Jerome Powell pode encerrar sua trajetória à frente do Federal Reserve em um dos momentos mais observados da política econômica global. A reunião desta quarta-feira (29), que manteve a taxa de juros entre 3,5% e 3,75%, é tratada como a provável última decisão de juros sob seu comando, fechando uma gestão iniciada em 2018 e atravessada por choques históricos. No período, ele enfrentou ataques públicos de Donald Trump, comandou ações emergenciais durante a Covid-19 e depois liderou a reação à inflação mais forte em décadas.
Segundo a Reuters, Powell chegou à presidência do Fed indicado por Trump, substituindo Janet Yellen. Herdou uma economia com desemprego baixo, inflação abaixo da meta de 2% e crescimento em aceleração. A expectativa inicial era de continuidade, com ajustes graduais na taxa básica de juros e pouca turbulência política.
Esse cenário durou pouco. Trump passou a pressionar publicamente por cortes de juros, alegando que taxas menores ajudariam a economia e favoreceriam a competitividade americana. Powell manteve a postura de independência institucional e seguiu com decisões baseadas nos indicadores econômicos.
As divergências ganharam repercussão internacional. O presidente dos Estados Unidos criticava o chefe do banco central em entrevistas e redes sociais, algo incomum para o padrão histórico entre a Casa Branca e o Fed. Mesmo sob pressão, Powell evitou responder diretamente durante boa parte do mandato.
Crise sanitária mudou o rumo da gestão
O capítulo mais decisivo da passagem de Powell começou em 2020, quando a pandemia paralisou empresas, derrubou mercados e ameaçou empregos em massa. Em poucas semanas, o Fed reduziu os juros para perto de zero e lançou programas extraordinários de liquidez.
Também foram retomadas compras bilionárias de títulos públicos e privados para sustentar o funcionamento do sistema financeiro. Em coordenação com o Tesouro americano, a autoridade monetária abriu linhas especiais de crédito para evitar falta de financiamento em diversos setores.
Naquele momento, Powell admitiu o tamanho da resposta adotada. “Cruzamos muitas linhas vermelhas. Esta é aquela situação em que você faz isso e resolve depois”, afirmou.
As medidas ajudaram a estabilizar o mercado financeiro e reduzir o risco de uma recessão ainda mais profunda. Ao mesmo tempo, o volume de estímulos passou a ser questionado nos anos seguintes, quando os preços começaram a subir com força.
Conforme explicado pelo O Brasilianista, a atuação do Fed tem impacto direto sobre juros, câmbio, investimentos e inflação em vários países, já que os Estados Unidos concentram a maior economia do planeta e o dólar ocupa posição central no sistema financeiro internacional.
Inflação alta exigiu mudança rápida
Depois da fase aguda da pandemia, a inflação americana acelerou e alcançou o maior patamar em cerca de 40 anos. Em um primeiro momento, integrantes do Fed consideraram que a pressão seria passageira. A leitura acabou revista diante da persistência da alta de preços.
A partir de 2022, Powell conduziu uma sequência intensa de aumentos nos juros. O objetivo era frear consumo, reduzir pressões inflacionárias e reequilibrar a economia. O movimento elevou custos de crédito para famílias e empresas, mas recolocou o combate à inflação no centro da política monetária.
Em discurso naquele período, Powell reconheceu que o processo teria efeitos negativos. Disse que a alta das taxas causaria “alguma dor”, com crescimento menor e enfraquecimento do mercado de trabalho.
Apesar do aperto monetário, os Estados Unidos evitaram uma recessão ampla. O desemprego permaneceu em níveis historicamente baixos durante boa parte do ciclo, fator visto por analistas como um dos pontos centrais de sua gestão.
Saída pode fechar ciclo de confronto
Powell pode deixar o cargo novamente sob críticas de Trump, personagem que marcou o início e o possível fim de sua passagem pelo Fed. Nos meses finais, também enfrentou investigação relacionada aos custos de reforma da sede da instituição em Washington, caso encerrado posteriormente.
Em janeiro, respondeu de forma rara e direta ao ambiente político: “Uma consequência de o Federal Reserve definir taxas de juros com base em nossa melhor avaliação do que servirá ao público, em vez de seguir as preferências do Presidente”.
A declaração foi interpretada como defesa pública da autonomia do banco central. Para aliados de Powell, a fala simbolizou o encerramento de um mandato em que a independência institucional esteve em disputa constante.

