A declaração do presidente do PL, Valdemar Costa Neto, sobre a relação entre o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o banqueiro Daniel Vorcaro ampliou a crise política envolvendo o caso “Dark Horse”.
Em entrevista à GloboNews, Valdemar afirmou que Flávio procurou Vorcaro no fim de 2025 para tentar receber “o restante do dinheiro” ligado ao financiamento do filme inspirado na trajetória política do ex-presidente Jair Bolsonaro.
A fala ocorre poucos dias após Flávio afirmar publicamente que a visita ao empresário, que utilizava tornozeleira eletrônica, teria ocorrido apenas para encerrar qualquer vínculo entre os dois. Na entrevista, Valdemar apresentou outra versão para o encontro e classificou a atitude do senador como “normal”.
“O Vorcaro não tinha problema nenhum quando ele pediu dinheiro pro Vorcaro”, declarou o dirigente partidário durante o programa. Em seguida, acrescentou: “Foi visitar depois pra ver se conseguia o restante do dinheiro”.
Após a repercussão da entrevista, Flávio Bolsonaro divulgou nota afirmando que nunca conversou sobre o caso com Valdemar Costa Neto e declarou que o presidente do partido “claramente não tinha ideia do que estava falando”.
PF apura movimentações financeiras
O Brasilianista mostrou que a Polícia Federal deve abrir investigação para analisar movimentações financeiras envolvendo Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro após a divulgação de mensagens relacionadas ao financiamento do filme “Dark Horse”.
Investigadores analisam pedidos equivalentes a US$ 24 milhões feitos durante as negociações do projeto audiovisual. As apurações também envolvem pagamentos que teriam alcançado US$ 10,6 milhões entre fevereiro e maio de 2025.
A investigação deve avaliar o destino dos recursos e possíveis conexões com movimentações financeiras realizadas nos Estados Unidos.
Um dos focos envolve suspeitas de transferências para o Havengate Development Fund LP, fundo localizado no Texas e ligado a aliados políticos do entorno bolsonarista.
A Polícia Federal pretende verificar se os valores mencionados nas mensagens foram efetivamente utilizados no financiamento da produção cinematográfica ou se houve circulação paralela de recursos fora da estrutura formal do projeto.
As conversas obtidas pelos investigadores também mostram cobranças relacionadas a pagamentos e dificuldades operacionais envolvendo transferências internacionais.
Ao ser questionado anteriormente sobre a participação de Vorcaro no longa, Flávio negou qualquer relação financeira. “É mentira, de onde você tirou isso?”, respondeu a jornalistas após a divulgação das mensagens.
Depois, em nota, o senador admitiu que buscou financiamento privado para o filme, mas ressaltou que não houve utilização de dinheiro público.
“No nosso caso, o que aconteceu foi um filho, procurando patrocínio privado para um filme privado sobre a história do próprio pai”, declarou.
Filme ampliou desgaste político
A repercussão do caso passou a afetar diretamente a pré-campanha presidencial de Flávio Bolsonaro. O Brasilianista apontou que o longa “Dark Horse” deixou de funcionar como instrumento de fortalecimento político e passou a produzir desgaste para o senador.
O filme aposta em uma narrativa voltada ao eleitorado bolsonarista mais radicalizado, com frases de forte apelo ideológico no trailer divulgado recentemente.
A estratégia, segundo a reportagem, teria reduzido a capacidade de ampliar o alcance eleitoral do parlamentar junto ao eleitorado de centro.
A publicação também relembrou que o Financial Times classificou o projeto como “uma comédia de erros” antes mesmo da estreia oficial.
Além da repercussão negativa envolvendo Daniel Vorcaro, a crise ganhou novos desdobramentos após a divulgação de mensagens, áudios e comprovantes bancários relacionados às negociações do filme.
O material divulgado pelo Intercept Brasil detalha conversas sobre um possível financiamento estimado em cerca de US$ 24 milhões, valor equivalente a aproximadamente R$ 134 milhões na cotação da época.
A reportagem também apontou contradições nas declarações de integrantes do projeto. Inicialmente, aliados de Flávio negaram qualquer ligação financeira entre Vorcaro e o filme. Posteriormente, o senador admitiu ter buscado recursos privados para a produção.
Dependência política da família Bolsonaro
Para o sociólogo e cientista político Luiz Renato Ribeiro Ferreira, especialista em Gestão e Avaliação de Políticas Públicas pela Universidad de Deusto, o episódio reforçou a centralidade da família Bolsonaro dentro do campo conservador.
“Em um passado recente, o bolsonarismo foi tratado como uma espécie de categoria política ou categoria de pensamento, que superava o sobrenome da família e se apresentava quase como um Conceito, uma corrente política própria”, observou.
Segundo Ferreira, os episódios recentes acabaram fortalecendo a dependência política do grupo em torno da própria família Bolsonaro.
“Os últimos movimentos e decisões do ex-presidente Jair Bolsonaro enfraqueceram o ‘conceito’ e fortaleceram a ‘genética’”, avaliou.
“Em um futuro breve, teremos novas figuras importantes da direita, que eventualmente poderão romper com a família para seguir sua vida própria”, projetou.

