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Economia

EUA podem impor novas tarifas ao Brasil?

Aço, alumínio, agronegócio, aviação, papel e celulose estão entre os segmentos citados como mais sensíveis a eventuais restrições

EUA podem impor novas tarifas ao Brasil?

O tarifaço imposto pelos Estados Unidos ao Brasil em julho pode não ser a última medida comercial adotada por Washington, que ainda dispõe de mecanismos capazes de ampliar as barreiras contra produtos brasileiros.

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O risco surge em um momento no qual as exportações brasileiras já convivem com duas medidas recentes adotadas por Washington.

Nos dias 15 e 23 de julho, o governo norte-americano estabeleceu sobretaxas adicionais de 25% e 12,5% sobre parcelas das importações originárias do Brasil.

Para Vito Villar, especialista em Política Internacional e Comércio a existência de outros instrumentos não significa que uma nova rodada de tarifas esteja definida.

O comportamento do governo brasileiro e a evolução das relações bilaterais devem influenciar os próximos movimentos da política comercial norte-americana.

“O governo dos Estados Unidos estão explorando novas alternativas para manter sua política tarifária. Ao mesmo tempo, até o momento não ocorreram novas sinalizações de novas tarifas, especialmente enquanto o governo brasileiro não retaliar as medidas colocadas durante as últimas semanas. Mecanismos existentes ainda temos a própria Seção 301, para outros temas, medidas antidumping, Salvaguardas via Seção 201 e as próprias medidas horizontais via seção 232”, alerta.

Quais mecanismos ainda podem ser usados pelos EUA

A Seção 301 permite aos Estados Unidos investigar práticas comerciais consideradas prejudiciais aos interesses norte-americanos e adotar medidas em resposta.

O instrumento já foi utilizado nas decisões recentes relacionadas ao Brasil e também pode ser aplicado a outras questões que Washington considere discriminatórias ou prejudiciais às empresas do país.

As salvaguardas previstas na Seção 201 têm outra finalidade. Elas podem ser adotadas diante de determinadas situações envolvendo aumento das importações e danos à indústria doméstica.

Já medidas antidumping são voltadas a casos nos quais produtos estrangeiros são considerados comercializados no mercado norte-americano em condições enquadradas pelas regras aplicáveis a essa prática. A Seção 232 envolve questões relacionadas à segurança nacional e já alcança produtos específicos.

Agronegócio e indústria aparecem entre áreas sensíveis

Uma eventual ampliação das restrições não atingiria necessariamente toda a pauta brasileira. Villar considera que alguns segmentos apresentam maior exposição devido ao histórico de disputas comerciais, à concorrência com produtores norte-americanos ou ao peso político das respectivas indústrias nos Estados Unidos.

Aço e alumínio já estão submetidos a medidas da Seção 232 e, na avaliação do especialista, podem enfrentar aprofundamento das restrições.

No agronegócio, ele cita açúcar e etanol entre os produtos que merecem atenção diante da capacidade de mobilização dos concorrentes no mercado norte-americano.

“Aço e alumínio já estão sob tarifas de Seção 232 e correm risco de aprofundamento. O agronegócio também é sensível, especialmente carne bovina, frango, suco de laranja, café, açúcar e etanol, porque esses produtos enfrentam lobby concorrente forte nos Estados Unidos e porque algumas dessas commodities já foram alvo de tarifas em 2025 antes de receberem exceções pontuais”, justifica.

Outras áreas também possuem histórico de conflitos comerciais entre empresas ou setores dos dois países. Villar menciona a aviação devido à disputa entre Embraer e Boeing envolvendo subsídios, enquanto papel, celulose e biodiesel já foram objeto de processos antidumping.

“E setores ligados a políticas ambientais e de conteúdo digital também estão na mira: qualquer legislação brasileira que os Estados Unidos considerem discriminatória contra big techs americanas, seja em moderação de conteúdo ou em tributação digital, pode se tornar gatilho de uma nova investigação de Seção 301″, acrescenta.

Mais de 23% das vendas brasileiras já enfrentam novas sobretaxas

De acordo com o especialista, com base no comércio bilateral de 2024, cerca de 23,1% das exportações brasileiras aos Estados Unidos estão submetidas às novas cobranças decorrentes das investigações da Seção 301.

