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Geopolítica

De dono do Chelsea a interlocutor da guerra: quem é Abramovich?

Ex-dono do Chelsea, possui relações com o Kremlin e uma trajetória marcada por negócios controversos

De dono do Chelsea a interlocutor da guerra: quem é Abramovich?

O nome de Roman Abramovich voltou ao noticiário internacional após o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, revelar que o empresário russo esteve em Kiev para transmitir uma mensagem ao presidente Vladimir Putin sobre possíveis negociações relacionadas à guerra.

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A declaração trouxe novamente os holofotes para uma das figuras mais conhecidas da elite econômica russa, cuja trajetória reúne negócios bilionários, influência política, futebol e uma série de controvérsias que atravessam mais de três décadas.

Zelensky afirmou que Abramovich procurou o governo ucraniano para atuar como interlocutor junto ao Kremlin. O presidente ucraniano relatou que o empresário se ofereceu para levar mensagens diretamente a Putin em um momento de impasse nas discussões sobre um possível acordo para encerrar o conflito iniciado em 2022.

Embora tenha voltado a ganhar destaque por sua participação indireta nas negociações, Abramovich já era uma figura amplamente conhecida no cenário internacional antes mesmo da guerra.

Sua ascensão começou durante o processo de privatização da economia russa após o colapso da União Soviética, período que deu origem aos chamados oligarcas, grupo de empresários que acumulou enorme patrimônio em setores estratégicos da economia.

Fortuna construída após o fim da União Soviética

Roman Arkadyevich Abramovich nasceu em Saratov, na Rússia, em 1966. Ainda jovem, serviu ao Exército soviético e iniciou sua vida profissional em pequenos negócios comerciais.

Sua trajetória empresarial ganhou impulso no final da década de 1980, quando as reformas econômicas da Perestroika abriram espaço para a iniciativa privada.

Abramovich investiu inicialmente em setores variados, incluindo a fabricação de brinquedos, criação de animais e comércio de commodities.

Nos anos seguintes, ampliou sua atuação para diferentes segmentos e passou a concentrar investimentos no setor de petróleo, que se tornaria a principal fonte de sua riqueza.

O ponto de virada ocorreu em 1995, quando se associou ao empresário Boris Berezovsky na aquisição da petrolífera Sibneft. O negócio foi alvo de questionamentos e gerou debates sobre a proximidade entre empresários e o governo russo durante a gestão de Boris Yeltsin. Ainda assim, a operação consolidou Abramovich entre os homens mais ricos e influentes do país.

Sua influência ultrapassou o ambiente empresarial. Em 1999, ele foi eleito governador da região de Chukotka, no extremo leste da Rússia, cargo que ocupou durante quase uma década. Ao longo desse período, construiu uma imagem de empresário com acesso privilegiado aos círculos de poder do país.

Chelsea, sanções e controvérsias

A projeção global de Abramovich ganhou uma nova dimensão em 2003, quando ele adquiriu o Chelsea Football Club, da Inglaterra.

A compra marcou uma transformação profunda no futebol europeu e ajudou a inaugurar uma nova era de investimentos bilionários em clubes esportivos.

Sob sua gestão, o Chelsea conquistou títulos nacionais e internacionais, incluindo a Liga dos Campeões da União das Associações Europeias de Futebol (UEFA). O empresário investiu bilhões de dólares na equipe e se tornou uma das figuras mais influentes do esporte mundial.

Entretanto, sua trajetória também foi acompanhada por controvérsias. Abramovich chegou a ser preso em 1992 sob acusação relacionada a patrimônio estatal. O caso acabou sendo arquivado após um acordo com as autoridades russas.

Outra polêmica envolve a obtenção da cidadania portuguesa em 2021. O processo passou a ser investigado pelo Ministério Público de Portugal após questionamentos sobre os critérios utilizados para a concessão da nacionalidade.

A situação do empresário se tornou ainda mais delicada após a invasão da Ucrânia pela Rússia, em fevereiro de 2022. O governo britânico e a União Europeia incluíram Abramovich nas listas de sanções contra oligarcas russos. As medidas resultaram no congelamento de ativos e pressionaram pela venda do Chelsea.

Os recursos obtidos com a venda do clube seguem no centro de uma disputa jurídica e política. O governo do Reino Unido exige que cerca de 2,5 bilhões de libras sejam destinados exclusivamente à Ucrânia, enquanto Abramovich defende que os valores possam beneficiar todas as vítimas do conflito.

A ligação de Abramovich com o Corinthians

A relação de Roman Abramovich com o futebol brasileiro ganhou destaque em 2005, quando surgiram suspeitas sobre sua ligação com a Media Sports Investments (MSI), fundo de investimentos que firmou parceria com o Corinthians e promoveu uma das maiores injeções de recursos da história do clube.

Na época, o bilionário russo teria participação de 15% na empresa liderada por Kia Joorabchian, informação que nunca foi oficialmente confirmada.

O investimento da MSI permitiu a contratação de jogadores de alto custo, entre eles o atacante argentino Carlos Tevez, adquirido por cerca de US$ 19,5 milhões.

A passagem de alguns atletas pelo Corinthians poderia funcionar como uma espécie de ponte para o futebol europeu, especialmente para o Chelsea, controlado por Abramovich desde 2003.

Apesar do forte aporte financeiro, o projeto terminou de forma conturbada. A parceria entre Corinthians e MSI foi encerrada em meio a disputas judiciais, investigações sobre a origem dos recursos e problemas administrativos.

Nos anos seguintes, o clube enfrentou dificuldades esportivas e acabou sendo rebaixado para a Série B do Campeonato Brasileiro em 2007, episódio frequentemente associado ao período posterior ao fim da parceria.

As investigações conduzidas pela Polícia Federal também chegaram a citar o nome de Abramovich. O empresário foi apontado como possível sócio do magnata russo Boris Berezovsky, que era suspeito de ter participação oculta na MSI.

Nenhuma acusação contra Abramovich prosperou na Justiça brasileira, e o processo envolvendo a parceria terminou sem condenações.

Ainda assim, o caso permanece como um dos capítulos mais controversos da história recente do Corinthians.

Papel discreto nas negociações da guerra

Apesar das sanções, Abramovich manteve algum grau de participação em iniciativas diplomáticas relacionadas à guerra. Desde os primeiros meses do conflito, ele atuou em negociações envolvendo corredores de exportação de grãos e trocas de prisioneiros entre Rússia e Ucrânia.

O empresário foi procurado por Zelensky para transmitir ao Kremlin uma proposta de diálogo direto entre os líderes dos dois países.

O objetivo era demonstrar disposição de Kiev para avançar em negociações diplomáticas em um momento de desgaste militar para ambos os lados.

A tentativa, porém, não teve sucesso. Putin rejeitou a possibilidade de uma reunião direta e não demonstrou interesse em avançar na proposta apresentada por intermédio do empresário.

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