A segunda proposta de delação premiada apresentada pelo banqueiro Daniel Vorcaro à Polícia Federal (PF) e à Procuradoria-Geral da República (PGR) trouxe uma mudança relevante em relação ao relato anterior sobre sua relação com o senador Ciro Nogueira (PP-PI).
Na nova versão, Vorcaro deixou de atribuir pagamentos e benefícios concedidos ao parlamentar a uma relação de amizade e passou a descrevê-los como repasses destinados à defesa de interesses do Banco Master junto ao Congresso Nacional.
A alteração ocorre após a rejeição da primeira proposta de colaboração e enquanto os órgãos responsáveis analisam a viabilidade de um eventual acordo.
Mudança no conteúdo da colaboração
A primeira tentativa de acordo apresentada por Vorcaro sustentava que despesas custeadas para Ciro Nogueira, incluindo viagens e eventos, eram resultado de uma relação pessoal entre ambos e não envolviam qualquer expectativa de contrapartida política ou institucional.
Após a rejeição desse material pela PF e pela PGR, a defesa do banqueiro reformulou o documento e passou a apresentar os repasses sob uma perspectiva distinta, relacionando-os a uma suposta tentativa de obtenção de apoio para pautas de interesse do Banco Master no Congresso Nacional.
A nova proposta também ampliou o escopo das informações apresentadas aos investigadores. Além das referências a políticos, Vorcaro acrescentou detalhes relacionados à captação de recursos de regimes próprios de previdência municipais e estaduais para o Banco Master, tema que passou a integrar a nova rodada de negociações entre sua defesa e os órgãos de investigação.
Investigadores consideram que parte significativa dos fatos narrados já era conhecida por meio das provas obtidas durante as apurações, especialmente a partir da análise do conteúdo armazenado no celular do ex-banqueiro.
Por essa razão, a avaliação preliminar é de que o material pode não representar avanço suficiente para justificar os benefícios previstos em um acordo de colaboração premiada.
Pagamentos e suspeitas sob investigação
Como mostrou O Brasilianista, a relação entre Vorcaro e agentes políticos é um dos focos centrais da Operação Compliance Zero. O banqueiro teria realizado pagamentos mensais ao senador Ciro Nogueira desde pelo menos 2021, em valores que teriam começado em R$ 300 mil e alcançado R$ 500 mil em 2023.
As transferências estariam associadas ao apoio político a projetos de interesse do empresário em Brasília.
Vorcaro declarou inicialmente a seus advogados que os benefícios concedidos a políticos eram motivados por relações pessoais e de amizade, sem exigência de retorno institucional. Essa versão integrou a primeira proposta de colaboração, posteriormente considerada insuficiente pelos investigadores.
Integrantes da equipe do procurador-geral da República, Paulo Gonet, demonstravam disposição para avaliar o material, enquanto investigadores da Polícia Federal mantinham uma posição mais cautelosa diante do conteúdo apresentado.
Eventos e aproximação com autoridades
Conforme reportagem do O Brasilianista, as investigações identificaram que Vorcaro financiou uma série de eventos de alto padrão frequentados por políticos e autoridades brasileiras no exterior.
A apuração aponta que o empresário desembolsou pelo menos R$ 11,9 milhões para encontros realizados em Nova York durante 2024.
Entre os eventos está uma degustação de uísques e charutos realizada em Manhattan com a presença de figuras políticas como o então governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro, o senador Ciro Nogueira e parlamentares federais.
Os convidados receberam garrafas de uísque avaliadas em aproximadamente R$ 30 mil, além de outros itens oferecidos pelo anfitrião.
Vorcaro financiou jantares, festas e encontros em Londres e Nova York que reuniram integrantes dos Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário.
Entre os participantes estavam ministros do Supremo Tribunal Federal, representantes do Ministério Público e dirigentes de órgãos públicos federais.
Relação com propostas legislativas
Uma das linhas de investigação envolve a chamada “Emenda Master”, apresentada por Ciro Nogueira em agosto de 2024. A proposta previa ampliar de R$ 250 mil para R$ 1 milhão o limite de cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) por CPF e por instituição financeira.
A iniciativa foi apresentada dez dias após Vorcaro participar do casamento da filha do senador, evento que aparece em mensagens analisadas pelos investigadores.
Integrantes do mercado financeiro e agentes políticos identificaram a proposta como uma medida que poderia beneficiar diretamente o modelo de negócios adotado pelo Banco Master.
O banco tinha forte dependência de produtos financeiros protegidos pelo FGC. O próprio Vorcaro afirmou em depoimento à Polícia Federal que o modelo operacional da instituição era baseado na cobertura oferecida pelo fundo.
A proposta legislativa, entretanto, não avançou durante a tramitação e acabou não sendo acolhida pelo relator responsável.
Próxima decisão sobre o acordo
A PF e o PGR seguem examinando o conteúdo entregue pela defesa de Daniel Vorcaro para decidir se a colaboração será aceita, complementada ou rejeitada. Até o momento, não houve comunicação formal ao banqueiro sobre o resultado da análise.
Caso a proposta seja recusada, a Polícia Federal poderá solicitar o retorno de Vorcaro ao sistema prisional. Desde março, ele permanece em uma cela especial na Superintendência da PF em Brasília para participar das negociações relacionadas ao acordo de colaboração.
A expectativa entre os envolvidos é que uma definição sobre o futuro da delação ocorra nos próximos dias, encerrando uma etapa que se tornou central nas investigações sobre o Banco Master e seus vínculos com agentes públicos.

