As tensões comerciais entre Estados Unidos e China, somadas ao aumento de tarifas e ao avanço do protecionismo, estão mudando a dinâmica do comércio internacional e obrigando empresas a rever estratégias de exportação, investimentos e cadeias de produção.
Para esclarecer os principais pontos, O Brasilianista conversou com Ronaldo Felix, especialista em comércio exterior e sócio da Saygo Comex, que respondeu às principais dúvidas sobre os efeitos de uma possível guerra comercial global para empresários, exportadores e consumidores brasileiros.
As tensões entre Estados Unidos e China indicam que o mundo está entrando em uma nova guerra comercial?
Mais do que uma “nova” guerra comercial, estamos diante da consolidação de um regime comercial diferente daquele que vigorou nas três décadas anteriores. O que começou como uma disputa pontual de tarifas evoluiu para uma reorganização estrutural do comércio mundial, em que a segurança nacional, a autonomia tecnológica e a resiliência das cadeias produtivas passaram a pesar tanto quanto o custo e a eficiência.
Em 2025, a tarifa média aplicada pelos Estados Unidos sobre produtos chineses chegou a patamares próximos de 47%, com alíquota efetiva em torno de 35%, níveis que não se viam desde antes da criação da Organização Mundial do Comércio.
É importante, porém, evitar o exagero. Ao longo de 2026 houve sinais de acomodação: os dois países negociaram a restauração de alíquotas anteriores, os Estados Unidos estenderam a isenção de cerca de 180 categorias de produtos até novembro, e novas medidas, como a tarifa de 12,5% proposta pelo USTR em investigação sobre trabalho forçado passaram a ser mais cirúrgicas do que generalizadas.
Ou seja, não é uma escalada linear rumo ao colapso do comércio, mas sim um novo normal de tensão permanente, negociação contínua e uso das tarifas como instrumento geopolítico. Para o empresário, a mensagem é clara: a imprevisibilidade deixou de ser exceção e virou variável estrutural do planejamento.
Como esse cenário difere dos conflitos comerciais vistos nos últimos anos?
A diferença é de natureza, não apenas de intensidade. As disputas comerciais clássicas, como as antigas guerras de subsídios ou os contenciosos sobre aço e commodities agrícolas, eram setoriais, resolvidas dentro do arcabouço multilateral da OMC e movidas essencialmente por interesses econômicos. O que vemos agora é qualitativamente distinto em três aspectos.
Primeiro, a motivação é geopolítica, as tarifas viraram ferramenta de política externa e de pressão, e não apenas de proteção de mercado. O próprio caso brasileiro é exemplar a tarifa de 50% anunciada por Washington tem forte componente político, ligado a divergências institucionais, e não a um desequilíbrio comercial, já que os Estados Unidos mantêm superávit com o Brasil.
Segundo, o alcance é sistêmico, não se discute mais um setor, mas o redesenho de cadeias inteiras de semicondutores, terras raras, energia e tecnologia.
Terceiro, o mecanismo de arbitragem enfraqueceu a OMC, que perdeu força como árbitro, e as decisões passaram a ser tomadas de forma unilateral e bilateral. O resultado é um ambiente muito mais fragmentado, em que blocos e alianças importam mais do que regras universais.
O empresário brasileiro deve se preocupar com esse ambiente de maior protecionismo e aumento de tarifas? Quais são os principais riscos para quem produz ou exporta?
Deve se preocupar, mas de forma estratégica e não reativa. O Brasil já sentiu o impacto direto, a tarifa de 50% sobre a maior parte dos bens brasileiros exportados aos Estados Unidos, com entrada em vigor para agosto, atinge algo em torno de US$ 11 bilhões em vendas o equivalente a cerca de 18% do que o país exporta para aquele mercado. Não é o fim do mundo em termos agregados, porque os produtos de maior peso na balança seguiram caminhos distintos, mas é um golpe severo para setores e empresas específicas.
