A Justiça de São Paulo aceitou o pedido de recuperação judicial do Grupo Toky, controlador das redes Tok&Stok e Mobly, permitindo o início formal do processo de renegociação de uma dívida estimada em R$ 1,1 bilhão.
A decisão foi proferida pela 3ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais do Foro Central Cível da capital paulista e foi comunicada ao mercado pela companhia nesta segunda-feira (15).
O pedido havia sido protocolado em maio e envolve não apenas a controladora, mas também empresas subsidiárias ligadas à operação do grupo.
Com a decisão judicial, a empresa passa a contar com os mecanismos de proteção previstos na legislação para negociar débitos e apresentar um plano de reestruturação aos credores.
O que levou a empresa à crise financeira?
Como divulgou O Brasilianista, a deterioração financeira foi provocada por uma combinação de fatores econômicos e operacionais que afetaram diretamente o desempenho das marcas.
A companhia afirmou que enfrentou um cenário de juros elevados, maior dificuldade de acesso ao crédito e desaceleração do consumo, fatores que reduziram a demanda por produtos do setor de móveis e decoração. Ao mesmo tempo, a queda da confiança dos consumidores dificultou a recuperação das vendas.
O grupo informou ainda que o desempenho comercial ficou abaixo do esperado e que restrições temporárias nos níveis de estoque também contribuíram para pressionar a geração de caixa. Diante desse cenário, as tentativas de renegociação com credores não foram suficientes para estabilizar a situação financeira.
Bloqueios de recursos agravaram a pressão sobre o caixa
Além das dificuldades operacionais, a companhia apontou problemas relacionados ao acesso a recursos considerados essenciais para a manutenção das atividades.
Segundo o advogado especialista em recuperação e reestruturação de empresas Rodrigo Spinelli, ouvido pelo O Brasilianista, o grupo relatou bloqueios e retenções de aproximadamente R$ 77 milhões em contas e recebíveis.
“Na prática, é uma tentativa de evitar que a demora na análise inicial comprometa ainda mais a operação empresarial”, explica o especialista.
De acordo com Spinelli, o caixa costuma ser um dos elementos mais sensíveis em processos envolvendo grandes varejistas, já que a operação depende da capacidade de financiar estoques, logística e fornecedores.
Recuperação inclui Tok&Stok, Mobly e outras empresas
O processo apresentado à Justiça foi estruturado de forma conjunta para diversas empresas ligadas ao grupo econômico.
Segundo Rodrigo Spinelli, o pedido foi elaborado em regime de consolidação processual.
“Empresas que, inclusive, já haviam recorrido anteriormente à recuperação extrajudicial, com plano homologado em 2024”, destacou o advogado ao comentar o histórico recente da companhia.
A estratégia permite que cada empresa preserve a individualização de suas dívidas, embora as negociações ocorram dentro de um mesmo procedimento judicial.
O que muda após a decisão da Justiça?
Com o deferimento do processamento da recuperação judicial, o grupo passa a contar com um período de proteção contra cobranças e execuções judiciais enquanto negocia uma solução com os credores.
Esse mecanismo, conhecido como “stay period”, tem duração inicial de 180 dias e busca evitar que disputas individuais comprometam a continuidade das operações.
Durante esse período, a empresa deverá apresentar um plano detalhado de recuperação financeira, indicando como pretende reorganizar suas obrigações, preservar empregos, manter atividades e garantir pagamentos futuros.
A proposta ainda precisará ser submetida à análise e votação dos credores antes de eventual homologação pela Justiça.
Caso ocorre em meio a recorde de recuperações judiciais
A situação da Toky acontece em um momento de forte crescimento dos processos de recuperação judicial no país.
Dados citados pelo O Brasilianista mostram que 2.466 empresas ingressaram em recuperação judicial em 2025, o maior número já registrado na série histórica.
Para o diretor da Associação Brasileira de Jurimetria (ABJ) e professor da PUC-SP, Marcelo Guedes Nunes, o avanço desses processos não está necessariamente ligado ao comportamento da economia.
“Uma das descobertas que a gente nota ao acompanhar essa variação é que não há associação entre a variação no PIB e a quantidade de recuperações judiciais. De fato, a quantidade de recuperações judiciais, desde 2005, vem crescendo de maneira independente do PIB”, afirmou.
O especialista também alerta que o aumento desses processos gera impactos sobre o mercado de crédito e sobre o ambiente de negócios.
“Muitos devedores utilizam esses processos como forma de postergar, de atrapalhar a exigência de dívidas que, em tese, deveriam ter sido pagas. E essa desorganização gera incerteza. Essa incerteza é medida através de um risco e o risco, quando se aplica ao crédito, basicamente se reverte em juros”, disse.
Empresas que também buscam reestruturar dívidas
Como informou O Brasilianista, a recuperação judicial da Toky se soma a uma lista de grandes empresas que recorreram aos mecanismos de reestruturação financeira nos últimos anos.
A Americanas tenta encerrar o processo iniciado após a descoberta de inconsistências contábeis bilionárias. A Raízen negocia uma recuperação extrajudicial envolvendo cerca de R$ 65 bilhões em compromissos financeiros.
Também figuram entre os principais casos recentes o Grupo Pão de Açúcar (GPA), a Agrogalaxy, a Ambipar, a Bombril, a Unigel, o Grupo Fictor e a 123 Milhas, um dos maiores processos envolvendo consumidores no país.

