A primeira pesquisa do Datafolha realizada integralmente após o caso “Dark Horse” vir à tona e impactar a campanha de pré-candidatura à Presidência do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) mostra uma vantagem significativa para seu principal opositor na corrida eleitoral, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
O levantamento mostrou um avanço de 3 para 9 pontos de vantagem do presidente sobre parlamentar na simulação de primeiro turno. As intenções de voto são de 40% para Lula e 31% para o rival. No cenário de segundo turno, Lula amplia vantagem de 47% contra 43% do filho do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Ao mesmo tempo, a pesquisa mostra que 36% do eleitorado não tinha conhecimento sobre o envolvimento de Flávio com o ex-dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, para o financiamento do filme que relata a trajetória de seu pai. Dessa forma, a popularidade do senador pode cair mais ainda nas próximas pesquisas eleitorais.
A pesquisa foi realizada nos dias 20 e 21 de maio com 2.004 brasileiros e margem de erro de dois pontos percentuais. Dos 64% de entrevistados que ouviram falar do episódio, um percentual igual de respondentes acham que o senador agiu mal ao pedir dinheiro a Vorcaro. Entre os eleitores de Flávio Bolsonaro, 53% acredita que ele agiu bem ao contatar o dono do Master.
Cerca de 48% dos brasileiros acredita que Flávio deveria abrir mão da candidatura e apoiar outro nome, enquanto 44% vê que o senador pode manter sua candidatura.
Quem pode se beneficiar desse cenário é Michelle Bolsonaro (PL), que se tornou a favorita dos entrevistados se Flávio sair da corrida. Ainda assim, tanto em primeiro quanto segundo turnos a ex-primeira-dama fica atrás de Lula.
Tudo sobre o caso “Dark Horse” até agora
O filme “Dark Horse” narra a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro em sua campanha eleitoral de 2018, tratada como uma jornada heroica. A trama deve mencioná-lo como combatente do tráfico de drogas. Entre os roteiristas está o ex-secretário de Cultura do governo Bolsonaro, Mário Frias.
Daniel Vorcaro e o financiamento
O dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, que responde por uma fraude bancária bilionária, além de ser investigado por atuar como miliciano em organizações criminosas e corrupção, foi o principal financiador do filme. Ainda, O Brasilianista mostrou como ele queria controlar a repercussão midiática do longa metragem.
Em negociações com o senador Flávio Bolsonaro, o empresário investiu cerca de R$ 134 milhões para a produção do longa. A confirmação dessas transações gerou forte crise para o parlamentar, que antes afirmava não ter qualquer vínculo pessoal ou comercial com Vorcaro ou o Master.
As mensagens coletadas pelo Intercept Brasil revelaram diálogos entre os dois, incluindo um em que o parlamentar escreveu ao empresário um dia antes da prisão dele: “Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma luz!”.
Até o momento, não há informações sobre algum crime cometido por Flávio Bolsonaro. Mas o caso do filme Dark Horse pode fazer com que as autoridades responsáveis pelo Caso Master também iniciem uma investigação relacionada às fraudes cometidas por Daniel Vorcaro, prejudicando a imagem de Flávio junto ao eleitorado.
Controvérsias
Outras apurações indicam que ao menos US$ 10,6 milhões foram transferidos entre fevereiro e maio de 2025 para estruturas ligadas à produção cinematográfica. Os registros incluem cronogramas de pagamentos, cobranças sobre atrasos em remessas financeiras e diálogos entre Flávio Bolsonaro, o ex-deputado Eduardo Bolsonaro, o deputado Mario Frias e Daniel Vorcaro.
Os recursos eram enviados ao Havengate Development Fund LP, fundo registrado no Texas, nos Estados Unidos. A Polícia Federal passou a investigar o destino do dinheiro e possíveis conexões entre as movimentações financeiras e aliados políticos ligados ao projeto.
Eduardo e Mário também apresentaram controvérsias em suas declarações. Quando o episódio veio à tona, o deputado cassado afirmou que não teve participação em movimentações financeiras relacionadas ao filme, mas um documento assinado por ele comprova seu papel como produtor-executivo. Esse cargo fica, em geral, responsável pela operação financeira da produção, como financiamentos, pagamentos de filmagens, salários, equipamentos, entre outros gastos.
Já Frias, também produtor-executivo e roteirista do filme, alegou inicialmente que não havia “um centavo” do Master na produção, mas voltou atrás e revelou que as negociações aconteciam com intermediários do Master e Vorcaro. O Brasilianista também mostrou um esquema de rachadinha no gabinete de Mário Frias durante a época de realização do longa metragem.
Empresas ligadas à produção com investimento público
Em outras apurações sobre instituições relacionadas ao projeto, uma ONG controlada pela dona da Go Up Entertainment, produtora de “Dark Horse”, Karina Ferreira da Gama, tinha notas fiscais milionárias irregulares na cidade de São Paulo. A organização teria o objetivo de instalar pontos de Wi-fi gratuitos na periferia, com um contrato de R$ 108 milhões da prefeitura, mas a instalação nunca foi concluída.

