Conforme noticiado anteriormente pelo O Brasilianista, os Estados Unidos e Cuba estão em um conflito há séculos, desde o fim da Guerra Hispano-Americana, pela qual os americanos derrotaram a Espanha e ocuparam de forma militar todo o território da ilha. Na época, estabeleceram a Emenda Platt à primeira constituição de Cuba, dando o direito dos americanos a intervirem militarmente a qualquer momento na ilha.
Além disso, a região se tornou alvo de Donald Trump, presidente norte-americano, desde o seu primeiro mandato, entre os anos de 2017 e 2021, muito por conta de que Cuba já teve a sua política de abertura aplicada por Barack Obama e foi revertida por Trump. O republicano ainda disse que “teria a honra de tomar Cuba”. Diante desse cenário, crescem as especulações de uma possível invasão norte-americana em Cuba e sobre medidas adotadas semelhantes a como foi com a Venezuela.
Lugar estratégico
Para dar mais detalhes sobre o assunto, O Brasilianista realizou uma entrevista exclusiva com Carolina Silva Pedroso, professora do Departamento de Relações Internacionais da Universidade Federal de São Paulo. Quando perguntada sobre o interesse persistente dos americanos na ilha, a especialista falou sobre a estratégia estadunidense.
“Cuba é a chave do grande Caribe e essa é uma condição imutável para a estratégia estadunidense de projeção internacional, já que é o acesso principal de uma costa à outra. Assegurar seus interesses nessa região é vital para os EUA do ponto de vista geopolítico e econômico, por isso a insubmissão de Cuba por tantas décadas é mais do que um simbolismo, é um exemplo concreto dos limites da influência dos EUA em seu próprio ‘quintal'”, disse.
Trump e Cuba
Nos últimos meses, Trump voltou a endurecer o discurso contra Cuba, falando até em uma possível ‘aquisição amigável’ da ilha. Sobre o intuito do presidente norte-americano diante dessas declarações, Carolina detalhou o ponto de vista do republicano diante da América Latina e a sua avaliação perante as ações.
“Trump esvai toda a sutileza que restava aos EUA no trato com a América Latina, expondo como eles realmente nos veem: sua zona ‘natural’ e primordial de influência. Por isso eu não avalio que seja somente retórica essas ameaças, mas a vocalização de um desejo antigo de pôr fim a qualquer tentativa de autonomia dos vizinhos, especialmente os caribenhos. É um recado claro para a elite dirigente de Cuba de que a pressão, que nunca deixou de existir por meio do embargo comercial, pode alcançar outros níveis, e é uma forma de obrigá-la a ceder”, afirma a especialista.
Movimento de Washington
Além das sanções econômicas, os EUA também ampliaram a pressão diplomática e militar no Caribe. Perguntada sobre uma possível movimentação de Washington para enfraquecer o regime cubano internamente ou provocar uma abertura política em Havana, a professora fala sobre a contraposição do regime cubano internamente.
“Esse é um dos pontos mais difíceis de executar, do meu ponto de vista, porque toda tentativa de contraposição ao regime cubano foi, até agora, completamente incapaz de agir internamente. A oposição cubana precisou se organizar de fora, sobretudo desde os EUA, e isso é um desafio para que ela consiga chegar ao poder. Historicamente houve tentativas de invasão militar, com vistas à promover essa mudança política pela violência, mas foram frustradas”, pontua.
Sobre o assunto, a especialista ainda fala sobre o cenário atual e uma possível subvenção interna, destacando as consequências das ações de Trump e a possível existência de divisões internas.
“O cenário de hoje me parece pouco propício para uma sublevação interna, até por conta das grandes limitações materiais, e porque o aumento dessa pressão de Trump acaba suscitando, mesmo entre os descontentes, uma reação negativa sobre os EUA. O que não sabemos, porém, pelo próprio caráter do regime cubano, é se há divisões internas que poderiam ser alimentadas pelos EUA no sentido de aproveitar eventuais fissuras para promover essa mudança política”, completa.
Cuba e Venezuela
Com a invasão dos EUA na Venezuela e as atitudes tomadas pelos militares e pelo governo americano, muito se debate sobre o ponto de vista de Cuba diante do assunto, principalmente por um possível receio ou mudança de visão sobre os americanos.
“Acredito que não mudou a visão, mas a intervenção em Caracas expressou que Trump está disposto a cumprir algumas das ameaças colocadas contra a América Latina e isso inclui as pretensões de ingerir politicamente em Cuba”, disse.
Ainda sobre esse tópico, quando perguntada se existe a possibilidade de Washington tentar repetir com Havana uma estratégia parecida com a usada contra o governo venezuelano, a professora relatou as diferenças internas entre os dois países e a experiência de Cuba.
“Tampouco acredito que a estratégia contra a Venezuela seria repetida, justamente pelas diferenças internas entre os dois países, como o fato de haver uma maior unicidade da cúpula cubana que na venezuelana. Cuba tem também décadas a mais de experiência na resistência às pressões norte-americanas, a despeito de ser muito mais vulnerável militar e economicamente que a Venezuela. Ou seja, eu não sei se bombardeios pontuais ou o sequestro de uma liderança ou mais lideranças seriam suficientes para produzir o mesmo resultado”, afirma a especialista.

