O Plano Quinquenal da República Popular da China, de 2026 a 2030, possui diversos pontos para segurança nacional. Um deles pode afetar diretamente o agronegócio brasileiro, sendo a decisão de reduzir a importação de alimentos.
O parceiro comercial do Brasil foi responsável por 32,7% das exportações do agronegócio brasileiro em 2025, segundo o Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA). A intenção do plano é implementar novas tecnologias para produção agrícola no país, reduzindo a importação e buscando garantir a autossuficiência nacional, conforme divulgação do projeto.
Em conversa com O Brasilianista, o CEO da Casa Política, ex-Diretor da Apex-Brasil e do Senado Federal, Márcio Coimbra, afirma que a decisão atinge o coração do modelo do agronegócio brasileiro. Desta maneira, surge a necessidade oportuna de uma transição comercial de complacência para urgência estratégica.
“Ao elevar a autossuficiência alimentar ao status de segurança nacional, Pequim sinaliza claramente que a dependência de commodities agrícolas estrangeiras é vista como uma vulnerabilidade geopolítica que eles pretendem mitigar de forma agressiva. Para o Brasil, isso não se traduz necessariamente em um colapso imediato dos volumes atuais, mas sim no estabelecimento de um teto precoce para o crescimento das nossas exportações e em uma constante pressão deflacionária sobre os preços, afetando diretamente produtos vitais como a soja e o milho, que historicamente sustentam o nosso superávit.”
Investimento em tecnologia
O CEO da plataforma LIDE China, José Ricardo dos Santos Luz Jr, em entrevista para O Brasilianista, afirma que os pilares do plano quinquenal da China são sustentabilidade e inovação. Desta maneira, a medida de redução de dependência exterior, segundo o especialista, coloca o Brasil em uma posição positiva.
“Se olharmos a previsão do projeto, não é, necessariamente, a redução de importação de alimentos brasileiros, mas a redução da dependência exterior”, afirma. “Isso é apenas um sinal para continuarmos melhorando a nossa produção, até porque não tem como a China ser autossuficiente”.
O especialista comenta que o ideal para o Brasil é investir em produtos de maior valor agregado, desenvolvendo tecnologias e práticas sustentáveis para se tornar ainda mais atrativo. “O principal ativo que o Brasil tem na parte de agricultura é, sem dúvida, a rastreabilidade e o controle sanitário”, afirma. “Isso, pois a rastreabilidade brasileira oferece, primeiro, transparência da cadeia produtiva e, segundo, controle de qualidade, com certificação de origem”.
Relação Brasil e China
Para Coimbra, a medida trará déficit ao agronegócio brasileiro não apenas orçamentário mas, também, em poder de barganha e relações bilaterais. “A China utiliza seu capitalismo de Estado para moldar o mercado global de forma assimétrica, e a busca pela autossuficiência servirá como uma ferramenta de pressão política e econômica, onde qualquer oscilação na produção interna deles poderá ser usada para justificar embargos técnicos ou barreiras fitossanitárias artificiais contra nossos produtos”, afirma.
Ainda neste mês de junho, segundo apurou O Brasilianista, o país asiático decretou novas regras sanitárias a para fabricação de produtos estrangeiros. A decisão prevê que empresas entreguem relatórios de inspeção, além de cartas de recomendação de autoridades competentes do país exportador.
Dentre os principais alimentos enquadrados no Decreto nº 280 da Administração Geral de Alfândegas da China (GAC) estão a carne, produtos lácteos, alimentos para fins dietéticos, ovos e outros. A nova regra afeta 17 produtores brasileiros.
Na visão do CEO da LIDE China, o Brasil está recebendo transferência de tecnologia chinesa no campo, para inovação da produção. Como exemplo, o especialista aborda os drones utilizados na agricultura, com envio de imagens em tempo real para verificar a produção, caso haja aplicação inadequada de recursos híbridos, ataque de predadores e outros indicadores, além de outras ferramentas para ter uma produção mais saudável. “Assim, eu acredito que o objetivo do plano quinquenal de fortalecer a inovação tecnológica e a inovação agrícola é um sinal para o Brasil continuar aplicando tecnologias, investindo em sustentabilidade, infraestrutura logística e aplicação de valor, para termos produtos competitivos.
Diversificação de mercado
A adição de um teto para o agronegócio brasileiro, como afirma Coimbra, coloca aos produtores brasileiros a necessidade de diversificar o mercado consumidor. Segundo o especialista, é necessário abarcar uma estratégia mais agressiva para diversificar o mercado e agregar valor aos produtos exportados.
Para Coimbra, o sudeste asiático e o oriente médio podem ser clientes em potencial. “O caminho passa pela expansão robusta no Sudeste Asiático — em blocos como a ASEAN, com destaque para Vietnã, Indonésia e Filipinas —, além do adensamento comercial na Índia e no Oriente Médio, regiões que vivenciam uma transição demográfica e dietética acelerada”, explica.
Medidas vão além da proteção econômica?
Além do plano quinquenal, a China anunciou, na última semana, novas medidas para proteção econômica. Conforme apuração do O Brasilianista, uma nova triagem de segurança pública será realizada em empresas que buscam investimento externo. A política implementada busca prevenir que os investimentos de empresas chinesas, assim como suas tecnologias, evadam o país.
Da mesma maneira, Coimbra analisa o plano quinquenal como algo além do protecionismo econômico. Para o CEO, a medida é um passo ao isolamento estratégico, para defesa em caso do aumento das tensões globais. “Pequim compreende que a dependência alimentar externa é o seu calcanhar de Aquiles em caso de eventuais sanções ou conflitos no Indo-Pacífico, buscando uma autossuficiência que, embora tecnicamente difícil de ser plenamente alcançada devido às suas limitações crônicas de terra arável e água, funciona como uma diretriz ideológica rígida”.
Apesar da redução, o especialista vê, paradoxalmente, uma vantagem ao agronegócio brasileiro, caso seja utilizada como catalisador para maturidade agroindustrial. “Ao impor um limite à nossa zona de conforto baseada na exportação primária de grãos, a postura chinesa nos obriga a acelerar a transição para uma economia de produtos industrializados de maior valor agregado, além de fortalecer nossa própria soberania logística e comercial”, confirma.
“O verdadeiro ganho para o Brasil será geopolítico: ao deixarmos de ser o celeiro exclusivo de Pequim, reequilibramos nossa inserção internacional, apresentando-nos ao resto do mundo não apenas como um fornecedor de volume, mas como o parceiro mais estável, previsível e confiável em segurança alimentar global”.
Para Santos Luz Jr, o plano pode dar vantagens estratégicas ao Brasil, pois é um alerta e não uma ameaça. “A China não tem potencialidade de ser completamente autossuficiente, então o Brasil vai continuar sendo um parceiro fundamental e estratégico”, afirma.
“Brasil e China tem uma relação ganha-ganha de longo prazo, e é estratégica. A única diferença para daqui a 5, 15, 20 anos é que o agronegócio precisará ser mais avançado tecnologicamente, ser mais sofisticado, oferecer uma segurança alimentar maior para China, aplicando mais tecnologia ao campo e agregando mais valor aos produto de exportação brasileira”.

