A Polícia Federal identificou novas despesas atribuídas ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro envolvendo autoridades políticas e financeiras investigadas na Operação Compliance Zero.
O ex-governador do Rio de Janeiro Cláudio Castro (PL) participou de encontros custeados por Vorcaro antes de aportes milionários do Rioprevidência no Banco Master.
A investigação cita uma degustação exclusiva de uísque em Nova York, em maio de 2024, cujo evento teria custado mais de US$ 1 milhão.
De acordo com a PF, um dia após o encontro, o fundo previdenciário realizou um aporte de R$ 80 milhões em Letras Financeiras do banco.
As apurações apontam que os investimentos do Rioprevidência no Master chegaram a R$ 3 bilhões e continuaram mesmo após alertas internos sobre aumento do risco financeiro da instituição.
Conforme os investigadores, outros encontros ocorreram entre Castro e Vorcaro antes de novos aportes, incluindo jantares em Nova York, reuniões no Palácio Guanabara e encontros em São Paulo. A defesa do ex-governador nega irregularidades e afirma que não houve relação pessoal indevida com o banqueiro.
Mesadas, viagens e imóveis entram no radar da PF
Como mostrou O Brasilianista, a Polícia Federal afirma que o senador Ciro Nogueira (PP-PI) recebeu pagamentos mensais de Daniel Vorcaro desde 2021.
Os valores teriam começado em R$ 300 mil e alcançado R$ 500 mil em 2023. A investigação também aponta que o banqueiro custeou viagens internacionais, hospedagens em hotéis de luxo e repassou ativos ao senador por valores abaixo do mercado.
A PF afirma ainda que parte dessas operações teria ocorrido por meio da empresa BRGD S.A. e de empresas ligadas ao irmão do parlamentar.
Investigadores identificaram ao menos três viagens internacionais atribuídas ao banqueiro envolvendo Ciro Nogueira. A PF cita deslocamentos para Paris, Nova York e Courchevel, nos Alpes Franceses.
Em uma das viagens, Vorcaro teria pago hospedagem, restaurantes e até roupas utilizadas pelo senador durante passeios na neve. A investigação também aponta depósitos em dinheiro vivo ligados a empresas da família do parlamentar. A defesa de Ciro nega que as viagens tenham sido financiadas pelo ex-dono do Banco Master.
Ainda segundo a PF, o esquema envolveria interesses legislativos relacionados ao Fundo Garantidor de Crédito (FGC) e projetos de lei ligados ao setor financeiro e crédito de carbono.
Os investigadores afirmam que propostas de interesse do Banco Master chegaram a ser reproduzidas no Senado após circulação de minutas atribuídas a integrantes do banco e aliados políticos.
Relações com o BRB ampliam dimensão do caso
Conforme reportagem do O Brasilianista, mensagens enviadas ao Supremo Tribunal Federal mostram que o ex-presidente do Banco de Brasília (BRB), Paulo Henrique Costa, negociou ao menos seis imóveis ligados a Daniel Vorcaro.
As propriedades ficam em Brasília e São Paulo e estão avaliadas em aproximadamente R$ 140 milhões. A PF afirma que as conversas ocorreram antes da tentativa de compra de parte do Banco Master pelo BRB.
As mensagens analisadas pelos investigadores mostram diálogos sobre documentação, necessidade de caixa e tratativas envolvendo imóveis e operações financeiras. Em um dos trechos citados pela investigação, Vorcaro afirma ao então presidente do BRB: “Você tem sido um gigante”.
Dez dias depois das conversas, o BRB aprovou a compra de 58% do capital total do Master e 100% das ações preferenciais da instituição. A operação acabou sendo barrada posteriormente.
Paulo Henrique Costa está preso desde abril por suspeita de facilitar operações financeiras sem garantias adequadas envolvendo o Banco Master.
A investigação também aponta que Vorcaro teria utilizado proximidade com figuras públicas para ampliar relações institucionais e operações financeiras em diferentes estados.
Blindagem política
As mensagens encontradas no celular de Daniel Vorcaro mostram uma tentativa de articulação política para conter o avanço das denúncias envolvendo aplicações do Rioprevidência em investimentos ligados ao Banco Master.
O banqueiro acionou aliados para buscar interlocução direta com o presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab, depois que o deputado estadual Luiz Paulo apresentou representação ao Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro questionando aportes de cerca de R$ 900 milhões sem cobertura do Fundo Garantidor de Crédito (FGC).
As conversas mostram o grau de preocupação de Vorcaro com o potencial desgaste político e jurídico do caso. Em uma das mensagens, o banqueiro afirma que era preciso falar “urgente” com Kassab “antes que isso viralize”.
Em seguida, um aliado informa que havia conversado com o presidente do PSD e também com Pedro Paulo, então chefe da legenda no Rio de Janeiro.
Kassab confirmou ao Estadão que foi procurado sobre o assunto, mas afirmou que orientou integrantes do partido a não interferirem nas denúncias nem nas apurações conduzidas pelos órgãos de controle.
O caso também ampliou as suspeitas sobre uma possível atuação paralela para controlar danos envolvendo o Banco Master. Nas mensagens anexadas pela Polícia Federal à investigação, Vorcaro afirma que conseguiu “tirar do ar” uma reportagem publicada por um site do Rio sobre a denúncia apresentada ao TCE-RJ.
A PF investiga a existência de uma estrutura utilizada para remover conteúdos da internet, seja por meio de hackers ou por cooptação financeira de portais e administradores de páginas digitais. A notícia citada pelo banqueiro realmente deixou de estar disponível após a publicação original.
Caso “Dark Horse” atingiu campanha de Flávio Bolsonaro
Como informou O Brasilianista, a crise envolvendo Daniel Vorcaro ganhou dimensão eleitoral após a divulgação de mensagens relacionadas ao financiamento do filme “Dark Horse”, produção inspirada na trajetória política do ex-presidente Jair Bolsonaro. Conversas atribuídas ao senador Flávio Bolsonaro mostram pedidos de recursos ao banqueiro para financiar o longa-metragem.
As investigações apontam solicitações que teriam alcançado US$ 24 milhões, além de pagamentos superiores a US$ 10 milhões entre fevereiro e maio do ano passado.
A Polícia Federal apura o destino dos recursos e possíveis conexões financeiras envolvendo estruturas nos Estados Unidos. Apesar disso, até o momento não há acusação formal de crime contra Flávio Bolsonaro no caso.
O episódio passou a gerar pressão interna dentro da direita brasileira e abriu espaço para possíveis candidaturas alternativas ao bolsonarismo tradicional. Entre os nomes citados nos bastidores políticos aparecem Michelle Bolsonaro, Romeu Zema e Ronaldo Caiado.

