As declarações do presidente argentino, Javier Milei, em Nova York, provocaram reação direta da imprensa iraniana. Em artigo, o jornal Tehran Times criticou o posicionamento do líder argentino, que chegou a se definir como “o presidente mais sionista do mundo”, além de classificar o Irã como inimigo e apostar na vitória do Estados Unidos e Israel no conflito no Golfo Pérsico.
O movimento não ocorreu de forma isolada. O governo já vinha demonstrando alinhamento com Washington e chegou a sinalizar apoio militar, caso fosse solicitado. De acordo com o jornal espanhol El Mundo, essa postura levou o Irã a interpretar que Buenos Aires se colocou oficialmente contra Teerã, cruzando uma “linha vermelha imperdoável” e justificando uma “resposta proporcional”.
Na avaliação de Eduardo Galvão, especialista em risco político e professor do Ibmec DF, a capacidade Argentina de atuação militar fora do seu território é restrita e não é suficiente para alterar o rumo de um eventual conflito no Oriente Médio. Em entrevista ao O Brasilianista, ele aponta que a eventual participação do país teria caráter mais simbólico do que efetivo.
Essa colaboração, segundo ele, se concentra mais em áreas como logística, inteligência, cooperação técnica ou envio de contingentes limitados, o que reforça mais um posicionamento político do que uma atuação militar decisiva. Em outras palavras, a iniciativa indica mais intenção geopolítica do que força operacional.
“O país tem capacidades militares limitadas para projeção externa, com baixo investimento histórico e restrições logísticas para operar em um campo complexo e distante como o Oriente Médio. Mesmo com esforços recentes de modernização, como a aquisição de caças, não há escala nem estrutura para desempenhar papel militar relevante em combate direto ao lado dos EUA”, afirma Galvão.
Pressão sobre o Brasil
A mudança de posicionamento argentino produz efeitos em toda a América do Sul. Quando um país relevante da região assume um lado em um conflito internacional, altera-se o padrão de expectativa sobre os demais. O Brasil pode enfrentar maior pressão, sobretudo de atores alinhados aos Estados Unidos, para explicitar sua posição.
Apesar disso, a política externa brasileira opera sob lógica distinta. O país preserva margem de manobra ao manter uma postura menos definida, o que permite atuar com maior flexibilidade e capacidade de interlocução, mesmo diante do contraste crescente em relação à Argentina.
Apoio militar brasileiro
Em um governo de perfil bolsonarista, a tendência seria de maior proximidade no campo diplomático e retórico. Ainda assim, isso não significaria, automaticamente, envolvimento militar direto. A participação em um conflito envolve custos políticos, institucionais e sociais elevados, além de esbarrar na tradição diplomática brasileira.
O movimento mais provável seria o reforço de cooperação indireta, como troca de informações e apoio político. Sob a liderança de Lula, a possibilidade de engajamento militar é praticamente descartada, diante da ênfase na contenção de conflitos, no respeito ao direito internacional e na rejeição à escalada.
As diferenças ideológicas entre os governos de Brasil e Argentina já impactam a dinâmica bilateral, embora não comprometam os vínculos estruturais. A relação segue sustentada por interdependência econômica e institucional, mesmo em meio a tensões políticas.
Em um ano eleitoral e de manutenção da política externa de Milei, a tendência é de maior distanciamento no plano político, com aumento do atrito no discurso e redução da coordenação estratégica. Ainda assim, não se projeta ruptura, mas sim uma convivência com desconforto e pragmatismo.
No campo econômico, isso abre espaço para acordos com os Estados Unidos que entrem em choque com as regras do Mercosul. Ao mesmo tempo, em ambiente internacional pressionado pela guerra já impacta energia, cadeias logísticas e percepção de risco, com reflexos sobre custos operacionais, segurança jurídica e reputação de empresas nos dois países.
Estratégia de Milei
O movimento do presidente argetino não se limita à afinidade ideológica, mas também busca ampliar oportunidades econômicas, fortalecer a credibilidade externa e se distanciar de uma tradição diplomática mais ambígua na região.
Como avalia Eduardo Galvão, é um reposicionamento que transforma alinhamento político em ativo estratégico, ainda que envolva incertezas sobre seus resultados.
Esse caminho, no entanto, traz custos potenciais. Uma postura mais assertiva intensifica tensões diplomáticas com países diretamente envolvidos no conflito e gerar críticas internas ao inserir a Argentina em uma agenda de segurança internacional na qual sua capacidade de influência é restrita.
Essa escolha deve ser lida como uma troca entre autonomia e proximidade com centros de poder, em um movimento cujo retorno permanece incerto ou nas palavras do próprio especialista, “a aposta de Milei é trocar autonomia relativa por maior proximidade com poder”.

