiosa, transmitida nacionalmente, com elementos que sugerem continuidade política e liderança salvadora? Mesmo que tecnicamente não constitua propaganda eleitoral antecipada, o impacto simbólico é incontestável.

Existe também a questão da inconsistência de critérios. É válido questionar como a maioria dos veículos de comunicação reagiria se um desfile semelhante exaltasse Bolsonaro. É plausível imaginar que as críticas seriam mais severas, enfatizando a inadequação institucional e o risco de instrumentalização cultural. Essa diferença de abordagem reforça a percepção de parcialidade crítica — elemento que corrói a credibilidade do debate público.

A questão não é restringir expressões culturais ou proibir homenagens. O que se debate é a prudência republicana. Chefes de governo não são figuras imparciais. Quando a fronteira entre celebração cultural e promoção política se torna indistinta, a responsabilidade deveria sugerir moderação — principalmente por parte do próprio homenageado.

A democracia não se consolida pela glorificação irrefletida de líderes, mas pela robustez das instituições e pela equidade nas disputas políticas. Em ambiente dividido, gestos simbólicos adquirem maior relevância. A cautela institucional, nesses casos, não representa fraqueza; é condição para a maturidade republicana.

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