Os Estados Unidos devem receber cerca de 6,5 milhões de pessoas durante a Copa do Mundo de 2026 e podem obter um lucro bruto de US$ 30,5 bilhões com o torneio.
Além dos impactos econômicos, o evento reacendeu um debate nas relações internacionais: a Copa pode ajudar Washington a recuperar parte de sua influência global após o desgaste provocado pela guerra com o Irã?
A discussão envolve o conceito de soft power, expressão criada pelo cientista político norte-americano Joseph Nye para definir a capacidade de um país influenciar outros por meio da atração cultural, dos valores políticos e da diplomacia, sem recorrer à força militar ou à coerção econômica.
Influência além do poder militar
Como mostrou O Brasilianista, o conceito de soft power ganhou relevância após o fim da Guerra Fria, quando a influência internacional deixou de depender exclusivamente de armas, território e capacidade militar.
A estratégia passou a incluir instrumentos como cultura, esportes, entretenimento, diplomacia e construção de imagem internacional.
O poder de atração funciona pela persuasão e pela capacidade de gerar admiração. Países utilizam eventos culturais, produções artísticas, intercâmbios e grandes competições esportivas para fortalecer sua presença global e ampliar sua legitimidade perante outras nações.
O professor Alexandre Uehara, da ESPM, explicou que diversos países passaram a investir em elementos capazes de gerar prestígio internacional.
Japão, Reino Unido, Coreia do Sul e Brasil figuram entre os exemplos frequentemente citados de nações que utilizam recursos culturais para fortalecer sua presença no cenário global.
Torneio ocorre após desgaste diplomático
Como apontou O Brasilianista, o debate sobre o enfraquecimento do soft power norte-americano ganhou força após a escalada militar envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã em 2026.
O conflito ampliou questionamentos sobre a imagem internacional de Washington e seus impactos na capacidade de liderança global do país.
Segundo a advogada e professora de Direito Internacional Paula Teixeira Garcia Civolani, o soft power está diretamente ligado à percepção de legitimidade construída por um Estado.
Ela afirma que a influência internacional não depende apenas da força militar, mas também da capacidade de atrair parceiros por meio da confiança, dos valores políticos e da atuação diplomática.
De acordo com a especialista, os Estados Unidos construíram grande parte de sua projeção internacional ao longo do século XX por meio de iniciativas diplomáticas, econômicas e culturais que ajudaram a consolidar a liderança americana após a Segunda Guerra Mundial.
Esporte como ferramenta de projeção internacional
Grandes eventos esportivos costumam ser utilizados por governos como instrumentos de promoção internacional. A Copa do Mundo reúne bilhões de espectadores ao redor do planeta e coloca o país-sede no centro das atenções durante semanas.
Nesse contexto, a realização do torneio em território norte-americano representa uma oportunidade para os Estados Unidos ampliarem sua exposição internacional para além do noticiário político e militar.
A competição envolve turismo, intercâmbio cultural, hospitalidade, infraestrutura e capacidade de organização, fatores frequentemente associados à construção de imagem nacional.
Além dos jogos, a Copa também mobiliza campanhas de promoção turística, investimentos em mobilidade urbana, programas culturais e iniciativas voltadas à recepção de visitantes estrangeiros. Esses elementos costumam integrar estratégias de fortalecimento de reputação internacional.
Benefícios econômicos reforçam estratégia
Como divulgou O Brasilianista, a Copa do Mundo de 2026 poderá gerar um aumento de US$ 17,2 bilhões no Produto Interno Bruto (PIB) dos Estados Unidos.
O estudo também projeta a criação de aproximadamente 185 mil empregos em tempo integral ligados às atividades do torneio.
Segundo os dados apresentados, o impacto econômico global pode alcançar US$ 40,9 bilhões, enquanto os benefícios sociais para os norte-americanos foram estimados em US$ 6,88 bilhões. A expectativa é que a edição de 2026 se torne a mais lucrativa da história da competição.
A mesma publicação destacou que os ganhos projetados surgem em um momento em que os Estados Unidos acumulam elevados gastos relacionados ao conflito envolvendo o Irã.
Disputa por influência internacional
Paula Civolani avalia que parte do desgaste da imagem americana decorre da substituição de estratégias de persuasão por políticas associadas à demonstração de força.
Na avaliação dela, esse movimento abriu espaço para que Pequim fortalecesse sua narrativa diplomática em meio às críticas dirigidas a Washington.
Os impactos sobre o soft power costumam ser cumulativos e podem se prolongar por muitos anos, afetando organismos multilaterais, negociações internacionais e a confiança de outros países nas estruturas globais lideradas pelos Estados Unidos.
A Copa do Mundo de 2026 acontecerá entre 11 de junho e 11 de julho nos Estados Unidos, Canadá e México, reunindo seleções de todo o planeta na maior edição já realizada do torneio organizado pela FIFA.