Os principais riscos são quatro. O risco de mercado, de perder competitividade e espaço para concorrentes de países não tarifados. O risco de margem, pois muitas empresas precisarão absorver parte do custo para não perder o cliente. O risco de fluxo de caixa, especialmente para exportadores com contratos de longo prazo e capital de giro apertado. E o risco de concentração empresas muito dependentes de um único mercado ou de poucos clientes estão especialmente vulneráveis.
Além disso, há o risco indireto, mesmo quem não exporta para os Estados Unidos pode ser afetado pela volatilidade cambial, pelo encarecimento de insumos importados e pela eventual entrada de produtos desviados de outros mercados, que pressionam preços no mercado interno.
Quais setores da economia brasileira tendem a ser mais prejudicados caso as disputas comerciais entre as grandes potências se intensifiquem?
Os setores mais expostos são justamente os de maior valor agregado e mais dependentes do mercado norte-americano. No caso da tarifa dos Estados Unidos, os mais atingidos são café, petróleo e aço, que juntos respondem por mais de 30% das exportações brasileiras àquele destino. O café, em particular, é um caso sensível, porque ficou fora da lista de exceções e os Estados Unidos são um comprador estratégico do produto brasileiro.
Na indústria de transformação, os segmentos mais vulneráveis são máquinas e equipamentos, siderurgia, alumínio, cobre, calçados, móveis, têxteis e autopeças, setores que empregam intensamente e para os quais os Estados Unidos são um dos principais compradores.
Vale destacar que alguns produtos estratégicos foram poupados na configuração atual, como aeronaves civis, energia, suco de laranja, ferro-gusa, metais preciosos, celulose e fertilizantes, o que atenuou o impacto agregado.
Mas, numa hipótese de escalada com ampliação das listas ou retaliações cruzadas entre as potências, o efeito se espalharia para praticamente toda a indústria de bens intermediários e de capital, além de afetar a confiança e o investimento de forma difusa.
Existem segmentos que podem ser beneficiados por esse redesenho das cadeias globais de produção? Quais oportunidades podem surgir para o Brasil?
Quando as grandes potências se fecham mutuamente, abre-se espaço para fornecedores alternativos e o Brasil está bem posicionado em várias frentes.
O caso mais evidente é o do agronegócio, na medida em que a China reduz compras dos Estados Unidos, o Brasil amplia sua fatia. No ano passado, o país exportou cerca de US$ 100 bilhões para a China, mais que o dobro do que vendeu aos Estados Unidos, e os embarques de soja no início de 2026 cresceram mais de 80% na comparação anual, apoiados numa safra recorde acima de 180 milhões de toneladas. O Brasil já assumiu a liderança também nas exportações de milho, ocupando espaços antes dominados pelos norte-americanos.
Além das commodities, há oportunidades no “nearshoring” (estratégia de negócios em que uma empresa transfere suas fábricas ou operações de atendimento para países próximos geograficamente) e “friend-shoring” (estratégia de governos e empresas de transferir suas cadeias de suprimentos e fábricas para países aliados e politicamente confiáveis): empresas globais que reorganizam suas cadeias buscam países estáveis, com escala, energia limpa e mercado interno relevante, atributos que o Brasil oferece.
Setores como proteína animal, celulose, energia renovável, mineração de minerais críticos (incluindo terras raras), etanol e bioinsumos tendem a ganhar. E há uma janela de captação de investimentos produtivos para empresas que desejam diversificar suas plataformas industriais fora do eixo Estados Unidos China.
O desafio é transformar essa vantagem de commodities em valor agregado, e não apenas surfar a alta dos preços de matérias-primas.
Como empresas brasileiras podem se preparar para um cenário de maior instabilidade no comércio internacional? Há estratégias que já deveriam estar sendo adotadas?
A preparação começa por tratar a instabilidade como premissa de planejamento, e não como choque temporário. Algumas estratégias já deveriam estar na mesa de qualquer empresa exposta ao comércio exterior.
