As taxas de inadimplência no crédito privado podem dobrar nos próximos anos, cenário em que credores poderão arcar com todas as consequências negativas das mudanças. O alerta é da empresa suíça de gestão de investimentos global Partners Group, que acredita que investidores serão atingidos pela disrupção econômica impulsionada pela IA, enquanto convivem cada vez mais com ganhos limitados.
A análise prevê que os danos negativos das mudanças estruturais na economia impulsionadas pela Inteligência Artificial serão desproporcionais em comparação com o capital privado. Segundo informações da TradingView, o risco pode ocorrer porque a transformação econômica pode gerar uma divisão maior nos resultados das empresas, o que pode fazer com que algumas tenham desemprenho mais positivos do que outras.
Piora da qualidade do crédito
Em um momento de maior cautela dos investidores, que receiam a piora da qualidade do crédito, cresce a preocupação com o aumento da inadimplência nos próximos anos. O presidente da Partners Group, Steffen Meister, afirma que a inadimplência anual no crédito privado teve uma média de 2,6% na última década. Segundo ele, as taxas de inadimplência eram consideradas “tão baixas” que os credores de crédito privado utilizavam carteiras diversificadas de empréstimos que apresentavam alto retorno econômico.
Recentemente, uma decisão envolvendo a BlackRock elevou a tensão entre agentes do setor, que movimenta cerca de US$ 2 trilhões. A empresa limitou os resgates de um de seus principais fundos de dívida após um aumento repentino nos pedidos de resgate. Já a Blackstone revelou que seu fundo de crédito privado, chamado de BCRED, registrou um aumento repentino nos resgates de dinheiro no primeiro trimestre.
Como resultado, o fundo precisou repassar cerca de US$ 1,4 bilhão em empréstimos privados no mercado secundário na tentativa de gerar liquidez. Os últimos acontecimentos impressionam, já que por muitos anos o crédito privado ganhou espaço como alternativa de rendimento, conforme afirma a Exame.
Falências geraram ansiedade
Entre os fatores que alimentam as preocupações em torno do setor está a ansiedade gerada pela recente falência da fabricante de autopeças First Brands, bem como pelo fechamento da empresa de empréstimos subprime Tricolor no ano passado. Com isso, aumentaram os receios entre investidores e gestores de que novos episódios de inadimplência possam surgir, o que pressiona ainda mais o mercado de crédito privado.
De acordo com a Partners Group, esses episódios intensificaram a fiscalização sobre o mercado que apresentou crescimento acelerado nos últimos anos, atraindo grandes investimentos institucionais e aumentando os empréstimos corporativos ao longo dos anos.
O receio surge a partir também das mudanças nos perfis de investidores, que procuram setores mais seguros ou têm migrado para títulos públicos. De acordo com o professor de finanças da Fundação Getulio Vargas (FGV), Pierre Souza, a tendência é uma da migração da renda fixa do crédito privado para títulos do governo, o que, na realidade, pode pressionar cada vez mais os fundos.
“Quando eu tenho um título seguro e líquido, como título do governo, pagando juros relativamente altos, a tendência é uma migração da renda fixa do crédito privado para um crédito público”, disse Pierre Souza a Exame.
Crédito Privado
O investimento no setor de crédito privado consiste no aporte em renda fixa a partir da compra de títulos emitidos por empresas e instituições privadas. O setor, considerado promissor, entende que o investidor coloca em risco o crédito em troca da rentabilidade, ao qual é estabelecida pelas empresas, conforme explica a XP.
O investimento, que estabelece no momento da contração todas as condições, permite retorno maiores aos dos títulos públicos, e, por isso, chama atenção de milionários. Além disso, o setor tem liquidez secundária para grande parte dos títulos, bem como permite a diversificação a partir da variedade de setores da economia em que possa haver o tipo de investimento.

