A CPI do Crime Organizado no Senado ampliou a pressão sobre a Meta depois de uma audiência marcada por respostas consideradas insuficientes pelos parlamentares. A comissão ouviu nesta terça-feira (24) a diretora de políticas públicas da empresa para a América Latina, Yana Dumaresq Sobral Alves, mas terminou a sessão com o pedido de nova convocação do diretor-geral da companhia no Brasil, Conrado Leister.
O relator da comissão, senador Alessandro Vieira, criticou a ausência de dados específicos sobre o país e afirmou que o Brasil é um dos principais mercados da empresa. Para ele, a falta de métricas locais sobre crimes cometidos nas plataformas dificulta a atuação das autoridades e levanta dúvidas sobre a transparência da companhia.
Durante a audiência, parlamentares também questionaram possíveis ganhos financeiros da bigtech com anúncios ligados a fraudes digitais. O tema ganhou destaque diante do crescimento de golpes online e do papel das redes sociais na disseminação desse tipo de crime.
Pressão sobre a atuação da empresa
Segundo relatos feitos na comissão, o relator afirmou que há indícios de que a circulação de anúncios fraudulentos gera receitas bilionárias para a companhia. “Ao que tudo indica, a Meta deliberadamente vem dificultando a atuação das autoridades, porque, ao criptografar conteúdo inadvertidamente, mesmo com relatos internos de que essa criptografia vai favorecer o crime, assim o fez”, afirmou o senador.
A criptografia de ponta a ponta foi um dos pontos centrais do debate. Parlamentares apontaram que a tecnologia protege conversas privadas, mas também pode dificultar investigações criminais, já que impede o acesso ao conteúdo trocado entre usuários, conforme a Agência Senado.
A representante da empresa negou qualquer benefício financeiro com conteúdos ilegais e defendeu as políticas internas. “[Temos] interesse de manter nossas plataformas longe de atores maliciosos, de conteúdos fraudulentos; dizer que isso não está alinhado aos nossos interesses comerciais, tê-los e abrigá-los nas nossas plataformas. Por isso que nós adotamos medidas robustas, proativas e em tempo real para detectar e bloquear campanhas fraudulentas”, declarou.
Receita com golpes vira alvo da CPI
A audiência também abordou estimativas de faturamento associadas a fraudes digitais. Parlamentares citaram informações que apontariam ganhos elevados com publicidade irregular. O relator mencionou documentos que indicariam receita expressiva obtida com anúncios suspeitos e produtos proibidos.
Segundo a diretora, a empresa contesta essa interpretação e afirma que mantém programas de combate a golpes. Ela afirmou que milhões de contas ligadas a organizações criminosas foram removidas recentemente, além de um grande volume de anúncios fraudulentos eliminados das plataformas.
Ainda assim, senadores afirmaram que a falta de respostas detalhadas reforça a necessidade de novas oitivas. A avaliação é que informações mais precisas são essenciais para compreender a real dimensão do problema no país, de acordo com informações da Agência Brasil.
Dúvidas sobre proteção de crianças e adolescentes
Outro ponto sensível foi a capacidade das plataformas de detectar crimes envolvendo exploração sexual de menores. Parlamentares citaram estudos internacionais que indicam o uso de redes sociais para aliciamento de vítimas e cobraram explicações sobre ferramentas de prevenção.
Ao ser questionada sobre a eficácia dos sistemas de detecção, a executiva afirmou não ter detalhes técnicos suficientes no momento. “Não sei explicar para o senhor se as nossas ferramentas de detecção proativa, a partir de metadados, etc., são suficientes para impedir a transferência de fotos, como o senhor falou especificamente, mas quero colocar aqui o time da Meta à disposição desta Comissão”, disse.
Ela acrescentou que o tema é tratado como prioridade dentro da empresa e mencionou iniciativas voltadas ao controle parental e proteção de adolescentes. Mesmo assim, a resposta foi considerada incompleta por parte dos parlamentares.
Relator reforça convocação de executivo
A falta de respostas objetivas levou o relator a reiterar o pedido de convocação do principal executivo da companhia no país. Para ele, a substituição feita pela empresa não atendeu às expectativas da comissão.
“A empresa informou, ao pedir a substituição do diretor-geral por vossa excelência, que a senhora teria condições de atender perfeitamente [a CPI]. Novamente, em benefício desse princípio de boa-fé, que é tão bom nas relações, vamos entender que foi um erro de avaliação e vamos reiterar a convocação do diretor-geral”, afirmou o senador.
Além das lacunas apontadas, parlamentares também mencionaram dificuldades da representante em responder perguntas sobre algoritmos e limites da criptografia. O episódio reforçou a avaliação de que a comissão ainda precisa aprofundar as investigações.
Debate pode avançar para regulação
Ao longo da audiência, também surgiu a discussão sobre a necessidade de mudanças legislativas. Senadores argumentaram que o avanço do crime digital exige novas regras para responsabilizar plataformas e ampliar mecanismos de cooperação com autoridades.
Na avaliação de integrantes da CPI, o crescimento das redes sociais ampliou o alcance de fraudes, golpes e crimes organizados, o que exigiria respostas mais rápidas do Estado. A possibilidade de regulamentação mais rígida foi citada como um caminho provável após o encerramento dos trabalhos da comissão.
A sessão evidenciou o clima de tensão entre parlamentares e representantes da empresa, com cobranças por mais transparência e colaboração nas investigações. O caso deve ganhar novos capítulos com a possível convocação do diretor-geral da companhia no país.

