A possibilidade de uma trégua temporária no Oriente Médio não foi suficiente para reduzir a preocupação com a economia global. Durante reuniões internacionais em Washington, o presidente do Banco Mundial, Ajay Banga, chamou atenção para um problema estrutural que pode ganhar proporções ainda maiores nos próximos anos: a falta de empregos em larga escala nos países em desenvolvimento.
De acordo com estimativas apresentadas por Banga, cerca de 1,2 bilhão de pessoas devem ingressar no mercado de trabalho nessas economias nas próximas décadas. No entanto, a capacidade de geração de vagas não acompanha esse crescimento. A projeção indica que apenas 400 milhões de postos serão criados, o que abre um déficit próximo de 800 milhões de empregos.
Segundo o G1, o alerta foi feito em meio a um cenário de instabilidade global, agravado por conflitos geopolíticos recentes e pelas consequências econômicas que ainda persistem desde a pandemia de Covid-19. Mesmo com a atenção voltada para a guerra envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã, o dirigente destacou que os desafios de longo prazo não podem ser ignorados.
Pressão global e efeitos econômicos
O encontro que reúne autoridades financeiras ocorre em um momento de incerteza. A trégua anunciada pelo governo norte-americano reduziu parte dos ataques no Oriente Médio, mas não eliminou os riscos para a economia mundial. O bloqueio no Estreito de Ormuz, por exemplo, ainda impacta o fornecimento global de energia, o que pode pressionar preços e desacelerar o crescimento.
Nesse cenário, a criação de empregos passa a ser vista como um dos principais pilares para evitar desequilíbrios sociais e econômicos. O próprio presidente do Banco Mundial afirmou que é necessário lidar simultaneamente com crises imediatas e problemas estruturais.
“Temos de andar e mascar chiclete ao mesmo tempo. O que estamos vivendo agora é um ciclo de curto prazo de ritmo acelerado. No prazo mais longo, o ritmo está ligado a essa situação do emprego ou da água”, disse Banga em entrevista.
A dificuldade de absorver milhões de trabalhadores em idade ativa pode ampliar desigualdades, aumentar a informalidade e pressionar governos por políticas públicas mais robustas. Países em desenvolvimento, como o Brasil, estão diretamente inseridos nesse contexto.
Brasil apresenta melhora, mas com desafios
No cenário nacional, os dados mais recentes indicam avanço no mercado de trabalho, mas com limitações. Conforme já explicado pelo O Brasilianista, a taxa de desemprego no Brasil caiu para 5,4% no trimestre encerrado em janeiro de 2026, o menor nível para o período desde 2012.
Apesar da redução, o número absoluto ainda chama atenção. Cerca de 5,9 milhões de brasileiros seguem sem ocupação. Ao mesmo tempo, o país alcançou 102,7 milhões de pessoas trabalhando, com crescimento anual de 1,7 milhão de vagas.
Parte dessa melhora, no entanto, está associada à expansão de empregos informais. A taxa de informalidade permanece elevada, atingindo 37,5% da população ocupada. Isso significa que milhões de trabalhadores estão fora de vínculos formais, sem garantias trabalhistas e com maior instabilidade de renda.
Outro dado relevante é o nível de subutilização da força de trabalho, que inclui pessoas que poderiam trabalhar mais ou que desistiram de procurar emprego. Esse grupo soma cerca de 15,7 milhões de brasileiros, o que indica que o mercado ainda não absorve plenamente toda a mão de obra disponível.
Cenário interno diante da crise global
O avanço do emprego no Brasil ocorre em paralelo ao crescimento econômico recente. O país registrou um Produto Interno Bruto de R$ 12,7 trilhões em 2025, com expansão de 2,3%. Os dados mostram continuidade na recuperação após os impactos da pandemia.
Ainda assim, o cenário internacional pode influenciar diretamente esse desempenho. Uma desaceleração global, causada por conflitos ou instabilidade no fornecimento de energia, tende a afetar exportações, investimentos e geração de empregos.
Nesse contexto, o Brasil pode enfrentar um duplo desafio: manter o ritmo de criação de vagas e, ao mesmo tempo, melhorar a qualidade desses empregos. A dependência de ocupações informais pode limitar o crescimento sustentável e aumentar a vulnerabilidade social.
Além disso, a entrada de novos trabalhadores no mercado ao longo dos próximos anos exige políticas voltadas à qualificação profissional e estímulo a setores produtivos. Sem isso, o país pode acompanhar a tendência global de déficit de empregos, ainda que em menor escala.