Primeiro, diversificar mercados de destino, reduzindo a dependência de um único país ou região.
Segundo, diversificar fornecedores e insumos, mapeando alternativas para componentes críticos e reduzindo a exposição a gargalos geopolíticos.
Terceiro, adotar proteção cambial (hedge) de forma disciplinada, já que a volatilidade do câmbio tende a ser a variável mais imediata a impactar margens.
Quarto, revisar estrutura de custos e precificação, criando margem de manobra para absorver ou repassar variações tarifárias.
Quinto, aproveitar os acordos comerciais e instrumentos de apoio disponíveis, como as linhas de crédito do Plano Brasil Soberano, via BNDES, voltadas justamente a exportadores afetados.
E, por fim, investir em inteligência de mercado: monitorar de forma contínua o mapa tarifário, os prazos, as exceções e as negociações em curso, porque nesse ambiente a informação antecipada vale tanto quanto a eficiência operacional.
A empresa que trata comércio exterior como algo estático perde; a que constrói flexibilidade estrutural ganha.
Diversificar mercados e reduzir a dependência de poucos parceiros comerciais pode ser um diferencial competitivo daqui para frente? Quais regiões do mundo oferecem maior potencial para o Brasil?
A diversificação deixou de ser apenas boa prática de gestão de risco para se tornar um verdadeiro diferencial competitivo. Em um mundo fragmentado, ter acesso a múltiplos mercados é uma vantagem estratégica: reduz vulnerabilidade a choques políticos, dá poder de barganha e permite realocar fluxos rapidamente quando um destino se fecha.
O Brasil tem uma característica valiosa nesse contexto, é um dos poucos grandes países que mantém boas relações comerciais simultâneas com Estados Unidos, China e União Europeia.
Em termos de regiões com maior potencial, destaco quatro frentes. A Ásia, com a China no centro, mas também Índia, Vietnã, Indonésia e o Sudeste Asiático como mercados em expansão acelerada.
A União Europeia, cujo acordo com o Mercosul entrou em vigência provisória em maio de 2026, unindo blocos que somam PIB de mais de US$ 22 trilhões e 718 milhões de habitantes, um divisor de águas para o acesso do produto brasileiro ao mercado europeu.
O Oriente Médio e o Norte da África, com forte demanda por proteína, grãos e alimentos halal. E a própria América Latina e África, mercados de proximidade e de complementaridade ainda subexplorados.
A recomendação prática é priorizar mercados que combinem tamanho, estabilidade regulatória, acordos preferenciais e o Mercosul-UE é hoje a oportunidade mais concreta na mesa.
Qual pode ser o impacto dessa guerra comercial sobre o dólar, a inflação, os custos de produção e o crédito para empresas e consumidores brasileiros?
Sobre o câmbio, o principal efeito é a volatilidade: episódios de tensão comercial elevam a aversão a risco global e podem provocar oscilações bruscas do dólar. Vale notar, porém, que o real mostrou resiliência, apesar das tarifas, o Brasil registrou recorde de exportações em 2025, o que ajudou a sustentar o fluxo de divisas. Um dólar mais alto favorece o exportador de commodities, mas encarece insumos importados e componentes industriais.
Sobre a inflação, o efeito é ambíguo: internacionalmente, tarifas são inflacionárias, pois encarecem bens e desorganizam cadeias, estima-se que as tarifas americanas custem cerca de US$ 1.000 por domicílio nos Estados Unidos. No Brasil, o repasse depende do câmbio e da eventual entrada de produtos desviados de outros mercados, que podem até pressionar preços para baixo em alguns segmentos.
Nos custos de produção, o impacto tende a ser altista para quem depende de insumos importados. E, no crédito, o cenário de incerteza costuma manter os juros mais altos por mais tempo e tornar o crédito mais seletivo, daí a importância de instrumentos anticíclicos, como as linhas do Plano Brasil Soberano, que já recebeu bilhões de reais em pedidos de financiamento de empresas afetadas.
