A chegada de novos medicamentos para tratamento da obesidade e a perspectiva de redução dos preços das chamadas canetas emagrecedoras estão provocando mudanças que vão além do emagrecimento.
O avanço dessas terapias tem alterado a rotina de médicos, ampliado a procura por acompanhamento especializado e gerado impactos em diferentes segmentos do mercado da saúde.
O movimento ganhou força após o anúncio da farmacêutica EMS de que iniciará a venda da Ozivy, primeira semaglutida produzida no Brasil por síntese química.
O medicamento chegará ao mercado em junho com preço de R$ 498 por unidade, valor inferior ao praticado por parte dos concorrentes importados.
A expectativa do setor é que o aumento da concorrência amplie o acesso aos tratamentos e acelere uma transformação que já vinha sendo observada nos consultórios médicos.
Para Anderson Clayton Sant’Anna, médico integrante da plataforma de consultas médicas INKI, pós-graduado em Nutrologia pela Associação Brasileira de Nutrologia (Abran) e em Medicina do Esporte, o impacto ultrapassa a simples perda de peso.
“As canetas emagrecedoras mudaram significativamente o cenário do tratamento da obesidade. Estudos recentes demonstraram perdas de peso superiores a 15% do peso corporal, aproximando-se muito dos resultados observados em algumas modalidades de cirurgia bariátrica”, contextualiza.
Mudança no perfil dos pacientes
O crescimento da procura por esses medicamentos tem levado mais pessoas a buscar avaliação médica e acompanhamento especializado.
Especialistas observam uma mudança importante na forma como a obesidade é encarada tanto pelos pacientes quanto pelos profissionais de saúde. Segundo Sant’Anna, a popularização dessas terapias ajudou a reforçar a compreensão da obesidade.
“Isso aumentou a procura por avaliação médica e acompanhamento especializado, além de reforçar o entendimento da obesidade como uma doença crônica, multifatorial e de base biológica”, destaca.
Ele reforça que o fenômeno ocorre em um contexto de expansão do mercado. Pesquisa divulgada anteriormente pela consultoria IQVIA apontou crescimento acelerado das vendas de medicamentos à base de semaglutida e tirzepatida nos últimos anos, impulsionado pela maior demanda por tratamentos para obesidade e diabetes tipo 2.
A entrada de novos fabricantes tende a ampliar ainda mais esse alcance. Além da redução dos preços, o aumento da oferta diminui os riscos de desabastecimento que marcaram os primeiros anos de popularização desses medicamentos.
Reflexos em clínicas e planos de saúde
O avanço das canetas emagrecedoras também começa a provocar mudanças econômicas dentro do setor da saúde. Clínicas especializadas estão entre as áreas mais impactadas pela nova demanda.
“Os principais impactos são observados em clínicas de emagrecimento, endocrinologia, nutrologia, medicina do esporte e programas de saúde metabólica”, observa.
As mudanças também alcançam procedimentos tradicionalmente utilizados para tratamento da obesidade severa. Embora a cirurgia bariátrica continue sendo uma alternativa importante para muitos pacientes, médicos já identificam alterações no perfil de quem procura esse tipo de intervenção.
Outro desafio envolve o financiamento desses tratamentos. Como se trata de medicamentos de uso contínuo e com custo relativamente elevado, operadoras e sistemas de saúde acompanham atentamente os efeitos econômicos da expansão dessas terapias.
“Do ponto de vista econômico, os sistemas de saúde e os planos de saúde enfrentam o desafio de equilibrar o alto custo dessas terapias com o potencial de reduzir complicações futuras da obesidade, como diabetes tipo 2 e doenças cardiovasculares”, analisa.
Uso exige acompanhamento
O crescimento da procura também trouxe preocupações relacionadas ao uso indiscriminado dos medicamentos. Antes mesmo da exigência de retenção de receita para parte dessas substâncias, autoridades sanitárias já alertavam para casos de automedicação e utilização sem indicação clínica adequada.
Para o especialista, a popularização não elimina a necessidade de acompanhamento médico rigoroso.
“Tratar medicamentos complexos como soluções simples e ‘mágicas’ para perda de peso é um dos principais riscos”, pondera. A preocupação dos especialistas não está apenas na redução do peso corporal.
“O uso adequado exige avaliação médica, critérios clínicos bem definidos, acompanhamento contínuo e, principalmente, a exclusão de contraindicações ao tratamento”, esclarece.
“Além da perda de peso, é fundamental monitorar a composição corporal, a preservação da massa muscular, a adequação nutricional e a prática regular de atividade física, garantindo que os benefícios metabólicos sejam mantidos no longo prazo”, acrescenta.
Perspectiva de longo prazo
O avanço das canetas emagrecedoras tem levado especialistas a compararem o fenômeno a outras revoluções terapêuticas observadas na medicina nas últimas décadas.
Novas moléculas em desenvolvimento prometem ampliar ainda mais os resultados clínicos observados atualmente, com impactos não apenas sobre o peso, mas também sobre doenças cardiovasculares e metabólicas.
Na avaliação de Sant’Anna, a tendência é que esses medicamentos ocupem posição cada vez mais relevante no tratamento da obesidade. “Acredito que estamos diante de uma transformação estrutural econômica”, avalia.
“Os estudos mais recentes demonstram não apenas perda de peso significativa, mas também redução do risco cardiovascular, melhora do controle glicêmico e amplos benefícios metabólicos”, contextualiza.
Para os próximos anos, a expectativa é de expansão do mercado, aumento da concorrência e desenvolvimento de novas terapias. Nesse cenário, Sant’Anna projeta que os medicamentos atualmente conhecidos como canetas emagrecedoras deverão se consolidar como uma das principais ferramentas no combate à obesidade.
“Assim como ocorreu com as estatinas e os anti-hipertensivos em outras áreas da medicina, os agonistas de GLP-1 e os agonistas duplos GIP/GLP-1 devem ocupar um papel cada vez mais central no tratamento da obesidade nas próximas décadas”, conclui.

