Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, voltou a mudar sua estratégia de defesa e deverá retomar as negociações para firmar um acordo de colaboração premiada.
O escritório Bialski Advogados Associados assumiu a defesa do banqueiro, preso desde março na Penitenciária Federal de Brasília, e deverá apresentar novos elementos à Polícia Federal e à Procuradoria-Geral da República para tentar viabilizar uma delação.
Vorcaro já havia apresentado uma proposta formal de colaboração em maio deste ano. No entanto, investigadores consideraram que as informações entregues eram insuficientes, pois reproduziam fatos que já eram de conhecimento das autoridades.
A troca de advogados ocorre poucos dias depois de a defesa anterior abandonar as negociações e representa a segunda mudança na equipe jurídica desde a prisão do empresário.
Apontado pelas investigações como líder de uma organização criminosa suspeita de fraudes contra o sistema financeiro, corrupção, lavagem de dinheiro e obstrução de Justiça, Vorcaro permanece preso por determinação do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF). O novo escritório não comentou a estratégia adotada após assumir o caso.
Augusto Lima também muda estratégia de defesa
As mudanças não ficaram restritas a Daniel Vorcaro. Augusto Ferreira Lima, ex-sócio de Vorcaro no Banco Master, também alterou a condução de sua defesa.
O empresário decidiu passar a prestar esclarecimentos às autoridades, movimento que foi seguido pela renúncia dos advogados Ticiano Figueiredo, Pedro Ivo Velloso e demais integrantes do escritório que o representava.
A mudança partiu do próprio Augusto Lima. Após a decisão, permaneceram na defesa apenas os advogados Sebastián Mello e Eduardo Toledo.
O empresário também contratou o advogado Bernardo Guidali Amaral, ex-delegado da Polícia Federal com atuação em investigações de grande repercussão, para reforçar a equipe jurídica.
As alterações ocorreram um dia depois de Augusto Lima pedir o adiamento do depoimento que prestaria à Polícia Federal no âmbito da Operação Compliance Zero.
O depoimento, inicialmente marcado para o dia 3 de agosto, ainda não teve nova data definida, enquanto as investigações continuam sob relatoria do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal.
Mudanças na defesa alteram cenário da investigação
A possibilidade de uma nova tentativa de colaboração não é inédita. Como explicou O Brasilianista, Daniel Vorcaro já havia promovido mudanças em sua equipe jurídica em março, quando substituiu os advogados Pierpaolo Bottini e Walfrido Warde por José Luís Oliveira Lima, conhecido como “Juca”, criminalista com experiência em negociações de colaboração premiada.
Na ocasião, a saída de Bottini foi interpretada nos bastidores como um indicativo de que o banqueiro poderia optar pela delação.
Além de não atuar com esse tipo de acordo, o advogado também representa políticos do Centrão que poderiam ser citados em eventual colaboração.
A manutenção da prisão de Vorcaro pelo Supremo Tribunal Federal reduziu as alternativas de defesa e aproximou o empresário da estratégia de negociar com as autoridades.
Investigação da PF ampliou o cerco sobre Augusto Lima
Como mostrou O Brasilianista, o empresário passou a ocupar posição central na nona fase da Operação Compliance Zero, que investiga um suposto esquema de fraudes financeiras ligado ao Banco Master.
A Polícia Federal apura suspeitas de corrupção passiva, corrupção ativa e lavagem de dinheiro, além da atuação de Augusto Lima em negociações consideradas estratégicas para o grupo financeiro.
A investigação também atribui ao empresário participação em tratativas envolvendo a tentativa de venda de ativos do Banco Master ao Banco de Brasília (BRB).
Mensagens encontradas no celular de Daniel Vorcaro indicam que Augusto Lima teria atuado para viabilizar essas negociações, que passaram a integrar o conjunto de provas analisadas pela Polícia Federal.
O Brasilianista também lembrou que Augusto Lima assumiu o controle do Banco Pleno em 2025, mas a instituição acabou entrando em liquidação extrajudicial por decisão do Banco Central após o agravamento de sua situação econômico-financeira.
Desde então, o empresário passou a responder a novas frentes de investigação, ao mesmo tempo em que afirma estar à disposição das autoridades e nega ter cometido qualquer irregularidade.
Conversas com Jaques Wagner entraram na investigação
Como revelou O Brasilianista, a Polícia Federal identificou mensagens que demonstram a proximidade entre Augusto Lima e o senador Jaques Wagner (PT-BA).
Os diálogos tratavam de temas estratégicos para o Banco Master, como a tentativa de venda da instituição ao Banco de Brasília (BRB), a criação da CPI do Banco Master, a situação do Will Bank e propostas relacionadas ao Banco Central.
Segundo a investigação, Augusto Lima mantinha o senador informado sobre assuntos internos do grupo financeiro e chegou a afirmar, em uma das mensagens analisadas pela PF: “Você, mais do que ninguém, sabe da minha história e faz parte disso”.
Para os investigadores, o conteúdo das conversas reforça a hipótese de que Wagner não era apenas destinatário de informações, mas acompanhava assuntos considerados relevantes para os interesses do banco.
A Polícia Federal também apura se a relação entre os dois influenciou iniciativas de interesse do Banco Master no Congresso Nacional.
Jaques Wagner nega ter praticado qualquer irregularidade e afirma que sua atuação parlamentar sempre ocorreu dentro dos limites da lei.
Defesa nega mudança, mas contexto mantém expectativa
Após a divulgação das informações sobre uma possível colaboração, a defesa de Augusto Lima contestou essa versão.
Conforme informou o BNews, os advogados Sebastián Mello e Eduardo Toledo afirmaram que a saída do escritório Figueiredo e Velloso “não muda em absolutamente nada a estratégia” adotada no processo e negaram qualquer negociação de delação premiada.
Em nota enviada ao portal, a defesa declarou que “repudia de forma veemente qualquer ilação acerca de eventual delação e segue confiante de que a inocência de Augusto Lima ficará provada no curso da investigação”.
Os advogados também sustentam que a troca de parte da equipe jurídica não altera a linha de defesa apresentada desde o início das apurações.
Nos bastidores jurídicos, porém, uma eventual negativa pública é considerada compatível com negociações dessa natureza.
Isso porque um investigado que pretende celebrar acordo de colaboração premiada normalmente não confirma essa estratégia antes da formalização das tratativas com a Polícia Federal, o Ministério Público ou o Poder Judiciário, já que uma admissão antecipada poderia comprometer a própria negociação.
Nota na íntegra
“Augusto Lima informa que a destituição do escritório Figueiredo e Velloso não muda em absolutamente nada a estratégia. A defesa constituída repudia de forma veemente qualquer ilação acerca de eventual delação e segue confiante que a inocência de Augusto Lima ficará provada no curso da investigação”
Até o momento, porém, não existe acordo de colaboração homologado envolvendo Daniel Vorcaro ou Augusto Lima.
As negociações permanecem em fase preliminar e qualquer eventual delação dependerá da aceitação da Polícia Federal e da Procuradoria-Geral da República, além da posterior homologação pelo Supremo Tribunal Federal.

