A Polícia Federal (PF) recusou a proposta de delação premiada apresentada por Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, após considerar insuficientes as informações entregues pelo banqueiro sobre o esquema investigado na Operação Compliance Zero. A decisão foi comunicada à defesa de Vorcaro nesta terça-feira (20).
Como informou O Brasilianista, investigadores avaliaram que Vorcaro deixou de apresentar detalhes considerados essenciais para o avanço das investigações.
A avaliação interna da PF é de que o banqueiro teria omitido informações e protegido pessoas que ajudaram a manter o funcionamento do esquema de fraudes atribuído ao Banco Master.
A investigação apura um rombo estimado em R$ 50 bilhões no Fundo Garantidor de Crédito (FGC), mecanismo responsável por garantir aplicações financeiras em instituições bancárias.
Polícia Federal apontou omissões na proposta
A recusa da colaboração premiada ocorreu dois dias após Daniel Vorcaro ser transferido para uma cela comum da Superintendência da Polícia Federal, em Brasília.
Antes da mudança, o banqueiro permanecia numa cela de Estado-Maior reformada anteriormente para receber o ex-presidente Jair Bolsonaro.
A alteração na custódia passou a ser interpretada nos bastidores da investigação como um indicativo de desgaste nas negociações entre a defesa do empresário e os investigadores.
Os responsáveis pelo caso consideraram a proposta apresentada “aquém” do esperado diante do nível de conhecimento que Vorcaro teria sobre a estrutura investigada.
Além das informações consideradas incompletas, outro ponto de conflito envolve os valores exigidos para ressarcimento dos prejuízos provocados pelo esquema financeiro.
A defesa de Vorcaro propôs devolver R$ 40 bilhões ao longo de dez anos. A Polícia Federal e o Ministério Público Federal, porém, exigem pagamento superior, estimado em R$ 60 bilhões, além de prazo menor para compensação dos danos.
Regras para delação ficaram mais rígidas
As exigências feitas pela Polícia Federal seguem parâmetros que passaram a ser aplicados de forma mais rigorosa após mudanças na legislação da colaboração premiada.
O criminalista Leandro Sarcedo, professor da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP), explicou anteriormente ao O Brasilianista que, desde o pacote anticrime aprovado em 2019, o colaborador precisa apresentar relato integral e provas efetivas para conseguir benefícios no acordo.
“O colaborador não pode mentir, omitir ou esconder informações. Ele precisa trazer elementos concretos que acrescentem algo à investigação”, afirmou Sarcedo.
O advogado também explicou que o investigado assume obrigações permanentes ao aderir à colaboração premiada, incluindo o compromisso de dizer a verdade em depoimentos futuros e abrir mão do direito ao silêncio em relação aos fatos confessados.
As mudanças na legislação reduziram a margem para acordos considerados vagos ou incompletos, principalmente em investigações envolvendo crimes financeiros complexos e estruturas empresariais.
Caso ampliou tensão dentro da própria PF
Enquanto as negociações da delação avançavam, a Operação Compliance Zero também passou a gerar disputas internas dentro da Polícia Federal.
Como mostrou O Brasilianista, a investigação entrou em nova fase após suspeitas de vazamento de informações sigilosas atribuídas a um perito da corporação. O episódio ampliou divergências antigas entre delegados e peritos federais sobre autonomia técnica e controle de acesso a provas.
Delegados defendem maior centralização da investigação sob autoridade policial responsável pelo caso. Já os peritos argumentam que a independência técnica é necessária para garantir qualidade e imparcialidade das análises.
A Associação Nacional dos Peritos Criminais Federais (APCF) informou que acompanha os desdobramentos da investigação e declarou que atuará para preservar o devido processo legal e a cadeia de custódia das provas.
O episódio ganhou repercussão num momento em que a Polícia Federal aparecia como a instituição de maior confiança entre os brasileiros.
Operação passou a atingir políticos e autoridades
A situação de Daniel Vorcaro ficou mais delicada após novas fases da investigação alcançarem figuras políticas ligadas ao banqueiro.
A Polícia Federal realizou operação envolvendo o senador Ciro Nogueira (PP-PI), apontado pelos investigadores como parceiro político de Vorcaro.
As apurações identificaram supostos pagamentos mensais feitos pelo banqueiro ao senador, além de despesas com hotéis, restaurantes e viagens de luxo.
A investigação também passou a envolver discussões sobre possíveis relações entre empresários, operadores financeiros, integrantes do sistema bancário e agentes públicos.
Mesmo após a recusa da proposta inicial, a defesa de Daniel Vorcaro ainda poderá apresentar nova tentativa de acordo de colaboração premiada.
Para isso, porém, investigadores exigem informações mais detalhadas, provas adicionais e esclarecimentos considerados essenciais para avançar sobre a estrutura financeira investigada pela Operação Compliance Zero.

