Uma negociação envolvendo o Banco de Brasília (BRB), investidores liderados pelo empresário José Ricardo Lemos Rezek e integrantes da antiga gestão da instituição passou a ser tratada internamente como um dos episódios mais delicados deixados pela administração de Paulo Henrique Costa. A operação, que previa a venda de 49% da BRB Financeira, acabou cancelada após questionamentos do Banco Central e o avanço das investigações relacionadas ao Banco Master.
Segundo O Globo, a transação previa que o grupo de investidores pagasse R$ 320 milhões pela participação na financeira do BRB em parcelas distribuídas ao longo de dez anos. Integrantes do banco apontavam que os lucros anuais da empresa giravam em torno de R$ 90 milhões, valor considerado suficiente para cobrir os pagamentos previstos no contrato.
As tratativas para o acordo começaram ainda em 2024, mas o anúncio oficial ocorreu em março de 2025, poucos dias após o BRB divulgar a compra do Banco Master. O caso voltou a chamar atenção depois da prisão de Daniel Vorcaro e da liquidação da instituição financeira.
José Ricardo Lemos Rezek é apontado como próximo do presidente nacional do União Brasil, Antonio Rueda. O empresário esteve entre os convidados da comemoração de aniversário de Rueda realizada em Mykonos, na Grécia, no ano passado. Além disso, o pai dele, José Ricardo Rezek, aparece em registros do Tribunal Superior Eleitoral como doador de R$ 1,5 milhão ao diretório nacional do partido em 2023.
Banco Central questionou operação
De acordo com relatos de pessoas envolvidas nas discussões, o Banco Central identificou problemas na comprovação da origem dos recursos utilizados pelos investidores na tentativa de compra da participação da BRB Financeira. O órgão chegou a barrar a transferência de capital enquanto analisava o caso.
As apurações internas sobre operações relacionadas ao Banco Master já estavam em andamento naquele período. Com isso, integrantes do BC passaram a acompanhar também os desdobramentos da negociação envolvendo a subsidiária do BRB.
O negócio teve um desfecho definitivo após reuniões realizadas em novembro de 2025, logo depois da liquidação do Banco Master e da prisão de Daniel Vorcaro. Na ocasião, representantes do Banco Central discutiram medidas sobre a situação do BRB e alertaram integrantes da instituição de que a operação da financeira poderia ser cancelada pelo próprio regulador caso não fosse desfeita voluntariamente.
Fontes ligadas ao banco afirmam ainda que Paulo Henrique Costa teria sido avisado mais de uma vez sobre possíveis prejuízos ao BRB e sobre características consideradas incomuns na estrutura da negociação. Mesmo assim, o processo continuou até o cancelamento oficial, anunciado no fim daquele ano.
Empresário nega influência política
Procurado, Antonio Rueda não respondeu aos questionamentos. Já José Ricardo Lemos Rezek afirmou, por meio de nota, que a negociação teve caráter exclusivamente comercial e negou qualquer interferência política.
O empresário declarou também que o próprio grupo decidiu desistir da compra após análises de mercado e avaliações técnicas relacionadas ao cenário financeiro da época.
Sócios de Rezek na operação, Carla Pontes e André Azin afirmaram que ele seria responsável pela maior parte dos recursos destinados ao negócio. Segundo eles, cada um teria participação de 5%, enquanto Rezek concentraria 39% da fatia negociada.
Os dois disseram ainda que não conhecem Antonio Rueda pessoalmente e afirmaram ter deixado o acordo após o anúncio da compra do Banco Master pelo BRB, diante das incertezas envolvendo a operação. Apesar disso, a rescisão formal só ocorreu meses depois.
Carla Pontes também afirmou que desconhecia eventuais dúvidas do Banco Central sobre a capacidade financeira do grupo ou sobre a origem dos recursos utilizados. Segundo ela, a parte financeira da negociação era conduzida diretamente por Rezek.

