Lula tem dito aos integrantes mais próximos de suas equipes de campanha e de governo que Tarcísio de Freitas enfrentará um cenário complicado nas eleições deste ano em São Paulo (SP). Pessoas próximas ao presidente afirmaram que o petista não vê o governador com muito apoio entre os prefeitos no estado.
Tarcísio de Freitas nunca teve o controle sobre os prefeitos em SP, como aconteceu com governadores tucanos que o antecederam. Essa diferença existe porque o PSDB foi o partido hegemônico no estado desde a metade dos anos 1990 até a eleição do atual governador, que é filiado ao Republicanos, partido ligado à Igreja Universal.
Como Tarcísio nasceu no Rio de Janeiro e construiu sua carreira em Brasília — com muita ajuda de Valdemar Costa Neto —, sua capilaridade política depende de Gilberto Kassab, presidente do PSD e ex-secretário da atual gestão do governo paulista.
Foi o PSD o responsável por acabar com a hegemonia do PSDB em São Paulo. Num processo que levou anos, Kassab foi atraindo lideranças tucanas paulistas até conseguir, nas eleições de 2024, eleger 206 prefeitos somente em SP; total que representa 32% de todas as prefeituras paulistas.
Também partiu do PSD a organização da base política que levou Tarcísio de Freitas ao Palácio dos Bandeirantes, sede do governo paulista. Kassab foi quem ajudou Tarcísio a se filiar ao Republicanos e foi quem convenceu os políticos de SP que o ‘estrangeiro’ seria uma aposta competitiva.
É com base nesse cenário que Lula vê o governador de SP ainda tendo que convencer alianças para além da capital paulista, onde manda em Ricardo Nunes, prefeito paulistano filiado ao MDB. Sem Kassab tão presente, Tarcísio de Freitas terá que reconquistar seus aliados dos últimos quatro anos.
A ausência de Kassab é explicada por diversos fatores, entre eles a disputa eleitoral antecipada no Rio de Janeiro, com a vacância no governo estadual, as negociações de alianças para a eleição presidencial e a candidatura de Ronaldo Caiado à Presidência da República.
Pesa ainda contra Tarcísio de Freitas a sensação de insegurança dos paulistas. Pesquisa divulgada pelo DataFolha em abril de 2025 mostrou que 64% da população do estado teme ser vítima de algum crime. O governador de SP terá como missão fazer com que a população entenda o cenário da Segurança Pública.
Dados de 2025 divulgados pelo governo de SP em janeiro deste ano mostram queda nos índices de furtos, roubos, homicídios e latrocínios. Na comparação com 2024, as maiores quedas registradas foram de roubo de carga (26%), Latrocínio (22%), roubo de veículo (21) e lesão corporal seguida de morte (11%).
Mas essa melhora nos números da Segurança Pública paulista vêm com um preço que pode ser explorado pelo PT: os registros sobre violência policial têm aumentado da mesma forma. Somente em janeiro e fevereiro deste ano, a letalidade policial aumentou 35%. Foram 103 vítimas no primeiro bimestre de 2026 contra 76 no mesmo período do ano passado.
A maioria dessas ocorrências, conforme dados do Ministério Público de São Paulo, foi na Baixada Santista, e os agentes não usavam câmeras corporais. A Baixada Santista registrou em janeiro e fevereiro deste ano 84 mortes com indícios de irregularidades.
É nessa região do estado onde a Polícia Militar de São Paulo (PMSP) tem feito operações especiais para combater a infiltração de facções criminosas vindas do Rio de Janeiro. As incursões começaram após um soldado da Rota, tropa de elite da PM paulista, ser morto em 2023, durante uma perseguição a criminosos numa das favelas da região.
Uma fonte do governo de SP disse a O Brasilianista que as operações servem para evitar que “São Paulo vire o Rio de Janeiro”. Policiais ouvidos sob anonimato afirmaram que a infiltração das facções fluminenses no litoral santista mudam a dinâmica da convivência entre a sociedade e o crime organizado.
Segundo esses policiais, a tomada de território exige troca de tiro entre os criminosos rivais, fazendo com que moradores que moram nos arredores das áreas em disputa chamem a polícia, que é alvejada ao chegar ao local para atender a ocorrência — algo não tão comum com o PCC e outras facções paulistas.
A paternidade sobre o combate ao crime organizado, responsável por parte dos crimes que apresentaram redução de ocorrências em SP, será uma das disputas travadas entre Tarcísio e Haddad na campanha deste ano. O governador de SP usará os números favoráveis para mostrar que está enfrentando a violência.
Porém, Haddad poderá dizer que atacou o bolso do crime organizado e alijou até doadores de campanha de Tarcíscio, como Fabiano Zettel, cunhado de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master e maior doador individual à campanha do governador paulista em 2022, com aporte de R$ 2 milhões.
Além do Caso Master, Haddad vai citar a operação Carbono Oculto como outro exemplo de asfixiamento financeiro do crime organizado. A investigação, que mostrou a infiltração do crime organizado no mercado formal por meio de postos de gasolina em SP, implicou diretamente um setor que tende a apoiar Tarcísio: o mercado financeiro instalado na avenida Faria Lima, em São Paulo.
No caso da Carbono Oculto, Tarcísio também poderá dizer que cortou os dutos do dinheiro do crime, pois a polícia civil de SP e o MInistério Público estadual investigam o mesmo caso. Desde então, governo federal e paulista disputam os holofotes da imprensa no caso.
Mas a disputa de Tarcísio e Haddad pelo sucesso das investigações ou pelo governo de São Paulo neste ano são apenas os testes de ambos para o pleito de 2030, quando ambos devem ser os mais cotados para disputar a Presidência da República.
Tarcísio sabe que disputar a eleição presidencial agora seria demasiadamente arriscado, por diversos fatores, que vão de Lula como adversário até a necessidade de ser conhecido nacionalmente num curto prazo. Haddad não pode disputar a Presidência da República porque o atual presidente, além de ser seu padrinho político e querê-lo concorrendo ao governo de SP, mostra com frequência nas redes sociais ter vitalidade para mais um mandato.