Desse total, 4,7% das vendas estão alcançadas exclusivamente pelo adicional de 12,5%, grupo que inclui obras de pedra e gesso, minérios, óleos essenciais, produtos de perfumaria e pescados. Outros 1,9% estão submetidos apenas à cobrança de 25%, incluindo o açúcar.

A maior parcela dentro das novas medidas corresponde aos produtos atingidos simultaneamente pelas duas decisões. Cerca de 16,5% das exportações estão sujeitas ao adicional acumulado de 37,5%, incluindo máquinas e equipamentos, diferentes tipos de madeira, gorduras e óleos, calçados, móveis e confecções.

Por outro lado, 52,7% das vendas brasileiras permanecem fora das sobretaxas da Seção 301 e das medidas setoriais da Seção 232, sujeitas apenas às tarifas ordinárias dos Estados Unidos.

Restrições podem ir além das tarifas

A capacidade de pressão dos Estados Unidos não se limita à cobrança adicional sobre importações. Villar cita sanções direcionadas, restrições de vistos, controles sobre exportações de tecnologia, exigências sanitárias e fitossanitárias, cotas e limitações relacionadas às compras governamentais como outras ferramentas disponíveis.

Nesse grupo, algumas medidas têm natureza diferente das tarifas comerciais e podem atingir pessoas, empresas ou setores específicos.

“Sanções específicas por meio da OFAC e da Global Magnitsky Act já foram aplicadas a autoridades brasileiras, como no caso do ministro Alexandre de Moraes, incluindo bloqueio de ativos e cancelamento de vistos, e podem ser estendidas a outras autoridades ou mesmo a empresas que façam negócios com pessoas sancionadas”, aponta.

Villar também cita a possibilidade de exigências sanitárias e fitossanitárias mais rígidas para alimentos, além de cotas de importação e restrições a compras governamentais.

Controles sobre a venda de determinadas tecnologias norte-americanas ao Brasil poderiam aparecer em situações relacionadas à segurança nacional.

Relação bilateral será decisiva para eventual escalada

Segundo o Governo Federal, as exportações do Brasil para os Estados Unidos atingiram US$ 40,4 bilhões (R$ 206,9 bilhões) em 2024, recuaram para US$ 37,7 bilhões (R$ 192,5 bilhões) em 2025 e continuaram em queda neste ano.

No primeiro semestre de 2026, os embarques brasileiros ao mercado norte-americano somaram US$ 17,4 bilhões (R$ 89,09 bilhões), retração de 13% em relação ao mesmo intervalo de 2025. A participação dos Estados Unidos nas exportações brasileiras caiu de 12,1% para 9,4% na mesma comparação.

O Brasilianista mostrou que o governo brasileiro ampliou neste mês o Plano Brasil Soberano para apoiar empresas atingidas pelas barreiras comerciais.

A terceira etapa disponibiliza até R$ 18,5 bilhões em crédito, sendo R$ 13,5 bilhões provenientes do Tesouro Nacional e R$ 5 bilhões do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

As linhas incluem recursos para investimentos, capital de giro, exportações e aquisição de máquinas e equipamentos. A iniciativa procura atender empresas que precisam reorganizar produção, contratos e destinos comerciais diante das mudanças no acesso ao mercado norte-americano.

Para Villar, a possibilidade de novas restrições deve ser tratada como cenário, e não como uma medida já prevista pelo governo dos Estados Unidos.

“Essa é uma leitura de cenário, não uma previsão certa. Alguns fatores aumentam a chance de escalada: a tarifa via IEEPA em 2025 já mostrou que motivações políticas, e não apenas comerciais, entraram na equação bilateral, o que torna o quadro menos previsível e mais sujeito a decisões unilaterais rápidas; o desfecho do processo judicial contra Bolsonaro e a relação entre Lula e Trump seguem como variáveis-chave, e qualquer escalada nesse front tende a se refletir no comércio; e 2026, por ser ano eleitoral no Brasil, historicamente atrai mais atenção política americana para o país”, diz.

Ao mesmo tempo, o especialista considera que interesses econômicos dentro dos próprios Estados Unidos podem limitar novas medidas.

“Por outro lado, alguns fatores reduzem a probabilidade de uma escalada adicional: a pressão de setores importadores americanos, que pagam a conta das tarifas, e de exportadores dos EUA que dependem do mercado brasileiro podem funcionar como freio, mas a pressão política deve ser o fiel da balança nos próximos meses”, conclui.

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