O Brasil está preparado, do ponto de vista econômico e diplomático, para enfrentar uma escalada das disputas comerciais entre as grandes potências?
O Brasil está razoavelmente preparado, com forças e fragilidades bem definidas.
Do lado econômico, as forças são consideráveis: uma pauta exportadora diversificada, liderança global em commodities agrícolas e minerais, matriz energética limpa e competitiva, mercado interno robusto e reservas internacionais que dão colchão de segurança contra choques externos. Foi essa base que permitiu ao país registrar exportações recordes em 2025 mesmo sob pressão tarifária.
Do lado diplomático, o Brasil tem tradição de multilateralismo, boa inserção nos foros globais e a capacidade rara de dialogar simultaneamente com Washington, Pequim e Bruxelas.
As fragilidades, porém, existem. A pauta exportadora ainda é muito concentrada em produtos de baixo valor agregado, o que deixa o país refém dos ciclos de preços de commodities. A infraestrutura logística, portos, ferrovias e estradas, segue sendo um gargalo de competitividade. E a dependência de insumos importados em setores industriais estratégicos é um ponto vulnerável.
Somando tudo, o Brasil tem condições de atravessar uma escalada sem ruptura, mas para prosperar nela precisa acelerar reformas de competitividade, investir em infraestrutura e agregar valor à sua produção.
Qual deve ser o papel do governo brasileiro nesse contexto? É possível manter uma posição equilibrada entre Estados Unidos e China sem comprometer relações estratégicas?
O papel do governo é triplo: defender interesses no curto prazo, negociar com pragmatismo e construir competitividade estrutural no longo prazo.
No curto prazo, cabe ao Estado dar suporte às empresas afetadas, como faz o Plano Brasil Soberano, que ampliou em bilhões de reais as linhas de crédito do BNDES para exportadores atingidos e buscar soluções negociadas, evitando a lógica de retaliação que só encarece a conta para todos.
No médio prazo, o governo deve ampliar a rede de acordos comerciais, e a entrada em vigor do acordo Mercosul-União Europeia é o melhor exemplo de política que abre mercados e reduz a dependência de qualquer parceiro isolado.
Quanto ao equilíbrio entre Estados Unidos e China, ele não é apenas possível, é a estratégia mais inteligente para um país como o Brasil. A China é hoje o maior parceiro comercial e destino de quase o dobro das exportações que seguem para os Estados Unidos, enquanto os Estados Unidos seguem sendo fonte crucial de investimento, tecnologia e mercado para manufaturados de maior valor.
Considerando o cenário atual, qual é sua avaliação para os próximos anos? O Brasil tende a sair fortalecido, perder competitividade ou encontrar novas oportunidades em meio à reorganização da economia global?
Minha avaliação é cautelosamente otimista, com uma ressalva importante: o resultado não está dado, ele será construído. A reorganização da economia global cria, ao mesmo tempo, riscos e oportunidades para o Brasil, e o saldo dependerá menos do cenário externo e mais das escolhas internas do país nos próximos anos.
No cenário mais provável, o Brasil tende a sair fortalecido em commodities e serviços ambientais, como fornecedor confiável de alimentos, energia limpa e minerais críticos para um mundo que busca segurança de abastecimento. A vigência do acordo com a União Europeia, o crescimento das exportações para a Ásia e a posição de neutralidade diplomática são trunfos concretos.
O risco, contudo, é o de uma “armadilha das commodities”: crescer na base da exportação de matérias-primas sem avançar em industrialização e valor agregado, o que deixaria o país estruturalmente vulnerável e refém dos preços internacionais.
Se o Brasil aproveitar essa reorganização para se posicionar como plataforma estável de produção e não apenas como celeiro do mundo, sairá claramente fortalecido.

