Como Adolf Hitler convenceu milhões de pessoas a promover um genocídio no século XX? Pasme, mas a resposta não é falta de informação ou divulgação do que acontecia na época. Claro, o Campo de Concentração era afastado da sociedade, assim como não existia a facilidade de acesso às notícias como hoje, o que contribuiu com o feito, mas não foi isso que garantiu o extermínio de cerca de 11 milhões de pessoas.
O que tornou o Holocausto realidade nada mais foi do que a “legião de fiéis” que compraram a ideia de Hitler e “venderam” sua mão de obra com a expectativa ou promessa de crescer na carreira. É essa provocação que traz o New York Times em uma reportagem que traz Vladimir Putin como exemplo atual.
Os bastidores do “trabalho sujo”
Aqui precisamos fugir de estereótipos ou de visões idealistas humanas. Aqueles que aceitam fazer o “trabalho sujo” são pessoas “comuns”, seu vizinho, seu funcionário e até seu amigo. Não necessariamente eles desejam fazer algo “errado”, porém eles aceitam o serviço visando um crescimento profissional individual.
Foi isso que apontou um levantamento feito a partir de dados obtidos na Guerra Suja, que ocorreu na Argentina entre 1970 e 1980 ao concluir que a vontade de obter uma promoção ou até alavancar uma carreira estagnada se mostram suficientes para estimular funcionários de nível básico e médio a passarem por cima da ética e moral.
E uma coisa precisa ficar clara. Não existiria Hitler sem o apoio do povo. Não existiria Staling sem o apoio do povo. Não existe nenhum político sem o apoio do povo. Como defendia o sociólogo Max Weber, o poder precisa de legitimidade para ser exercido. E em democracias, isso se traduz na aceitação da população.
Como esse apoio acontece na prática?
A pressão pode ser mais sutil do que você imagina. Nos tempos atuais, com eleições democráticas, os líderes assumem o comando com o aval do povo e, posteriormente, ao longo do tempo, vão recuando com medidas populares e concentrando o poder cada vez mais nas próprias mãos.
E esse movimento não é violento. Não choca como um Holocausto, não traz números devastadores quanto a Guerra do Vietnã e tampouco vira notícias de capa dos jornais. É um movimento delicado que une fomentação de medo do fracasso, promove competição entre funcionários e oferece de “brinde” um cargo de maior poder.
O dilema do líder
Com o tempo, contudo, esses mecanismos sutis vão se tornando mais comuns, mais claros e até mais violentos, o que coloca líderes em um conflito: abrir mão do poder ou optar pelo autoritarismo violento e imposição do poder à força. Para isso, temos exemplos recentes. No primeiro cenário, Viktor Mihály Orbán, na Hungria. Já no segundo, Nicolás Maduro, na Venezuela, atualmente capturado por Donald Trump, está nos Estados Unidos.
Isso se torna um risco não apenas para os países sob tais regimes, mas para o mundo. Além de servirem de modelo, hoje vivemos em um mundo altamente globalizado, o que representa que a decisão de um país afeta muitos outros e compromete muito além do alto escalão. A Guerra no Oriente Médio está aí para comprovar e Trump já mencionou a possibilidade de ferir a Constituição norte-americana e engatar um terceiro mandato.

